Acabara de chegar à livraria quando reparei. Perto da secção de novidades, metendo as mãos de mulher entre páginas de romance.

À volta, as pessoas pegavam nos livros. Com cerimónia, temendo magoar ou deslocar o miolo (igual a lidar com doentes). De mão na contracapa e um ou dois dedos travando a capa, que se queria abrir. Cheirando. Lendo a lombada num gesto de não me misturo com isto. Aproximando muito a cara. Em grupo (quatro mãos na mesma obra), com conversas paralelas. E, claro, em casal: ela aconselha, ele resiste.

Mas topei-a quando entrei na livraria, justamente nas novidades. Delicada, muito mulher, separava as páginas com o indicador. De início nada a distinguia. Mulher igual a muitas mulheres. Até bonita.

Mesmo ao longe, era possível identificar uma incongruência no braço direito. Fingi interessar-me pelo livro que ela segurava. Vestia um top. Os braços, volumosos o suficiente para serem sexy, pegavam no livro com delicadeza, indiferentes à própria irregularidade.

Já próximo, à distância de um olá baixo, não consegui perceber de imediato o que se passava, em parte porque não queria acreditar. Porém, aquilo tornou-se demasiado evidente. Saltava aos olhos.

Era isto: no braço direito, alguns centímetros acima do cotovelo, havia uma rodela de pêlo muito crescido. Quando digo pêlo, digo escuro, alto de dois centímetros e bem ostensivo. Nem lanugem, nem penugem. Era pêlo antigo posto à solta.

Numa mulher de resto bonita, a coisa espantou-me. Não conseguia desfitar dela, do medalhão. Tive medo que reparasse. Pus os olhos, as mãos e quase eu todo num livro. Tentei ser discreto, continuando a observar.

Seria paga de alguma promessa? Seria mágoa mal disfarçada? Seria doença? Seria adesão à beleza anti-aristotélica? Um statement político? Pura maluquice? Senti desconforto por ela. Sem conhecimento da causa, até as atitudes mais sublimes podem parecer grotescas.

Quis perguntar-lhe pela pilosidade. Esquecer as barreiras do que é sensato, discreto, bem-educado, e simplesmente confrontá-la: «Minha senhora, passa-se qualquer coisa de errado. Pode explicar-me a razão do pêlo, por favor?».

Aproximei-me. Ficámos frente a frente. Impedia-lhe a passagem. Desengoli um princípio de pergunta, um «Não queria ser indelicado, mas» que não chegou a sair. A mulher pediu com licença e passou, roçando em mim o braço direito. Não sei se roçou a própria rodela.

Logo surgiu um homem de T-shirt. O mais lanudo que alguma vez encontrara. O pêlo cobria-lhe os braços num correr que alcançava as mãos. Ao passar por mim, reparei que no braço direito, alguns centímetros acima do cotovelo, se destacava uma clareira de pele lisa e branca, muito lisa, muito branca. O exacto reverso da mulher.

O que ela tinha a mais, ele retirava do que a mais tinha. Ajustavam-se, nivelavam-se. Mais radicais do que quem faz tatuagens, entraram na lógica do Yin e Yang a fundo, sem pensarem nas consequências. Mantinham entre si uma marca, uma ligação que precisava de cuidado permanente, de atenção e aparo. Não davam como concluído o que os unia.

Mais à frente, encontraram-se. Compraram um livro, deram as mãos e saíram.