A esquerda europeia andou anos à deriva. Compreende-se, portanto, a sua euforia (nomeadamente em Portugal) face à vitória do Syriza, normal em quem acredita estar perante algo que nunca teve – uma alternativa às políticas de austeridade. Mas passada uma semana da eleição do novo governo grego, vai-se tornando incompreensível a aceitação acrítica das suas primeiras decisões que noutras circunstâncias fariam soar os alarmes.

Existe, logo à partida, um problema de expectativas. Muitos esperam que do Syriza nasça uma alternativa de política económica (sobre a gestão das dívidas dos países europeus e sobre o cumprimento das metas orçamentais). Mas aquilo que o Governo grego se propôs executar esta semana é bem diferente – uma ruptura profunda com os alicerces do liberalismo europeu. Aos microfones, Tsipras apresenta-se como salvador da democracia. Mas, na verdade, fez muito mais para nos convencer de que é um inimigo da liberdade. Isto porque, em apenas sete dias, sobressaíram dois inquietantes sinais de que o seu projecto político implica a fragilização das instituições europeias.

Comecemos pelo início: a coligação. Em menos de uma hora de conversações, Tsipras chegou a acordo para a constituição do Governo com o partido dos Gregos Independentes (Anel), oriundos da direita populista. À primeira vista, estranha-se a facilidade de entendimento entre dois partidos que se posicionam em polos ideológicos opostos. Depois, percebe-se. Tal como todos os partidos populistas europeus são anti-troika e anti-austeridade, Syriza e Anel estão unidos por essa causa. E não é porque consultaram os mesmos economistas: é porque o combate à austeridade é hoje a forma mais popular de abanar os alicerces das instituições europeias. O alvo do Syriza, do Anel ou, por exemplo, do Front National francês sempre foi este: romper com os princípios fundamentais (e forçosamente liberais) da União Europeia. Por isso, nada mais irrelevante que Syrizae Anel discordem sobre o resto. Já se sabe: o que une os revolucionários é a revolução, não o que se lhe segue.

O segundo sinal desta ruptura com os princípios europeus ficou concretizado com a espontânea aproximação de Atenas a Moscovo. No dia em que tomou posse como primeiro-ministro, Tsipras reuniu com o embaixador russo. Três dias depois, a Grécia opôs-se a novas sanções europeias à Rússia em reacção ao ataque das forças pró-russas em Mariupol. No dia seguinte, o ministro das finanças russo é entrevistado pela CNBC, afirmando a disponibilidade dos russos para financiar os gregos. A sequência de eventos fala por si.

Do ponto de vista táctico, a aproximação de Tsipras a Putin é um erro evidente, do qual cedo se arrependerá – tanto porque a Europa lida mal com as chantagens de Moscovo como porque a economia russa, à beira de uma recessão grave e a olhar com terror para a queda do preço do petróleo, mal se consegue financiar a si própria, quanto mais aos outros.

Mas maior erro é analisar-se a questão do ponto de vista da táctica. É que o que separa Bruxelas e Moscovo não cabe numa folha de excel – é todo um conjunto de valores, liberdades e princípios democráticos que está em causa. Muito do que nos define como sociedades livres (liberdade de expressão, de imprensa, de associação política) é uma miragem na Rússia de Putin. E se Tsipras concretizar essa aproximação à Rússia, estará inevitavelmente a afastar-se desses valores liberais.

Nesta fase, não é certo o que será mais inquietante. Se os sinais que vêm da Grécia. Se a cegueira eufórica com que têm sido recebidos, na esperança de que a onda alastre a Espanha por via do Podemos (que este fim-de-semana fez uma manifestação de força). Por enquanto, são apenas isso, sinais. E daí a interrogação que consta do título. Mas será bom para todos (gregos, espanhóis e europeus) que não se convertam em certezas.

Não é aceitável um governo cuja identidade se afirma pela recusa dos princípios da liberdade. Nem é aceitável que tal política tenha espaço no coração da nossa Europa.