Bancos Centrais

Pulp Fiction

Autor
  • Jorge Silveira Botelho

Certos Bancos Centrais, volta e meia, esquecem-se do seu papel e tão depressa se assumem como arrogantes e destemidos cavaleiros, como se transformam nuns humildes pastores montados em burros mansos.

No princípio do século XX nos EUA, as famosas “Pulp Magazines” eram revistas despretensiosas de entretenimento rápido que enchiam as bancas. Feitas com papel de má qualidade, à base de polpa de celulose, contavam histórias de ficção, muitas delas normalmente rocambolescas e repletas de peripécias, onde diferentes personagens mirabolantes se cruzavam na ação, tornando-se sempre difícil prever o desfecho da história. Mas apesar do final nunca ser evidente, todos sabíamos que as histórias acabavam por terminar bem, sabendo claro, que não estávamos a ler um conto de fadas e que nem todos podiam ser felizes para sempre…

Hoje quando olhamos para o mundo onde vivemos e observamos todo este rol de atores políticos e de banqueiros centrais, não nos podemos deixar de recordar das “Pulp Magazines”. Não nos conseguimos abstrair da má qualidade do papel, dos argumentos rocambolescos, das personagens invulgares e das intermináveis peripécias, que tornam a leitura das condições económicas pouco evidentes e consequentemente imprevisível a evolução dos mercados financeiros.

Basta observar o que tem ocorrido ao longo dos últimos meses no mundo, para perceber o quanto tem sido difícil tentar interpretar o comportamento desconcertante dos diferentes atores políticos e dos distintos Bancos Centrais.

Para além do suspeito do costume, os atores políticos, que ultimamente se engasgam constantemente com o chá das cinco, ou os “fat fingers” que pressionam até à exaustão o gatilho da metralhadora do Twitter, alguns atores dos Bancos Centrais, têm tido inesperadamente prestações de qualidade duvidosa.

Na verdade, certos Bancos Centrais, volta e meia, esquecem-se do seu verdadeiro papel e prestam-se a desempenhar papéis de personagens menores e francamente bipolares. Tão depressa se assumem como arrogantes e destemidos cavaleiros, como de um momento para outro, se transformam nuns humildes pastores montados em burros mansos… Seria bom que alguns destes atores dos Bancos Centrais, entendessem bem a importância do seu papel e parassem de representar o papel de Dom Quixote, ao pretenderem perseguir cegamente o papão da inflação, que simplesmente não está presente, num mundo desigual, envelhecido, endividado e tecnologicamente disruptivo…

A única grande diferença entre uma “Pulp Magazine” e o mundo atual em que vivemos, é que infelizmente tudo o que se passa aqui não é ficção…tudo se resume à impura e dura realidade com que diariamente estas personagens reais, se atravessam atabalhoadamente nas nossas vida e perturbam impunemente os afazeres da economia, cujas dinâmicas se repercutem nos mercados financeiros. Esta é uma realidade incontornável, para a qual nos temos de adaptar, tanto mais que, a qualidade dos atores não vai mudar e dificilmente irá melhorar…

Quanto ao final da história que todos ambicionamos e gostaríamos que acontecesse nesta nossa “Pulp Real”, resta-nos sempre continuar a ser construtivos e não ter receio de procurar dançar de forma diferente e melhor, tal como Uma Thurman e Jonh Travolta fizeram no filme Pulp Fiction:

“C’est la vie, say the old folks
It goes to show you never can tell…”

You Never Can Tell
Chuck Berry

….

Economista

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