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Nas últimas seis semanas, trabalhei com Santana Lopes para o ajudar a ganhar as eleições para a liderança do PPD. Perdi. Faz parte da vida política. Umas vezes, ganha-se; outras vezes, perde-se. Devo dizer que sinto um grande orgulho por ter trabalhado com Santana Lopes, e agradeço a oportunidade que me deu. Não o conhecia até há dois meses atrás, e gostei de trabalhar com ele. Empenhado e profissional, com muita energia e coragem, fez tudo para ganhar até ao último minuto da campanha. Um homem decente, educado e que sabe motivar equipas. Vi muita gente, com vidas profissionais cheias de sucessos, e que não precisam de uma carreira política, a empenharem-se e a acreditar que seria possível ganhar.

Santana Lopes foi capaz de convencer e mobilizar pessoas fora do partido com experiências profissionais variadas para o ajudarem a produzir propostas para o país. Mostrou uma enorme abertura a novas ideias. Nunca travou o debate. A sua campanha foi um exemplo de abertura à sociedade civil, não foram apenas palavras. Espero que o legado de propostas para a inovação, o investimento privado, para políticas fiscais e sociais, para o ordenamento territorial não se perca. Infelizmente, quase ninguém deu atenção às propostas feitas pela candidatura de Santana Lopes. Aprendi uma boa lição nesta campanha. Os jornalistas, os cronistas e os opinion makers criticam quando não há propostas. Mas quando elas aparecem, ignoram-nas com uma indiferença olímpica. Não as leem e, no fundo, estão-se nas tintas para as propostas. Gostam mesmo é do que criticam, do puro combate político. Mas as coisas são o que são e nunca esperei que discutissem com cuidado as propostas feitas. Apesar de tudo, estão feitas e, passe a imodéstia (relativa porque apenas ajudei), algumas delas merecem ser discutidas a sério.

Uma palavra para o político, Santana Lopes. Entre outras, tem uma qualidade que admiro profundamente. É um verdadeiro democrata. Nunca o vi irritado com ataques, muitos deles injustos e que apenas revelem ignorância, nunca ouvi uma ofensa contra os seus adversários, nunca vi rancor, raiva ou ressentimento. Santana Lopes sabe ganhar e sabe perder e percebe que essa é a essência da vida democrática. É um verdadeiro gentleman da democracia. Num país, onde nos últimos anos tantos líderes políticos espalham ódios pessoais e prometem vinganças, é politicamente saudável existirem políticos como Santana Lopes. Não há democracias com qualidade sem políticos que sabem ser democráticos. Só por isso, e não é pouco, Santana Lopes merece a minha admiração.

Rui Rio venceu e merece os parabéns. Em democracia, quem ganha tem sempre mérito. E a verdade é que Rio insistiu numa estratégia que me parecia suicidária, o apelo a entendimentos com o PS de de António Costa, mas conseguiu um mandato forte. Fui e sou muito crítico dessa estratégia. Acho que não vai resultar, mas registei a teimosia e a coragem de Rio. Apesar de um mandato político claro, a candidatura de Rio foi absolutamente vazia do ponto de vista programático. Alguém se lembra de uma proposta específica de Rui Rio durante mais de dois meses de campanha? Falou de um imposto para pagar a dívida mas foi incapaz de explicar como funcionaria. De resto, nada sobre políticas sociais, sobre crescimento económico, sobre estímulo ao investimento, sobre inovação. Não sabemos se quer a regionalização ou não. Sobre a justiça e a Procuradoria Geral da República, só assistimos a trapalhadas, com Rio a conseguir ter três posições em dois debates.

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Da campanha de Rui Rio, retemos apenas duas ideias. Em primeiro lugar, conseguiu convencer os militantes do PPD que Santana Lopes havia tido uma oportunidade como PM e tinha falhado. Por isso, seria agora a sua vez de merecer uma oportunidade. Em segundo lugar, se o PPD não ganhar as eleições de 2019, e o PS não alcançar a maioria absoluta, o seu objectivo será substituir o PCP e o BE no apoio a um governo socialista minoritário. Rui Rio não foi explicito, apesar de tudo a sua coragem não foi tão longe, mas tentará fazer um bloco central. Se não ganhar as eleições em 2019, um mero apoio parlamentar a um governo socialista não será suficiente para salvar a sua liderança do PPD. Só um bloco central, com o PPD a receber uma fatia do poder, o poderá manter à frente do partido. E Rui Rio tudo fará para continuar a liderar o partido. Ele não veio para ficar menos de dois anos. Aqueles que por cálculo político ou por “razões pessoais” adiaram as suas candidaturas à liderança do PPD para 2019 terão que lutar muito para derrubar Rio.

A disponibilidade de Rui Rio para um entendimento parlamentar ou governativo com o PS vai mudar a política portuguesa. António Costa foi o segundo vencedor das eleições internas do PPD. A partir de amanhã, pode ser mais duro com o PCP e com o BE, porque agora tem uma alternativa à direita. Até 2019, a política portuguesa será uma competição entre o PCP, o BE, o PPD (e o CDS?) para ver quem ajudará o PS a governar. Para um PM que perdeu as eleições em 2015, nada mau. O que mostra que na política portuguesa, com um Estado poderoso, é mais importante liderar um governo do que ganhar eleições. O CDS poderá ser o segundo vencedor das eleições do PPD, se souber transformar-se numa verdadeira alternativa à direita do PS. Mas para isso, terá que resistir à tentação de entrar também na competição para ajudante dos socialistas, o que não tenho dúvidas alguns sectores do partido desejam.

O PCP e o BE terão a vida mais difícil a partir de agora. Com um líder do PPD aberto a entendimentos com um governo socialista, as pressões sobre Costa para o fazer e abandonar as esquerdas radicais serão enormes. Aliás, se Costa se decidir pelo entendimento com o PPD, poderá provocar eleições antecipadas. A partir de amanhã, Rio será o principal alvo do PCP, do BE e dos sectores do PS que querem a geringonça e o confronto com a “direita”. A eleição de Rui Rio também não foi boa para Marcelo Rebelo de Sousa. Costa e Rio poderão fazer uma coligação partidária contra as tentações presidencialistas de Belém. Um eventual governo de bloco central a partir de 2019, reduzindo o Presidente a uma figura secundária, poderá mesmo levar Marcelo a desistir de um segundo mandato.

Há um ponto final que merece ser referido. Para elogiar as virtudes de um bloco central, muitos dos que recusaram o “modelo económico germânico” para Portugal durante o governo de Passos Coelho, agora já elogiam as grandes coligações na Alemanha como modelo de governo para o nosso país. A coerência e a consistência nunca foram o forte de muitos em Portugal. Dado o entusiasmo com grandes coligações e com blocos centrais, sugiro uma análise um pouco mais cuidada às duas grandes coligações entre Merkel e o SPD. Serviram sobretudo para as lideranças do SPD salvarem os seus lugares apesar de terem perdido as eleições. E o resultado foi nos dois casos uma prestação eleitoral ainda pior para o SPD. Aparentemente, Rui Rio aderiu à JSD por causa do seu entusiasmo com o SPD, adquirido no colégio alemão no Porto. Esperemos que o seu destino não seja agora transformar o PPD no SPD português, fazendo pelo caminho de Costa ‘a Merkel portuguesa’. Devemos apreciar sempre as ironias da política, sobretudo na hora da derrota.