No princípio do século XX nos EUA, as famosas “Pulp Magazines” eram revistas despretensiosas de entretenimento rápido que enchiam as bancas. Feitas com papel de má qualidade, à base de polpa de celulose, contavam histórias de ficção, muitas delas normalmente rocambolescas e repletas de peripécias, onde diferentes personagens mirabolantes se cruzavam na ação, tornando-se sempre difícil prever o desfecho da história. Mas apesar do final nunca ser evidente, todos sabíamos que as histórias acabavam por terminar bem, sabendo claro, que não estávamos a ler um conto de fadas e que nem todos podiam ser felizes para sempre…

Hoje quando olhamos para o mundo onde vivemos e observamos todo este rol de atores políticos e de banqueiros centrais, não nos podemos deixar de recordar das “Pulp Magazines”. Não nos conseguimos abstrair da má qualidade do papel, dos argumentos rocambolescos, das personagens invulgares e das intermináveis peripécias, que tornam a leitura das condições económicas pouco evidentes e consequentemente imprevisível a evolução dos mercados financeiros.

Basta observar o que tem ocorrido ao longo dos últimos meses no mundo, para perceber o quanto tem sido difícil tentar interpretar o comportamento desconcertante dos diferentes atores políticos e dos distintos Bancos Centrais.

Para além do suspeito do costume, os atores políticos, que ultimamente se engasgam constantemente com o chá das cinco, ou os “fat fingers” que pressionam até à exaustão o gatilho da metralhadora do Twitter, alguns atores dos Bancos Centrais, têm tido inesperadamente prestações de qualidade duvidosa.

Na verdade, certos Bancos Centrais, volta e meia, esquecem-se do seu verdadeiro papel e prestam-se a desempenhar papéis de personagens menores e francamente bipolares. Tão depressa se assumem como arrogantes e destemidos cavaleiros, como de um momento para outro, se transformam nuns humildes pastores montados em burros mansos… Seria bom que alguns destes atores dos Bancos Centrais, entendessem bem a importância do seu papel e parassem de representar o papel de Dom Quixote, ao pretenderem perseguir cegamente o papão da inflação, que simplesmente não está presente, num mundo desigual, envelhecido, endividado e tecnologicamente disruptivo…

A única grande diferença entre uma “Pulp Magazine” e o mundo atual em que vivemos, é que infelizmente tudo o que se passa aqui não é ficção…tudo se resume à impura e dura realidade com que diariamente estas personagens reais, se atravessam atabalhoadamente nas nossas vida e perturbam impunemente os afazeres da economia, cujas dinâmicas se repercutem nos mercados financeiros. Esta é uma realidade incontornável, para a qual nos temos de adaptar, tanto mais que, a qualidade dos atores não vai mudar e dificilmente irá melhorar…

Quanto ao final da história que todos ambicionamos e gostaríamos que acontecesse nesta nossa “Pulp Real”, resta-nos sempre continuar a ser construtivos e não ter receio de procurar dançar de forma diferente e melhor, tal como Uma Thurman e Jonh Travolta fizeram no filme Pulp Fiction:

“C’est la vie, say the old folks
It goes to show you never can tell…”

You Never Can Tell
Chuck Berry

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Economista