Ratinhos simpáticos só o Mickey Mouse, o Jerry, o Ratatouille e o Topo Gigio. Orelhas redondas, dando-lhes um ar patusco, são vistos como amorosos e estão do lado dos bonzinhos dentro da tela animada. São ternurentos aos olhos infantis. Já aqueles de rabos compridos, orelhas mais para trás e a morder os rodapés do nosso lar, é de querer vê-los a fugir e fazemos de tudo para os afugentar. Ninguém quer ver a sua casa invadida por ratos a sério. O olhar adulto perdeu o romantismo em olhar para os orelhudos com o deslumbramento das histórias de encantar e as suas visitas são indesejáveis. É verdade que há adultos que têm uns primos hamsters dentro de gaiolas, mas se defrontados com os que gostam de passear nos esgotos, também gritam de horror e lá se vai a ideia do ratinho ser um ser fofo e querido. Se sonhar com ratos é um pesadelo, encontros com esses rastejantes asquerosos e repugnantes são o pior do pesadelo transposto para  a realidade.

Freud publicou, em 1909, Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva, conhecido também este trabalho como o caso do Homem dos Ratos, devido ao medo obsessivo do paciente em relação a ratos. Estando por trás da sua fobia a regressão à sua sexualidade anal,  este paciente contraiu uma panóplia de comportamentos obsessivos como meio de anular sentimentos inconscientes de crueldade e “pensamentos sujos”. As suas fantasias ligavam-se ao medo de que houvessem ratos que pudessem morder o pai e uma mulher que ele admirava, caso ele se comportasse de maneira inapropriada. Foi percebendo que associava os ratos a aspetos seus ligados a fantasias de crueldade (reminiscências de um castigo que assistira na vida militar, sendo os ratos os elementos de tortura). Em dada sessão, na sequência do trabalho associativo, percebeu também a relação do significado desses com o dinheiro e o medo de não cumprir com as suas dívidas (em alemão rato, ratten, prestações, raten). Ao longo da análise, foi dando conta de sentimentos seus de vergonha e asco em relação a si devido à vivência de uma sexualidade precoce intensa, com a ideia de poder ser recriminado por determinadas experiências antigas de prazer e do facto de ter mordido alguém quando furioso.

Com Freud, percebeu-se o papel desempenhado pelos instintos sádicos na génese das neuroses obsessivas.  Sem qualquer valor patológico, podem existir algures dentro de nós nuances de aspetos mais destrutivos oriundos de um submundo obscuro e reprimido, por vezes de requintada malvadez. Possuímos também partes invejosas e pensamentos (muito) íntimos ditos desapropriados. Contactar com estes sem o constrangimento de tecer um diálogo interno connosco mesmos, permite-nos abarcar uma visão mais clara sobre o todo dos nossos (bons e maus) pensamentos. Façamos uso da nossa inteligência ao serviço de um pensamento profundo e abrangente. Pensar não é agir e podemos fazer melhor a nós e aos outros quando, com verdade, pensamos.

Fora de nós, na realidade mundana, sabemos que existem algumas pessoas possuidoras de uma espécie de esperteza malvada. São “ratas” e dissimuladas, procurando ser astutas em seu próprio benefício. Identificamo-las facilmente como sendo matreiras e subreptícias nas suas ações. Devemos ter o cuidado de nos defender quando com elas nos cruzamos. Fazem por enfiar-se nos cantos da nossa generosidade e corroem espaços da nossa intimidade de forma intrusiva e abusiva. Possuem uma avareza em prol de juntar para si, mas tirando-nos a nós. Tentam ocupar o espaço que é nosso e apoderar-se dos nossos bens (sejam materiais e/ou morais). Sermos capazes de colocar barreiras à sua influência tóxica é importante para preservarmos o nosso espaço físico e interior. A expropriação do bem alheio sem permissão do proprietário é conduta  punível.  Uma coisa é ser esperto como o Alho, figura portuense do século XIV que foi encarregado de ir a Inglaterra firmar o primeiro tratado comercial anglo-luso; outra, que nem um (manhoso) rato!… E, já basta o bicho que por aí anda, quanto mais ainda ter de lidar com ratos que se escondem por trás da cabeceira da cama e nos tiram o sono…