Face à vitória esmagadora do “não” no referendo, que reforçou a legitimidade interna do governo grego, são muitas as perguntas sobre o que sucederá nos próximos dias e ainda poucas as respostas para dar. Mas, nestes tempos de incertezas, há pelo menos algo que podemos tomar por certo: se, como todos dizem, o referendo fez subir a parada e atirou o futuro da Europa para a mesa das negociações, então este será dramaticamente decidido num braço-de-ferro entre a posição de um partido radical (como o próprio Syriza se define) e a dos partidos de matriz europeia (que lideram os restantes 18 membros do Eurogrupo e têm a mesma legitimidade democrática que o Syriza). E esse braço-de-ferro não augura nada de bom, pois tem ficado claro que a promessa de Tsipras de derrotar as políticas de austeridade passa por colocar em causa o actual projecto europeu – as acusações de Varoufakis, que qualificou as políticas europeias de “terrorismo”, falam por si. É por isso que esta vitória do Syriza no referendo é também de todos os inimigos da integração europeia e do Euro, que têm como bandeira política a deslegitimação das instituições europeias. Não foi só Tsipras quem ganhou no referendo, foi também Le Pen.

Parece uma jogada de mestre. À margem do escrutínio político do referendo e da governação do Syriza, a direita eurocéptica tem observado ao longe as suas batalhas serem travadas por Tsipras e Varoufakis, preservando-se incólume do respectivo desgaste político. Em seis meses de governo na Grécia, o Syriza fragilizou o Euro, questionou a legitimidade das instituições internacionais, despertou ódios nacionalistas, abanou o xadrez geopolítico da Europa com a aproximação à Rússia e semeou a desconfiança acerca da viabilidade futura da União Europeia. No fundo, executou em tempo recorde tudo a que aspira a direita eurocéptica, que engloba desde radicais nacionalistas a neonazis. E fê-lo debaixo de aplausos, usufruindo de uma legitimidade política e de uma aceitação internacional inalcançáveis para essa direita. Ou seja, mesmo que involuntariamente, o Syriza é hoje um cavalo-de-Tróia de Le Pen e demais líderes da direita eurocéptica na sua guerra contra a União Europeia e a “ditadura de Bruxelas”. E só o encanto que Varoufakis provocou em algumas cabeças impediu que o significado político destas simpatias fosse evidente e fizesse os alarmes soar.

Oportunidades não faltaram. Recorde-se que, por alguma razão, Le Pen apoiou e celebrou a eleição do Syriza, a partir de França. Ou que o Syriza está no governo coligado com os Gregos Independentes (partido de direita nacionalista) e que eram tantos os interesses partilhados entre ambos que essa coligação foi negociada em minutos, tendo sido o acordo político mais fácil de alcançar para Tsipras desde a sua eleição. Ou, ainda, que o referendo de ontem só se realizou porque, no parlamento grego, a Aurora Dourada (partido de extrema-direita fascista) votou ao lado do Syriza, contra os votos dos restantes partidos de tradição europeia. Sempre se disse que os extremos se tocam e atraem por via do reconhecimento dos seus interesses e inimigos comuns. Se dúvidas houvesse, os apoios que o Syriza reúne pela Europa confirmam a regra.

No final, não deixa de ser irónico. Andámos meses, após as eleições europeias de Maio de 2014, a discutir os perigos para o projecto europeu da emergência e crescimento de partidos de direita populista no seio da União Europeia e nos parlamentos nacionais. No entanto, o que poucos anteviram é que todos esses perigos identificados nessa direita seriam concretizados pelo Syriza e a esquerda radical. E que, em vez de recebida com apreensão e censura, a esquerda radical o faria sob elogios e aplausos. Agora, com a Grécia a derrubar mais pontes negociais, fica o aviso definitivo: a esquerda radical e a direita eurocéptica estão à beira de obter a vitória que procuram – a ruptura com as instituições europeias. Parabéns Tsipras. E parabéns Le Pen.