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Tratar os portugueses como estúpidos /premium

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PS, PCP e BE continuam a discordar sobre as PPPs, o tema central da Lei de Bases da Saúde, mas combinaram dizer aos eleitores que tinham feito um “acordo”. Mentiras como esta prejudicam a democracia.

Muitos políticos portugueses gostam de tratar os portugueses como se fossem estúpidos. A semana que passou mostrou três casos.

1. O PS, o PCP e o BE querem convencer os portugueses que houve um acordo sobre a Lei de Bases da Saúde. Os três partidos continuam a discordar sobre as PPPs, a questão central da legislação, mas combinaram dizer aos portugueses que tinham feito um “acordo”. No dia seguinte, Catarina Martins andou nas ruas a dizer que as PPPs tinham acabado. O ministro das Finanças, por outro lado, afirma que não acabaram. Centeno sabe o que é gerir as finanças públicas e também sabe que as PPPs poupam dinheiro aos portugueses, mantendo serviços de qualidade. Ou seja, está tudo como estava antes do anúncio do “acordo”.

Mentiras como esta prejudicam a qualidade da democracia. Será que os dirigentes do PS não percebem o elementar? Os comunistas e os bloquistas não se importam porque o seu objectivo é destruir a democracia portuguesa. Mas o PS deveria ter mais cuidado. Seria muito mais saudável, politicamente, se o PS fizesse a campanha eleitoral assumindo as divergências com as extremas esquerdas e defendendo as vantagens das PPPs na saúde. É isso que muitos dirigentes socialistas pensam em privado. Por que razão não o defendem em público?

2. Alguns dirigentes socialistas e sobretudo os seus amigos da comunicação social voltaram a insistir que António Costa foi convidado para um cargo na União Europeia mas recusou, explicando que a sua prioridade é governar em Portugal. Mais um caso em que Costa e os seus camaradas querem fazer dos portugueses estúpidos. Costa não foi convidado para nada, e é fácil de demonstrar. Nas discussões no Conselho Europeu só houve dois pacotes de nomeações seriamente consideradas. No primeiro pacote, o socialista holandês, Timmermans, seria o próximo Presidente da Comissão Europeia. Como é óbvio, um socialista na Comissão impediria outro socialista nos cargos mais altos da UE. Por isso, Costa não fazia parte desse conjunto de possíveis nomeações.

O segundo conjunto de nomes, que acabou por ser o aprovado pelo Conselho Europeu, nomeia uma política do PPE para a Comissão Europeia. Neste contexto, Costa só poderia ser convidado para Presidente do Conselho Europeu. Mas não foi, por uma razão simples. Quando o Presidente francês, Macron, propôs Ursula von der Lyeden, para a Comissão Europeia, a condição seria colocar um liberal como Presidente do Conselho Europeu e um socialista como Alto Representante. Por isso, não se vê onde havia um lugar para António Costa, a não ser que o PM quisesse abandonar o país para se tornar numa espécie de MNE da UE.

Numa reunião muita longa do Conselho Europeu, onde houve divisões, vetos e impasses, há alturas onde se falam de vários nomes e quase todos fazem propostas. Alguém deverá ter falado do nome de Costa, mas falaram de mais uma dúzia de nomes, desde os PMs da Croácia, da Irlanda, dos países bálticos, a Presidente da Lituânia, o PM holandês, e outros. Mas isso não é ser convidado nem sequer considerado seriamente para qualquer cargo.

Costa achou que ficava bem, para elevar o seu perfil político, espalhar que teria sido convidado para ir para Bruxelas, disse isso aos amigos jornalistas e eles anunciam a boa nova aos portugueses. Mais, para demonstrara a sua dedicação a Portugal, anunciou igualmente que nunca aceitaria qualquer convite. Tudo isto é tão ridículo, que a pergunta se impõe: qual é a necessidade de inventar uma história destas? Será que Costa acredita que ganhará algum voto com esta farsa? Ou seja, mais um caso em que só a vaidade de Costa explica a mentira aos portugueses.

3. O último exemplo leva-nos ao outro líder de centro-esquerda, Rui Rio. Afirmou que se o PSD formasse governo, declararia o estado de “emergência climática.” Algumas das medidas propostas, como mais investimento nas energias renováveis, fazem sentido. Mas não são novas. É isso que, por exemplo, a EDP tem feito nos últimos anos tornando-se numa das maiores empresas mundiais de energias renováveis. Outras propostas de Rio são desnecessárias, como as taxas sobre produtos de plásticos, porque já há legislação europeia a proibir o uso de vários desses produtos. Essa directiva europeia deverá ser integrada na legislação nacional dentro de dois anos. Há uma explicação para não se ter incluído outros produtos de plástico nessa legislação: não existem alternativas viáveis e, por isso, a sua inclusão na legislação teria custos muito elevados para as empresas. Calcula-se que se um dia Rio fosse PM, não iria mais longe do que a UE, o que prejudicaria as empresas exportadoras nacionais.

Rui Rio fala de “emergência climática” por desespero eleitoral. Ele que recusa ser vulnerável a populismos ou a demagogias, deu um bom exemplo de populismo. Viu o resultado do PAN nas eleições, algum dos seus conselheiros terá dito que é popular aparecer como político ecológico, e Rio quer tentar, à última da hora, tornar-se tão “verde” como os fanáticos do PAN. O novo populismo verde de Rio mostra o desespero que anda entre os sociais democratas. O PSD deveria explicar por que razão as propostas do PAN e do Bloco em políticas ambientais iriam apenas causar mais pobreza e mais desemprego entre os jovens, e apresentar propostas compatíveis com o crescimento económico. As extremas esquerdas usam o ambiente para atacar o capitalismo (sabemos bem como o paraíso comunista soviético se preocupava com o ambiente). As direitas deveriam mostrar que a economia de mercado é o contexto certo para encontrar soluções para os problemas ambientais. Mas Rio resolveu adoptar o discurso radical do PAN.

Obviamente, nenhum português acreditará na conversão recente de Rio, e o alarmismo ecológico não ajudará a conquistar um bom resultado eleitoral. Não deve haver nada pior do que ser populista e não ganhar qualquer voto com esse populismo.

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