A situação de saúde pública, decorrente da pandemia, levou a que o regime de trabalho fosse alterado de forma abrupta e significativa. Subitamente, milhões de pessoas em todo o mundo ficaram em regime de teletrabalho. Volvidos vários meses, não se vislumbra o seu fim e existem muitas empresas que já assumiram que o teletrabalho veio para ficar. Porquê este entusiasmo súbito das empresas por este regime de trabalho à distância? Que mudanças individuais, sociais e empresariais irão ocorrer? Afinal, quem ganha e quem perde com o teletrabalho?

Comecemos pelas vantagens do teletrabalho. As empresas reduzem os custos operacionais (eletricidade, consumíveis, arrendamento de escritórios, deslocações dos empregados, etc.), diminuem o absentismo laboral, podem recrutar quadros qualificados que residem em locais distantes, nomeadamente no estrangeiro. A sociedade pode ter alguns ganhos ambientais, obtidos através da redução do trânsito e na melhoria da qualidade de vida nas cidades.  O povoamento do interior do país também é facilitado, pois a distância ao trabalho deixa de ser um entrave.

A nível pessoal, as vantagens do teletrabalho estão bem estudadas: permite uma maior flexibilidade e autonomia, facilitando (aparentemente) a conciliação trabalho-família. Os benefícios obtidos pela dispensa das deslocações pendulares trabalho-casa são relevantes e podem garantir para muitos uma poupança significativa de tempo e dinheiro. Trabalhar em casa também reduz significativamente as interrupções e distrações que ocorrem com frequência no local de trabalho e isso reflete-se num aumento da produtividade. Em vários estudos publicados, a maioria das pessoas que se encontram em teletrabalho referem, globalmente, uma maior satisfação e qualidade de vida.

Apesar disto, nem tudo é positivo. As desvantagens do teletrabalho são essencialmente três:

  1. o desaparecimento dos limites entre o trabalho e a vida familiar;
  2. o desligamento da cultura da empresa;
  3. o isolamento social e o individualismo no trabalho.

O teletrabalho conduz ao desaparecimento dos limites entre o trabalho e a vida familiar, aumentando a possibilidade de surgirem situações abusivas por parte das empresas, já que a flexibilidade de horário rapidamente é confundida com “disponibilidade total de horário”. Outra possível situação abusiva prende-se com a pressão das empresas para que o trabalhador continue a trabalhar a partir de casa, mesmo estando numa situação de doença (incluindo doença dos filhos menores), mantendo-se a produtividade e reduzindo-se o absentismo.

O desligamento da cultura da empresa é um risco. A cultura empresarial e o espírito de trabalho em equipa só podem ser transmitidos e mantidos através do trabalho presencial. Não é possível criar e manter equipas coesas e solidárias sem que haja uma relação individual com os colegas e as chefias. Convém também referir, que as carreiras e as promoções dos funcionários que estão em teletrabalho podem ser severamente prejudicadas, pois muitas decisões de promoção não são baseadas apenas em números de produtividade. Estas decisões têm um componente emocional e são frequentemente baseadas na confiança pessoal que só o contacto presencial permite criar.

Finalmente, temos o isolamento social e o individualismo laboral.  O ser humano não vive apenas com outros, mas precisa de viver junto de outros. Nestes últimos meses fomos privados do contacto presencial com os colegas, amigos e familiares. Experimentamos o sofrimento de estarmos isolados e percebemos que o contacto virtual proporcionado pelas redes sociais e ferramentas eletrónicas (Zoom, WhatsApp, Facebook, etc.) é mais pobre e incompleto. Os dados publicados sobre este assunto mostram que a falta de contacto humano é a principal desvantagem reportada pelas pessoas que estão em teletrabalho. A privação do contacto social tem consequências, aumentando claramente o risco para doenças psiquiátricas, em particular a depressão. Existem sérios riscos de que o teletrabalho, realizado em regime exclusivo, possa causar danos à nossa saúde psíquica. Por conseguinte, a dignidade da pessoa não pode ser espezinhada em nome de uma modernidade laboral.

Este tema também apresenta uma dimensão política e social, devendo-se prevenir exageros. O teletrabalho pode fragilizar o desejável equilíbrio nas relações laborais entre empresas e trabalhadores, pois a tentação para abusos e posições totalitárias pelas empresas será grande. Os sindicatos têm um papel importante na promoção do bem comum, impedindo o excessivo “individualismo no trabalho” que esta nova modalidade laboral pode causar.

O teletrabalho, por mais atraente e moderno que possa parecer, não se pode transformar numa nova idolatria. Existem vantagens e desvantagens que justificam uma melhor discussão pública. Do meu ponto de vista, o teletrabalho não deve ser imposto. No caso de haver acordo entre as empresas e os trabalhadores, este deverá ser implementado preferencialmente num regime misto. Importa referir, que não é a sociedade quem concede os direitos humanos, mas são estes que pertencem às pessoas como algo próprio e inegociável.