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Incêndios

“Tem um piquinho de azedo”

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Se eu estivesse doente e me aparecesse um médico à porta para me sensibilizar para a doença, em vez de trazer remédios que pudessem ajudar, não posso garantir que não o correria em autêntico vernáculo

Este título fui buscá-lo a um comentário que me foi feito.

Traduz bem uma crítica que me é feita frequentemente, quando me recuso a pertencer a esta União Nacional da limpeza das matas, com o que isso implica de ouvir dizer que dou sempre a impressão de que fazemos tudo mal e de que sou o único com o passo certo na formatura.

Mesmo correndo esse risco, venho oferecer um guião para uma campanha de comunicação a fazer pelos mesmos protagonistas, mas uma campanha que seja mais útil e menos ofensiva para quem leva a dura vida de viver da terra, as principais vítimas da opção de se esquecer o problema de competitividade que existe na economia que pode gerir matos.

Por um lado, o Governo português decide usar em Lisboa e no Porto os fundos europeus que visam fazer as regiões mais pobres aproximar-se das mais ricas, a pretexto de financiar a sustentabilidade e a economia circular, por outro, o mesmo Governo, sensibiliza as vítimas desta decisão para ver se as convence a roçar mato.

O senhor Presidente poderia começar por ir almoçar um cabrito à escola primária de Covas do Monte, aproveitando para deixar claro que pagaria 10 a 20% mais que o que lhe pedissem para deixar explícito que queria pagar o serviço de gestão de combustíveis prestado pelo rebanho de Covas do Monte, que se traduziu na manutenção dos únicos pastos de Inverno que escaparam ao grande fogo de 2016, na zona.

O senhor primeiro-ministro poderia ir recolher a resina de uma das bicas que tenham sobrado no Centro de Portugal, teria era de esperar por um bocadinho mais de calor, deixando bem explícito que o que queria era melhorar a rentabilidade do sector como forma de lhe pagar a gestão de combustíveis que é feita, num gesto de respeito pelo trabalho dos resineiros, obrigados a passar o Inverno sem trabalho.

O senhor ministro da Segurança Social, em vez de ir limpar mato para uma das propriedades do INATEL, poderia simplesmente ir almoçar a uma das suas várias unidades hoteleiras, deixando claro que era apenas a primeira refeição em que o INATEL usava 10% de produtos provenientes de produtores que contribuem para a descontinuidade de combustíveis, uma nova política de compras a adoptar não apenas pelo INATEL, mas por todas as instalações dependentes da Segurança Social, sejam lares de Terceira Idade, sejam Centros de Dia, seja o fornecimento domiciliário de refeições.

O senhor ministro da Defesa poderia ir simplesmente a Santa Margarida assinalar o arranque para o programa de fogo controlado em instalações militares, que incluísse capacitação dos operacionais, mas também apoio às comunidades para expandir o uso sensato do fogo.

A senhora ministra da Justiça poderia ir a Pinheiro da Cruz dar o pontapé de saída para o programa de uso sustentável dos milhares de hectares de instalações dos serviços prisionais, se por acaso estivesse demasiado constrangida para o fazer em São Fiel, que ardeu em 2017, no meio do pinhal não gerido pelos seus serviços.

Poderia continuar a pormenorizar este programa alternativo de sensibilização para a gestão do fogo a fazer pelas autoridades, mas não queria deixar de fazer mais uma proposta ao Senhor Presidente da República, uma proposta que é tanto de comunicação, como de acção concreta.

No orçamento da Presidência há, com certeza, dinheiro suficiente para contratar um assessor. Este assessor teria uma tarefa única, relativamente simples de descrever embora mais difícil de executar: encontrar, todos os dias, um produtor que contribua para a gestão de combustíveis em torno da sua comunidade, ir conhecê-lo pessoalmente e comprar-lhe dos seus produtos, 20% acima do que consegue vender hoje no mercado, para serem usados nas refeições da Presidência.

Em cada refeição a Presidência chama a atenção para os produtos usados, para o seu produtor e apresenta-o como ele é: um verdadeiro herói que não precisa que apareça alguém de helicóptero a sensibilizá-lo para roçar mato.

Depois, nas suas inúmeras visitas a todo o lado, em que o Senhor Presidente fala com autarcas, com empresários, com decisores de todo o tipo, sugira-lhes que nas cantinas das escolas, das fábricas, nos restaurantes, no coffee break dos inúmeros seminários sobre como dinamizar economias em áreas de baixa densidade, aproveitem o trabalho feito pelo seu assessor e comprem os produtos desses produtores assinalados.

E não deve ser-lhe difícil sugerir a esses produtores que assinem um termo de responsabilidade, com o seu compromisso para com a gestão do fogo, e em troca possam usar um selo seu, “By the appointment of Marcelo”.

Eu peço desculpa pela azia do texto mas, francamente, se eu estivesse realmente doente e me aparecesse um médico à porta para me sensibilizar para a minha doença, em vez de me trazer os remédios que me pudessem ajudar, eu não posso garantir que não o correria usando o mais autêntico vernáculo de que fosse capaz.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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