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Política

Para que serve este último ano de legislatura? /premium

Autor
  • Filomena Martins

Há um País para governar. E não vai haver nem tempo, nem dinheiro, nem capacidade para o fazer. Pode ser que a factura seja passada no foto finish. Mas será mais um ano perdido.

António Costa vai ter um último ano de legislatura unicamente eleitoralista. Distribuirá os trocos que lhe restam como milho pelos pombos para segurar os votos da Função Pública e dos outros sectores que lhes pareçam fundamentais. Gerirá a relação com Marcelo para evitar quaisquer conflitos. Terá de rodopiar entre as atoardas ao Bloco e as farpas do PCP, que a dança a três já deu o que tinha a dar. E se já sabe o que esperar do CDS, ainda tem de perceber se Rio esconderá algum trunfo que nenhum de nós ainda conseguiu perceber, mas sobretudo, estar atento a quanto valerá um Santana à solta. As reformas? O investimento? Os problemas na Saúde, na Educação, na Defesa, enfim, o País? Qual quê! Isso vai ter de esperar. De continuar a esperar.

Apesar do ambiente hostil em curso na Geringonça, eu também sou das que não acredito que vá haver problemas com o Orçamento. O pior só virá depois. Não vai ser bonito de ver. Mas seguramente não vai ser um ano bom de viver.

Aliás, politicamente o ambiente já está a começar a ficar feio. Costa teve demasiada pressa em cumprir todos os acordos da esquerda. Agora pouco ou nada tem a oferecer. E a parceria está a desfazer-se. E esgotou-se também a paciência com que todos se suportavam. Daí a guerra aberta com o Bloco, a quem primeiro tirou o tapete e agora desmentiu, humilhou e ridicularizou no caso da ‘taxa Robles’. Aliás, tenho alguma expectativa para perceber como será o bate-boca entre o primeiro-ministro e Catarina Martins no primeiro-debate quinzenal pós-férias, na próxima quarta-feira. Era capaz de apostar que será a bloquista o seu alvo de hostilidade e não Assunção Cristas como habitualmente.

Do outro lado do torno está o PCP. Enquanto Jerónimo assiste de camarote ao braço de ferro do Governo com os bloquistas, marca terreno. Se dúvidas houvesse, basta lembrar o episódio lamentável da luta de galos entre Mário Nogueira e António Costa, a que o líder da Fenprof quis que todo o país assistisse. Os comunistas já perceberam que as migalhas que Centeno ainda tem para dar não vão para os professores. E essa é uma luta da CGTP, que se vai alargar (e muito) ao longo do próximo ano. O PC não só quer distanciar-se dos seus maiores rivais, como não vai de maneira nenhuma voltar a mão ao socialistas. Aprendeu a lição com o resultado das últimas autárquicas.

De Rui Rio ninguém sabe o que esperar. Talvez nem ele. Mas Rio vai ter de acordar para a vida se quiser contar para alguma coisa. É agora ou nunca que o técnico-gestor vai ter de mostrar se também é ou não político. Se continuar como até aqui, sem mexer uma palha, navegando ao sabor dos ventos, dará ao PSD o seu resultado mais baixo de sempre. Se começar a fazer finalmente oposição, pode criar mais um problema (pelo menos um problemazito) ao primeiro-ministro. Costa deixa de contar com quem tem sido o seu grande amigo. Desde os tempos aliás em que um estava na Câmara de Lisboa e outro na do Porto.

E é preciso ter em conta Santana. A velha raposa quer ser agora um falcão. Que todos esqueçamos as manhas e os erros e relevemos a experiência e a visão. Não será fácil. Mas o ex-PSD preenche um espaço há muito vazio. Quer ir buscar os descontentes e abstencionistas crónicos. Está a falar aos jovens, aos que não se lembram, não sabem, o que ele já fez. Por isso, nunca fiando no que pode pesar. Costa cometerá um erro se o desvalorizar.

Mas há muito mais para além dos cenários políticos, onde neste momento o PS está longe de uma maioria confortável.

As últimas notícias não dão a Costa boas notícias. O último ano da legislatura vai ser marcado por menos crescimento da economia, por mais dívida pública, por mais preocupações internacionais. Os alertas chegam de todos os lados. Do FMI. Das agências de rating. Do BCE e dos seus ex-dirigentes. Da UTAO e do Conselho de Finanças Públicas. E neste Orçamento que ainda está ser negociado vai ser preciso fazer muitas, mas mesmo muitas, continhas. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras. Não há dia que não haja ameaças de demissão de diretores, de ruptura em certos departamentos, de problemas sem fim. Nas escolas, além das reclamações dos professores, que já se percebeu que não vão caber no excel deste ano, há outros problemas para resolver. Faltam funcionários, há obras para fazer, estruturas para melhorar. E depois há os juízes e tribunais, os militares e a defesa, os polícias e as esquadras, e um sem número de exigências para as quais Centeno gritará a mesma frase de Gaspar: não há dinheiro, qual é a palavra que não perceberam.

No próximo ano vão começar também a ter desenvolvimentos importantes alguns processos judiciais que podem ser pouco simpáticos para destacadas figuras socialistas ou ligadas a governos do PS, desde a prisão de Vara às audições de Pinho na comissão de inquérito da EDP, passando pela investigação BES/GES/Ricardo Salgado. E se o caso Sócrates avançar antes das eleições de Outubro, não se saberá quem arrastará, nem que devastação provocará o megafuracão, por muito que Costa se tenha tentado afastar da sua trajetória.

Ou seja Costa tem um saco de gatos na mão. E os gatos começam a ficar inquietos. Muito inquietos. A partir de novembro, com o Orçamento aprovado, as humilhações ao Bloco vão ter troco e a voz de Jerónimo vai engrossar ainda mais. O primeiro-ministro vai ter de trocar as calças de ganga e os mocassins por um fato de treino e ténis, porque serão 12 meses de uma verdadeira maratona a correr contra a corrente.

Detalhe: há um País para governar. E não vai haver nem tempo, nem dinheiro, nem capacidade para o fazer. Pode ser que a factura seja passada no foto finish. Mas será mais um ano perdido.

Só mais duas ou três coisas

  • A Eleven Sports entrou no mercado dos direitos televisivos. São deste novo player os jogos da Liga dos Campeões. Viva a concorrência! Problema: a Sport TV — participada pela MEO, a NOS e a Vodafone, que enquanto a TVI passava o Shalke 04-FC Porto transmitia enlatados e repetições, e durante o Benfica-Bayern na nova plataforma, dava andebol e padel — continua a cobrar os mesmos preços. Onde é que está a supervisão da concorrência?
  • Paulo Gonçalves está desde o início do caso e-toupeira, há um ano, no centro das suspeitas de ter usado funcionários judiciais para ter acesso a informações confidenciais em benefício do Benfica. O clube sempre o protegeu e defendeu, levando a duas teorias: ou era inocente ou sabia demais e não o podiam deixar cair. Agora que quer ele quer a SAD foram acusados pelo Ministério Público é que o assessor finalmente saiu, alegando… “razões pessoais”. Portanto, Vieira deve ter chegado à conclusão que os dados secretos eram para uso lá de casa.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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