Em 2015, a direita descobriu que, para governar, já não lhe bastava ficar em primeiro lugar nas eleições: precisava de maioria absoluta no parlamento. Em 2020, há o risco de a direita descobrir outra coisa: que nem mesmo a maioria absoluta lhe basta para governar. A ser assim, teremos de concluir que os partidos da direita não servem para mudar o poder em Portugal, nem quando ficam à frente em eleições, nem quando têm maioria absoluta. É o que está em causa neste momento na região autónoma dos Açores, subitamente transformada no principal laboratório da política portuguesa.

Mas devem os partidos da direita fazer nos Açores o que os da esquerda fizeram em Lisboa em 2015? É claro que devem. Neste momento, é difícil que um só partido volte a ter, à direita, o domínio que o PSD teve nos anos 90. Nem mesmo PSD e CDS somados poderão talvez conseguir isso. O que quer dizer duas coisas. Primeiro, que um eventual governo de direita terá de assentar numa maioria plural. Segundo, que o maior partido de direita poderá nunca mais ser tão grande como o maior partido de esquerda, o PS, se este absorver a votação dos seus aliados da geringonça. Logo, é muito provável que os partidos da direita só possam ser governo em Portugal como o PS foi em 2015. Convém-lhes não alimentarem fantasias a esse respeito.

Dir-me-ão ainda: mas que coerência pode ter um governo que vai da Iniciativa Liberal, que ainda não conseguiu descobrir se é de “direita” ou de “esquerda”, ao Chega, que ainda não parece ter percebido qual é, entre os “partidos do sistema”, aquele que manda? A coerência só pode resultar de um motivo igual ao que uniu os partidos da esquerda em 2015. O que levou o PS, parceiro da direita nas revisões constitucionais de 1982 e de 1989, a juntar-se às viúvas do PREC foi a urgência de impedir que o governo de Pedro Passos Coelho iniciasse, depois do ajustamento, reformas que mudassem o poder em Portugal. Essa razão de ser conservou-os e – apesar dos simulacros de arrufos orçamentais desta semana – ainda os conserva unidos. Foi isso que deu sentido à sua governação. À direita, há uma razão semelhante: desalojar o Partido Socialista do governo como meio para desmantelar o senhorio a que os socialistas submeteram Portugal durante 25 anos. Antes de quaisquer reformas, antes de decisões sobre impostos ou sobre o rendimento social de inserção, há uma prioridade: desmontar o poder socialista – no Estado, nas universidades, nas empresas, nas fundações, na comunicação social, etc. O grande problema dos governos PSD-CDS de 2002-2005 e de 2011-2015 esteve aí: foram governos constrangidos pelas aflições financeiras provocadas pelos seus antecessores, mas também por um continuado domínio socialista do Estado e das periferias do Estado.

Desmanchar o poder socialista tem de ser um interesse comum de todos os partidos da direita, por mais diversas que sejam as suas filosofias e as suas agendas. Os socialistas sujeitaram Portugal a 20 anos de estagnação económica numa das épocas em que a economia mundial, apesar da crise de 2008, mais cresceu. Essa estagnação não aconteceu por acaso, mas foi o resultado das restrições fiscais, burocráticas e regulatórias impostas pela tentativa socialista de controlar a sociedade a partir do Estado. A actual pandemia serviu, mais uma vez, para dar ideia de como o socialismo, amparado por comunistas e neo-comunistas, fragilizou o país: uma dívida pública que torna a “contenção” inevitável mesmo em recessões, e um SNS a cuja defesa, após anos de “cativações” e de falta de investimento, é agora preciso sacrificar a sociedade.

Sim, um governo de direita terá, um dia, de encontrar maneira de reduzir a despesa pública para diminuir os impostos e libertar os empresários e os trabalhadores portugueses. Mas antes disso, precisará de desarmar o socialismo. Admito que a direita tenha ideias diversas em relação ao modo de reorganizar o Estado. Mas não as pode ter, sob pena de se tornar irrelevante, acerca da urgência de desalojar os socialistas. Se não conseguir desmanchar o poder socialista, a direita não poderá fazer nada em Portugal, a não ser limpar os estábulos quando, entre duas épocas de governo socialista, falta o dinheiro.

Imagino os rancores, as desconfianças e os calculismos que, justificada ou injustificadamente, separam os partidos à direita nos Açores. É natural: a política também é competição e intriga. Mas há momentos em que convém a todos olhar para um pouco mais alto. As eleições açorianas puseram em causa todos os partidos. PSD e CDS têm sido as componentes tradicionais das maiorias de direita. É a ocasião de provarem que ainda são capazes de liderar essas maiorias. Seria fatal deixarem prender-se por escrúpulos deslocados em relação ao excesso de liberalismo de uns, ou ao excesso de populismo de outros. Em 1979, os então líderes do PSD e do CDS não se deixaram intimidar pela propaganda socialista contra o “bloco conservador-monárquico”, e integraram o PPM na sua coligação. Em 2020, PSD e CDS já deveriam ter percebido que, para as esquerdas, pensem o que pensarem, façam o que fizerem, nunca deixarão de ser “neo-liberais” e “fascistas”. Resta saber se ainda são capazes de incomodar o PS. Quanto aos partidos mais recentes, este é o teste definitivo à sua probidade. Os liberais são mesmo liberais, ou, por pruridos de equidistância entre a “direita” e a “esquerda”, estão dispostos a deixar vigorar o socialismo? O Chega quer mesmo uma mudança, ou, por medo a compromissos com “os partidos do sistema”, vai deixar o verdadeiro “partido do sistema” (o PS) continuar a mandar? O eleitor que se sente “liberal” ou critico do “sistema” vai finalmente descobrir se lhe andam a vender gato por lebre.

O mundo mudou. Não chegam mestrados e computadores, como nos dizem os socialistas há vinte e cinco anos. É preciso liberdade – para investir, para trabalhar, para criar, para arriscar. É preciso também segurança, que um Estado inviável e uma economia estagnada não conseguem garantir. Não é prudente continuar a confiar na generosidade indefinida de alemães e de holandeses para financiarem as nossas insuficiências. Convém aos portugueses recuperar liberdade e adquirir segurança, e isso, dentro deste regime, só as direitas o podem propiciar, na medida em que forem capazes de confrontar o poder socialista. Os Açores podem ser o princípio ou o fim de todas as esperanças a esse respeito.