Vladimir Putin

Sobre a burla eleitoral na Rússia

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A burla eleitoral de ontem não diz apenas respeito à Rússia — porque a Rússia insiste em promover e financiar uma vasta campanha de subversão contra o Ocidente.

As primeiras projecções davam 73 a 77% dos votos para Vladimir Putin, nas “eleições” presidenciais russas de ontem. Se o assunto dissesse apenas respeito à Rússia, o tema não mereceria mais do que um sorriso sarcástico. Todas as burlas eleitorais tendem a gerar resultados deste género e ninguém poderá propriamente espantar-se que assim seja na Rússia de Putin.

Acontece, porém, que o assunto não diz apenas respeito à Rússia — porque a Rússia insiste em promover e financiar uma vasta campanha de subversão no Ocidente. Não se trata apenas do canal televisivo de propaganda RT, emitido em inglês — sobre o qual o Observador acaba de publicar uma excelente reportagem. Trata-se de uma vasta operação tentacular de que a revista The Economist deu recentemente um apanhado.

O caso mais recente e mais chocante foi o envenenamento em território britânico de dois exilados russos, Sergei Skripal e sua filha Yulia, com uma arma química de origem soviética — que levou à evacuação de largas áreas da tranquila cidade de Salisbury, aliás sede de uma bela Catedral. (Na passada segunda-feira, outro exilado russo no Reino Unido e opositor de Putin, o empresário Nikolai Glushkov, foi encontrado morto no seu apartamento. Sobre este caso, a policia britânica ainda não divulgou dados conclusivos).

Não posso deixar de saudar a muito determinada e pronta reacção do Governo e Parlamento britânicos, bem como a declaração conjunta do Reino Unido, EUA, Alemanha e França, além da NATO. Como tenho vindo a repetir neste espaço (e voltei recentemente a reafirmar a propósito do Imperador Xi), as democracias ocidentais fariam melhor em prestar atenção ao crescimento das ameaças autoritárias externas — em vez de se consumirem em menores questiúnculas internas (como a punição do brexit ou as deploráveis guerrilhas tarifárias que seduzem Donald Trump).

Merece, em contrapartida, atenta reflexão o comportamento do actual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn. Foi incapaz de condenar a Rússia, no caso do atentado contra os Skripal em território britânico. Enredou-se em nostálgicas condenações da intervenção anglo-americana no Iraque — como se alguém tivesse agora proposto uma acção militar contra a Rússia. Numa palavra, em meu entender, exprimiu de forma eloquente a crise de confiança que vem minando as democracias ocidentais.

Gostaria de não ser mal interpretado. Tenho o maior respeito e apreço pelo Partido Trabalhista britânico — que, desde as primeiras décadas do século XX, emergiu por mérito próprio como um dos pilares da monarquia constitucional e parlamentar britânica. Foi desde o início uma grande escola de ‘gentlemanship’ entre as muito nobres classes trabalhadoras britânicas — que, por isso mesmo, sempre mantiveram o ópio marxista sob saudável quarentena. (Karl Marx, a propósito, queixava-se de que os ingleses não o levavam a sério — ainda que o tenham deixado escrever em paz O Capital na bela sala de leitura redonda da British Library, quando ele já estava proscrito na Europa continental).

A minha crítica ao senhor Corbyn não é por isso extensiva ao Partido Trabalhista. É mesmo dirigida ao senhor Corbyn e ao seu grupo de entusiastas neo-marxistas. E não pretendo criticar o senhor Corbyn por não beber álcool e não comer carne — ainda que eu, como Churchilliano encartado, deva encarar esses hábitos como “fundamentally unsound” (a sábia expressão do Butler Jeeves acerca de Nietzsche, nas imbatíveis novelas de P.G. Wodehouse).

O que me preocupa no senhor Corbyn é a sua permanente tendência para culpar o Ocidente por todos os males do mundo. E por, simultaneamente, desculpar os inimigos do Ocidente — o fundamentalismo islâmico, agora também a Rússia e a China — como se essa inimizade fosse apenas resultado do chamado “imperialismo ocidental”.

Sugiro que prestemos atenção a este fenómeno. Receio que o senhor Corbyn seja apenas a expressão eloquente da crise de confiança que vem minando as democracias ocidentais — com especial incidência nas universidades e nos meios de comunicação social.

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