Espanha tem mais de 20 mil contagiados e ultrapassou a barreira dos 1000 mortos. O dobro do previsto pelo governo para esta fase da pandemia. Muitos hospitais acabaram com as especialidades médicas: já não há obstetras nem oncologistas, pois estão todos alocados ao esforço de combate ao Covid-19. Assumiram também ter chegado o momento das decisões horrorosas, uma vez que não há capacidade para tratar todos os pacientes. Estão a decidir quem vive e quem morre.

Espanha foi ultrapassada pelas circunstâncias, correndo agora atrás do prejuízo da melhor maneira que sabe e pode. Agiu tarde e mal. Desvalorizou a ameaça. A título de exemplo, com o contágio a alastrar de maneira notória em Madrid, na Catalunha e no País Basco, autorizou-se uma manifestação feminista multitudinária na capital – que, por sua vez, serviu de expediente para autorizar outras tantas. No meio das tarjas, ouviu-se que o único vírus perigoso era o machismo, presunção tão cândida como errada. O vírus não escolhe sexo, idade ou condição social e Irene Montero, ministra da Igualdade, que esteve na linha da frente da manifestação, percebeu-o da pior maneira: deu positivo nos testes à doença, estando agora em quarentena obrigatória.

Pablo Iglesias, líder do partido de extrema-esquerda Unidas Podemos e vice-presidente do governo, aproveitou a crise para impor a sua agenda. Quebrou a quarentena duas vezes – é marido de Irene Montero – para acudir a Conselhos de Ministros onde assegurou que a nacionalização de empresas e demais medidas de cariz ostensivamente ideológico eram contempladas nos termos do quadro de emergência a decretar. A demagogia e o aprofundamento dos abismos sociais de classe encimaram a lista de prioridades. E, segundo parece, também recorreu ao contexto de incerteza e ansiedade para cumprir uma ambição pessoal antiga içando-se à comissão que rege o Centro Nacional de Inteligencia, o serviço de informações – vulgo ‘serviço secreto’ – de Espanha.

Já a Izquierda Unida, o outro sócio de governação dos socialistas espanhóis, viu no confinamento da população uma oportunidade para animar um protesto sonoro em forma de ‘caçarolada’ às janelas contra os desmandos financeiros do rei emérito Juan Carlos. Propostas para superar a crise ou proteger a população não se lhes conhece uma.

Nas comunidades autónomas o cenário não é mais animador. A braços com problemas sérios de contágio na Catalunha e no País Basco, os nacionalismos periféricos mais obstinados usaram as medidas drásticas tomadas pelo governo – limites à circulação, recurso às Forças Armadas para a contenção do problema – para desenterrar Francisco Franco e lançar sobre Madrid o opróbrio españolista. A urgência do momento subordinou-se aos fetiches identitários e à instrumentalização do rancor nacionalista.

Como notou Manuel Jabois, colunista no El País, as pessoas verdadeiramente importantes nunca aparecem nas listas de profissões do futuro. Pejadas de gente cool, como ‘influenciadores’ e empreendedores tecnológicos, estas listas esquecem sempre aqueles de quem dependemos (e dependeremos): médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, transportadores, distribuidores, serviços sociais e de limpeza, repositores e operadores de caixa em supermercados, eletricistas e tantos outros. Quando partes do sistema colapsam, quando as distopias se tornam plausíveis e quando os titulares de poder político ficam aquém do exigido pelas circunstâncias, são eles que nos garantem um módico de ordem e conforto.

Porque Portugal não é uma ilha, há três lições a tirar dos ventos que vêm de Espanha. Em primeiro lugar, ser proactivo no combate à pandemia. Não há medidas perfeitas, mas há medidas tardias. O país vizinho começou reactivo e tímido, e quando quis tomar a dianteira já era tarde. Acumulam-se os testemunhos de profissionais de saúde desesperados e exauridos a clamar pela imposição de uma quarentena total.

Em segundo lugar, o espírito de união é fundamental, mas não pode eximir de escrutínio os titulares de cargos públicos. A confiança nas instituições é imprescindível, mas tem de ser merecida. O contrato social não desapareceu.

Por último, a gratidão que devemos a quem garante o regular funcionamento da sociedade nunca será excessiva. Em turnos infernais e sujeitos a um esforço cada vez mais extenuante, estes profissionais merecem a nossa solidariedade, mas também a nossa tolerância e paciência. Perder um minuto a debater se a imagem divulgada há dias pela Polícia de Segurança Pública nas redes sociais é, ou não, autoritária constitui um exercício frívolo e infantil. Centremo-nos no essencial sem abdicar da condição de cidadãos.