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Se quisermos atacar a causa da crise dos refugiados com que a Europa se defronta, é tempo de os líderes do Ocidente e a comunidade internacional fazerem face às suas responsabilidades na Síria e no Médio Oriente. Durante quatro anos, o mundo falhou em encontrar uma maneira de travar a guerra na Síria. Não podemos deixar que isto continue. Teremos de lançar uma nova estratégia para terminar com este conflito. As estimativas contam 200 000 mortos apenas na Síria desde o início do conflito.

Dos 22 milhões de Sírios, uns incríveis 6 milhões são agora refugiados, um número que infelizmente só terá tendência para aumentar.

Estas estatísticas são chocantes, mas a realidade é que esta brutal guerra civil não está nem perto do seu desfecho. Os rebeldes islamistas continuam a somar vitórias na Síria tendo-se apoderado, só na última semana, de uma importante base aérea na província setentrional de Idlib, após um cerco de dois anos.

Entretanto, e apesar da acção militar levada a cabo pelos EUA e os seus aliados durante anos, o Estado Islâmico (EI) e outros grupos islamistas continuam a sua brutal carnificina na região, levando impunemente a cabo um verdadeiro genocídio às portas da Europa. A imagem do pequeno Aylan Kurdi sem vida numa praia de Bodrum é o corolário do falhanço mundial nesta matéria. Pelo bem da humanidade, temos o dever de actuar agora para ajudar a pôr termo a este conflito e trazer alguma estabilidade àquela região. Se quisermos alcançar um acordo duradouro, a UE, os EUA, a Rússia e a China serão peças fundamentais desse acordo. A actividade militar russa na Síria parece estar a intensificar-se uma vez que foram relatados avistamentos de aviões russos e alegadamente estará a ser construído alojamento para a preparação de uma verdadeira presença militar. Vladimir Putin sabe o que nós sabemos, mas também o que nos amedronta; sabe que o conflito nesta região é intolerável e insustentável para a comunidade internacional no longo prazo. Ao levar a uma  escalada do conflito agora, Putin assegura a sua centralidade em qualquer negociação de paz. É impossível conceber uma solução para o conflito sírio sem o envolvimento directo da Rússia.

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Da mesma forma, a China necessitará de ser convencida que este statu quo deixou de ser do seu interesse económico. É tempo da União Europeia se alicerçar no sucesso do recente acordo com o Irão para, em conjunto, lançar uma campanha para a pacificação nesta macrorregião. Há apenas dois meses, a comunidade internacional (na forma dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha), no quadro do Conselho de Segurança e liderada pela UE, conseguiu concluir um acordo sem precedentes com o Irão. A Alta Representante da União para a Política Externa e Segurança Comum, Federica Mogherini, deveria usar a experiência e o timing criado por este acordo para desenhar uma iniciativa capaz de desenvolver, num enquadramento internacional, uma visão para a estabilização da Síria e da macrorregião em que esta se insere.

Tudo isto significa iniciar agora um esforço das Nações Unidas com vista a encontrar uma solução que ponha cobro a 4 anos de conflito na Síria, bem como assegurar uma diligência muito mais séria por parte da coligação anti-EI para travar o advento das forças da coligação islamista. É claro que a coligação internacional liderada pelos EUA contra o EI não só não está a ter sucesso a erradicar as suas forças como não é capaz de travar a expansão dos jihadistas dentro do Iraque e da Síria. Estes insucessos não se devem apenas à falta de compromisso militar, mas sobretudo ao facto de que esta coligação não tem uma visão e uma solução partilhada para a região. Desenvolver esta visão conjunta não será fácil e não será livre de controvérsia. Irá necessitar diálogo com Putin, coordenação com o Irão para que altere o seu comportamento na região e para que faça parte de uma solução regional construtiva. Temos também de aumentar o apoio não só à oposição democrática e moderada na Síria, como ao Exército Livre da Síria. Sabemos que até os membros da coligação anti-EI liderada pelos EUA têm prioridades divergentes, uma vez que a Síria se tornou solo fértil para guerras secundárias na região. Mas este entendimento tem de ser tentado.

Não há boas opções para o Ocidente, apenas opções menos más. No entanto, sem um esforço diplomático alargado para que se encontre uma visão comum para a região, as opções actuais de pouco servirão, enquanto que o desastre humanitário às portas da Europa continuará. O quadro que vingou nas negociações sobre o Irão (a formação dos cinco membros permanentes mais a Alemanha, liderada pela União Europeia) poderia ser a chave para envolver os actores regionais e lograr alcançar essa visão.

Qualquer acordo terá obviamente de ter em consideração os nossos falhanços históricos nesta região bem como a garantia dos direitos dos sunitas, xiitas, alevitas, curdos e outros grupos religiosos e étnicos. É a hora da UE tomar as rédeas desta iniciativa. O mundo tem de dar uma esperança de regresso a casa aos refugiados sírios que conseguiram escapar. Mesmo que este desafio seja de uma envergadura bem maior que o gorado processo de paz israelo-árabe ou o acordo iraniano, as consequências do nosso consistente insucesso serão devastadoras para a Europa, a região e o mundo.

Os que pensam que a guerra na Síria, os bombardeamentos de Assad contra civis e o genocídio infligido pelo EI são distantes e não nos afectam ou que se resolverão sozinhos, necessitam acordar.

*Com José Inácio Faria, eurodeputado do MPT