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O cheiro é talvez de todos os sentidos, o  mais primário. Aquele que mais nos aproxima do instinto animal. Lembremos como os animais usam o seu olfacto para se guiarem no reconhecimento do território, das presas, dos da sua espécie. O macho cheira a fêmea antes do acasalamento. A nós, humanos,  cheira-nos bem ou mal consoante determinados contextos, guiando-nos pela intuição daquilo que nos cheira a confiança ou desconfiança.  Sentimo-nos afectivamente e sexualmente atraídos pelo cheiro de uns e repelimos o cheiro de outros. A comida que nos cheira bem abre-nos o apetite fazendo-nos crescer água na boca e o cheiro fétido dá-nos náuseas e provoca-nos caretas. Cheira-se o vinho antes de o beber.

O primeiro conhecimento que o bebé trava na relação com o outro é seguramente através do olfacto. É através do cheiro que o bebé reconhece o cheiro da sua mãe, que identifica o seu peito e o odor do seio que lhe dá leite. Por isto, o olfacto é o sentido mais regressivo do ser humano. A zona erógena mais arcaica.

Serge Lebovici, psicanalista francês já falecido, no ano de 1999 realizou um estudo com mães e bebés, onde descobriu que logo no segundo dia, o bebé reconhecia o cheiro do leite da sua mãe dentro de muitos outros cheiros. De igual modo, a mãe reconhecia desde logo o cheiro do seu bebé. Este mútuo reconhecimento é uma das razões para logo se estabelecer o vínculo entre a díade. De seguida o pele a pele, a voz, o calor, os enlaces afectivos subsequentes, acentuam os laços.

Certamente que já virámos a cabeça atrás de um cheiro bom, novo ou reconhecível. Despertamos as nossas memórias olfactivas através de alguns cheiros. Procuramos cheirar aromas que nos agradam. Há cheiros que nos lembram pessoas, lugares, experiências. Há outros cheiros que nos despertam a curiosidade.

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Inspiramos o ar perfumado ao entrar numa loja de venda de café. Enquanto o café é moído aguçamos o nariz.  Se alguém o entorna sem querer, felicitamo-nos pelo aroma ampliado. O cheiro invade-nos e antecipa o sabor, que outro sentido quando estimulado, iremos saborear.

Também o cheiro das pessoas que nos são queridas guardamos e tentamos evocar perante a sua ausência. Aspiramos o cheiro do pertence de alguém de quem gostamos ou seguimos a fragrância de um resíduo fugaz no qual podemos tropeçar ou fazer por o lembrar. Presentificamos assim quem desejamos por perto. De forma oposta, retraímos as narinas se embicarmos com um cheiro desagradável que traga recordações amargas. Tal como quando temos de lidar com assuntos que cheiram mal.

Há pessoas mais sensíveis aos cheiros do que outras. Para o bem e para o mal, poder desfrutar deste sentido apurado pode até ser agradável. Pode ser uma forma de decifrar e cheirar o mundo num modo menos convencional, despertando o sentido capaz de nos transportar para as lembranças do passado, viver as surpresas do presente, inspirar o futuro.

anaeduardoribeiro@sapo.pt