1Se os acidentes de viação fossem tratados da mesma forma que os incêndios, teríamos um investimento maciço em meios de salvamento, sistemas precoces de sinalização, socorro rápido, assistência de emergência helitransportada, investimento em meios aéreos, e declaração periódica de “época de acidentes”, a saber, nas festas populares, religiosas, períodos de férias, regresso de emigrantes, etc. Teríamos estes períodos declarados como “época de acidentes” e estas seriam preparadas por comissões, com contratos chorudos e anúncios de obra ao jeito da propaganda do governo central e autárquico. Seria uma nova actividade de negócio, daria origem a “unicórnios”, contratos negociados na obscuridade, dinheiro a circular e seguramente mais alguns secretários de estado a escorregarem “na ladeira do pecado”. Teríamos tudo isto. O que não teríamos seria prevenção, polícia nas estradas, fiscalização, operações “stop”, regras, código da estrada, e a necessidade de uma carta de condução.

Não teríamos nada disto, mas investiríamos milhões de euros na contenção de danos. E sempre que algo de grave ocorresse lá teríamos nos noticiários os habituais arautos da desgraça nos seus “Rituais de Condolências”, a lamentarem a gravidade da “ocorrência”, para logo de imediato descreverem as dificuldades resultantes do tráfego, da topografia do terreno, do calor e sol no verão, ou do vento, chuva e trovoada no inverno. Todas as adversidades que habitualmente dificultam o socorro, mas, e os protagonistas dos Rituais de Condolências nunca se esquecem de o dizer, que tudo farão para que numa próxima ocorrência o socorro seja ainda mais rápido e eficaz. E imbuídos destes nobres sentimentos lá planeiam a próxima “época de acidentes” com mais recursos e meios, mas também com mais oportunidades de negócio.

A 27 de Julho, Tiago Oliveira, presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, pôs o dedo na ferida quando proferiu na comissão parlamentar de agricultura e pescas, uma declaração que desencadeou a revolta dos bombeiros e um comunicado da respectiva Liga a desmenti-lo e a exigir a sua demissão.

Disse na altura Tiago Oliveira: “Saiam da discussão do meio aéreo e da discussão do eucalipto. Enquanto se estiver a falar do eucalipto e dos meios aéreos, com os bombeiros a receberem em função da área ardida as questões de base não se resolvem”. Com esta “heresia” agitou o ninho de vespas das hostes fundamentalistas, as mesmas que regularmente reclamam por mais meios e recursos. Ao agitar este poder instalado, Tiago Oliveira ameaçou o sistema e o negócio que desde a década de 80 se instalou em torno do combate aos incêndios. Um negócio que se autoalimenta, um negócio que tem nos incêndios o carburante literal da sua existência.

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Claro que os políticos também alinham com a engrenagem, umas vezes para “engordarem com o repasto”, outras, porque só conseguem tirar dividendos e protagonismo quando se apresentam nos Rituais de Condolências. E como poderia ser de outra forma? Como se noticia o que se previne e que por definição não acontece? Como é que um político consegue tirar partido do que não aconteceu?

Enquanto a sociedade não reconhecer a urgência da prevenção continuamos com políticos e beneficiários do negócio nos “Rituais de Condolências”, rituais em que as desgraças se anunciam num equilíbrio entre o mérito do planeamento e disponibilização de meios por um lado, e as consequências por outro. Os Rituais de Condolências funcionam se não houver vítimas e se o dispositivo de combate funcionar. Contudo, se a situação se desequilibrar e as consequências forem mais graves do que a opinião pública pode suportar, há sempre o alibi das alterações climáticas para responsabilizar os incêndios que se iniciam de madrugada, ou a falta de limpeza das matas num raio mínimo de 50 metros em torno das habitações nos que se iniciam com 3 ou 4 focos em simultâneo e a dezenas de quilómetros da habitação mais próxima.

2 É por isto que lhe escrevo, Senhor Presidente.

