Somos convocados a votar esta semana sobre um tema que, se formos honestos, assusta todos. Perguntamo-nos o que desejaríamos se nos acontecesse ter de viver com dor e sem esperança. Todos conhecemos a dor de perder uma pessoa que amamos e que sofre. Alguns de nós tivemos a felicidade de ver como os cuidados médicos conseguiram aliviar ou mesmo suprimir essas dores.

É com consciência destes medos, que também são meus, que na terça feira vou votar contra os projetos da eutanásia.

É uma votação que eu preferia adiar. Não porque ache que não deva ser decidido por deputados, mas porque acho que o tema não tem sido suficientemente debatido na sociedade. Vejo isso como um sinal de que os cidadãos ainda não se sentem preparados para mudanças nesta área.

Agora que estamos aqui, agora que sou chamada a decidir, fá-lo-ei com os meus valores e a minha consciência mas também com o coração, os olhos e os ouvidos abertos às mulheres e aos homens que me elegeram.

Vou votar contra, em primeiro lugar, por uma questão de consciência pessoal. Porque acredito que a dignidade humana não se esgota com as nossas capacidades ou com o nosso estado de saúde. Para mim, a dignidade do ser humano persiste até ao último sopro.

O meu juízo crítico resultará dos valores em que fui educada, mas nesta matéria é também reforçado pelos pareceres fundamentados do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, e de todos os bastonários da Ordem dos Médicos.

Esta é também uma questão de sociedade e da vida que queremos para o nosso futuro em comum.

E acho que o nosso futuro em comum precisa de mais cuidados paliativos e cuidados continuados. Dizem que não é incompatível debater as duas coisas, mas o facto assustador é que os cuidados paliativos são uma lotaria postal, isto é, não existem de forma alargada em todo o território. E esta gritante desigualdade não é debatida.

O Estado é laico mas serve todos e não pode ignorar as preocupações da parte da nossa sociedade que é crente. É significativo que os líderes de todas as religiões presentes em Portugal tenham condenado estes projetos sobre a eutanásia.

Por fim, as mensagens que tenho recebido pessoalmente e a opinião que me é especialmente querida dos viseenses que confiaram em mim para os representar, é toda, sem exceção, no sentido de rejeitar estes projetos.

Numa democracia representativa um deputado é chamado a fazer a sua interpretação pessoal do que acredita ser melhor para o bem comum, ouvindo o seu eleitorado. A minha intuição, a minha razão, as mensagens que tenho recebido da sociedade são extraordinariamente claras. Por isso, no dia 29, votarei contra a eutanásia.