Passos Coelho fez uma intervenção pública e o país político começou a discutir o seu possível regresso à liderança do PSD. Mais importante do que discutir um hipotético regresso de Passos à política activa, é levantar a seguinte questão: se Passos resolver regressar, será para fazer o quê?  Essa é a questão decisiva.

Vamos por agora deixar de lado uma candidatura presidencial em 2026 (se quiser, será o candidato natural da direita), e aceitemos o pressuposto de que voltará a liderar o PSD e a ser de novo candidato a Primeiro Ministro. Muitos, sobretudo nas esquerdas, vão assustar os portugueses identificando Passos com a austeridade. É fundamental combater essa mentira. Há dois argumentos que mostram que a mentira é mesmo uma mentira.

Regressemos, por um breve momento, a 2011. Houve um programa de austeridade que resultou do facto de um governo socialista ter levado o Estado à falência. Foi esse governo socialista que negociou com a União Europeia e com o FMI um programa de austeridade que permitiu o financiamento do Estado português. No entanto, os socialistas aceitaram a austeridade, mas foram-se embora deixando o país entregue ao PSD e ao CDS. Como PM, Passos Coelho foi obrigado a executar um programa negociado e aceite pelos socialistas e imposto pela UE e pelo FMI. Passos não conseguiu ser PM com o seu programa político.

A coragem e a determinação foram necessárias para governar naquelas circunstâncias. De um lado, havia a troika a fiscalizar o governo português. Do outro lado, uma oposição socialista de uma enorme demagogia e populismo, comportando-se como se não tivesse qualquer responsabilidade com a falência de 2011. Passos mostrou as suas qualidades políticas, retirou o país da falência e da autoridade da troika, e regressou ao crescimento económico. Passos não foi o PM da austeridade. Sócrates foi o PM que trouxe a austeridade para Portugal. Passos libertou Portugal da austeridade.

Mas há uma segunda razão que explica que a história não se repete. Quando o PS abandonar o governo, haverá muitos problemas para resolver, mas o Estado português não estará na falência, como estava em 2011. Deu-se uma mudança absolutamente decisiva na política europeia: a política monetária do BCE. Com os efeitos económicos e financeiros do Covid, Frankfurt vai manter a actual política monetária pelo menos durante uma década. Basta olhar para a dívida pública francesa no pós-Covid. Será cerca de 120% do PIB. As dívidas públicas italiana e espanhola são ainda mais altas. Com o elevado endividamento público de três das quatro maiores economias da zona Euro, se o BCE abandonar a sua política monetária, será o Euro que está em risco. Como é óbvio o BCE não vai contribuir para a sua morte.

Com a política monetária do BCE, não haverá falências dos países da zona Euro, o que significa que Portugal não voltará a enfrentar uma crise soberana como a de 2011. Foi a falência do Estado (e não do país) que obrigou às medidas de austeridade mais duras como os cortes nas pensões e nos ordenados dos funcionários públicos. Mas sem falências soberanas, graças ao BCE, nenhum futuro governo de Portugal terá que cortar pensões ou ordenados da função pública (pelo menos enquanto Portugal estiver no Euro). Ou seja, se um dia voltar a São Bento, Passos Coelho não será obrigado a repetir a austeridade de 2011.

Um governo de Passos Coelho poderia finalmente executar um mandato reformista, que Portugal tanto precisa, mas que a falência de 2011 e a falta de maioria em 2015 impediram. Depois de mais de duas décadas de divergência com o resto da UE, Portugal necessita mais do que nunca de um governo que tenha uma visão de desenvolvimento económico e de justiça social para o país. Os governos socialistas, pelo contrário, têm empobrecido e acentuado as desigualdades no nosso país.

Passos Coelho não deve voltar para salvar a direita. A sua tarefa será muito mais importante. Terá que voltar para recolocar Portugal no caminho do desenvolvimento económico e da convergência com o resto da Europa. O PS já mostrou que não é capaz de o fazer. E na área do centro direita, de momento, só Passos Coelho tem a visão e as qualidades políticas para o fazer. Neste momento, é o único líder politico que poderá ajudar Portugal a ser mais europeu e mais rico.

Não sei se algum dia haverá uma maioria de portugueses que entenda isso. Mas sei que as esquerdas tudo farão para que isso não aconteça. Para eles, Passos é a maior ameaça aos seus privilégios injustos, que resultam da apropriação de recursos alheios, sobretudo da sociedade civil e dos privados, e que condenam os portugueses a uma vida de sobrevivência. Ou seja, é o “caminho para o socialismo.” Eis a tarefa de Passos, se um dia voltar: salvar Portugal da pobreza socialista.

O Passos Coelho da austeridade nunca mais voltará. Se voltar, será o Passos Coelho do crescimento económico, rumo no qual deixou Portugal quando abandonou São Bento.