Escrevo-lhe para que use a sua magistratura e incuta nos responsáveis o brio de exercício de cargo que estes deveriam ter. Para que governem, para que se desenvencilhem da teia de negócios em que se enredaram e tomem medidas, menos vistosas é certo, mas mais adequadas à prevenção. Para que no final de cada consulado os políticos possam ter orgulho no seu legado. Não interessa quanto custa, o que importa é que o território seja preservado.

Estou triste Senhor Presidente porque ando pelo país e vejo uma paisagem desoladora, um cenário apocalíptico. Estou triste pela vida que se destrói, pela biodiversidade que se perde. Estou triste porque demasiadas vezes ouço e leio que um incêndio não teve “consequências relevantes” porque “só destruiu alguns quilómetros quadrados de mato”. Como se o mato e a vida desses terrenos fossem descartáveis e não tivessem direito a ser respeitados. Estou triste porque vejo a destruição do território e sinto-me impotente para estancar esse cancro que domina a paisagem. É algo maligno que lentamente nos destrói e transforma a paleta multicolorida da vida nos tons cinzentos de uma paisagem lunar. Estou triste por assistir à morte da território e não ter estado à altura do legado dos nossos antepassados.

Estou triste Senhor Presidente. Estou triste pelas mentiras com que diariamente me invadem. Estou triste quando me mentem e dizem que a prevenção passa pela limpeza das matas, e pelo “regresso” a uma agricultura preventiva de incêndios. Estou triste porque tenho idade suficiente para saber que nessas serranias que arderam nos últimos anos nunca houve limpeza de matas, nem actividade agrícola de monta. E contudo, na minha memória elas sempre foram verdes.

Estou triste porque me mentem quando dizem que este ano ardeu menos área do que no ano anterior. Quando tudo tiver ardido o ano seguinte vai ser um sucesso!

Chega! Não mintam mais!

Estou triste pelo abuso da linguagem de “Greenwashing”. Estou triste porque usam o alibi das alterações climáticas quando sabem que a maioria, ou pelo menos boa parte dos incêndios, surge de mão criminosa ou negligente.

Estou triste porque persistem em dizer que os incêndios resultam das alterações climáticas, essa nova e inescapável realidade, quando muitos deles surgem na calada da noite com múltiplos focos simultâneo. Estou triste porque vestem esta tragédia com roupagem de inevitabilidade apenas para garantir o negócio ou a propaganda de quem se quer apresentar como garante da segurança.

Estou triste porque não há consciência pública do problema e os responsáveis pelo exercício do poder não apostam na prevenção, e persistem numa acção reactiva seguida quase sempre dos costumeiros Rituais de Condolências.

Estou triste porque à noite fujo aos noticiários da desgraça que repetidamente e em loop apresentam imagens catastróficas sempre comentadas com insuportáveis Rituais de Condolências. Nessa minha fuga acabo sempre por terminar nos canais de desporto onde os incendiários residentes são conhecidos e estão sempre em “prisão domiciliária”.

Estou triste Senhor Presidente porque quando ouvi as suas palavras após os incêndios de 2017 em Pedrogão e no Pinhal de Leiria, achei que a sua magistratura de influência iria contribuir para o fim da loucura. Mas assim não foi, Senhor Presidente. Infelizmente a sua acção foi como um fogo. Extinguiu-se logo que os holofotes da notoriedade esmoreceram. Não foi além de palavras espúrias. Uma atitude que observada no presente em nada diferiu de um mais carpido Ritual de Condolências.

Peço-lhe, Senhor Presidente, que termine o seu mandato e deixe uma marca que as pessoas possam recordar com orgulho. Seja essa marca da mudança. Exija diariamente essa mudança, fale diariamente deste drama, fale dele insistentemente e até à saturação. Fale dele para que a premência da catástrofe seja a força motora da mudança de atitude que há décadas se reconhece e exige.