Comentando os fogos recentes (que de forma relativamente previsível devastam o país de tempos a tempos), António Costa atribuía os incêndios a um “problema estrutural”. De forma semelhante, há poucos dias quando analisava o estado atual do mesmo, Marta Temido reconhecia “problemas estruturais no SNS”.

Estrutural significa “estar na base, na estrutura” e “que é relativo à organização ou ao fundamento de algo, por oposição a conjuntural”.

De facto, devemos concordar com ambos, Costa e Temido. É uma visão acertada (para variar, até um relógio parado está certo duas vezes por dia) esta de reconhecer que no que concerne ao problema dos incêndios catastróficos e recorrentes em Portugal e ao estado calamitoso do SNS, correspondem questões intrínsecas e orgânicas dos próprios sistemas e da forma como são geridos, e não meras complicações conjunturais ou momentâneas. Seria uma análise óbvia, simples e acertada, revestida de algum valor até, se, por exemplo, ambos fossem quadros de uma das inúmeras empresas de consultoria que gravitam à volta dos fundos que diligente e recorrentemente mendigamos à Comissão Europeia (outro problema estrutural?). Mas não, um é Primeiro Ministro e a outra é Ministra da Saúde, ambos transitados no cargo desde o anterior Governo, apoiado pelo partido Socialista, partido este que foi a base dos Governos que estiveram à frente de Portugal em 18 dos últimos 25 anos.

Podemos analisar estas declarações de Costa e Temido sob dois pontos de vista: ou de facto estão num momento de clarividência e clareza de análise raro e acertado, apontando com humildade o problema (sic) ou estão, uma vez mais, em costumeiro modo “debitar banalidades para português consumir”, a tentar desviar a atenção dos verdadeiros problemas e a fugir das suas responsabilidades. A questão é que de facto acertaram com o diagnóstico, ainda que este não os faça fazer boa figura, como facilmente se constata.

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Neste século o Partido Socialista governou o país quase em permanência, com as exceções do período onde a dupla Durão/Santana esteve ao leme – três anos, e a recuperar, à sua peculiar maneira, do “pântano” de défices excessivos deixados por Guterres – e do período de assistência financeira onde Passos Coelho foi Primeiro Ministro – quatro anos, porventura dos períodos mais nebulosos da história de Portugal, eventualmente mais até do que o próprio regresso constantemente adiado de D. Sebastião, uma vez que à luz do que cada vez mais lemos e ouvimos, parece que foi o Governo de Passos Coelho, suportado então no PSD, que nos meteu numa alhada, vulgo resgate financeiro, de onde depois nos tirou de forma torpe e desajeitada, ainda assim só possível graças à capaz orientação do Partido Socialista, na oposição na altura (até o facto de a culpa ser, por norma, de Passos Coelho deve ser uma questão estrutural nacional, dada a frequência com que é apontada nos setores da Saúde, Educação, Justiça, Administração Interna, etc.).

Chamemos então o problema pelo nome: o Partido Socialista, tornando-se num recetáculo de pessoas sem ideias válidas para a gestão nacional, de quadros sem conhecimento do país real e de criadores de soundbites e currículos à la carte, encarna na perfeição a tragédia de Édipo, que ao tentar fugir ao destino foi ao seu encontro: tentando provar que a alternativa socialista é válida para o país, o Partido Socialista demonstra de forma constante que de facto com o Socialismo estamos cada vez pior, cada vez mais atrasados, cada vez mais atolados em verdadeiros problemas que se vão interiorizando, resvalando da esfera conjuntural para o lado estrutural, sendo logicamente cada vez mais difíceis de resolver.

Mas nem tudo é mau. Aparentemente já conseguem ver onde residem os problemas…