Fui educada para acreditar que tudo era possível. Vezes sem conta ouvi a minha mãe dizer, «se pode ser imaginado, pode ser feito». Também por isto, brincava com rigor ao Espaço 1999, com as minhas colegas, no intervalo, no recreio.

Fui uma empenhada Dr.ª Helena Russel, de 9 anos, com um intercomunicador em pedra calcária e visor desenhado a cores – visor que me arruinou as canetas de ponta de feltro da Carioca porque na primeira tentativa, a guache, só consegui borrões. No entanto, graças a este intercomunicador, os telemóveis não me apanharam de surpresa. Uma das minhas funções era averiguar as misteriosas doenças que alienígenas disfarçados de pessoas e/ou atmosferas estranhas traziam. Tal qual um corona vírus. Outra das funções era namorar com o Capitão John Koenig, mas pouco, porque como o colégio era feminino os devaneios românticos tinham uma natureza secundária. Como toda a gente que esteve na Base Lunar Alfa sabe, usava-se fato espacial e andava-se em passos muito lentos e antigraviticamente leves quando se saía da base ou da nave Eagle One para o exterior. A Space X tem anos e anos de atraso, nem sequer aterraram na lua.

O pensamento da minha mãe provava-se irrefutável quanto mais se completava: ainda que tudo pudesse ser feito, nem tudo era recomendável fazer. Isto é, por muito que eu quisesse salvar a vida de Allan, nem que fosse a toque de antigas técnicas terrenas de vudu, o consegui: acabou por ter de morrer quando a colega que o desempenhava chumbou naquele ano lectivo. A morte era, no Espaço 1999, uma tragédia inevitável.

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