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Incêndios

Vila de Rei e Mação: alguém puxou a cassete para trás

Autor
  • Teresa Cunha Pinto

Reduziram Portugal a um campo de batalha dividido ao meio, onde num lado estão os que merecem e do outro os que não merecem. Este país profundamente só e abandonado deixa-nos a todos sem chão.

Parece que alguém puxou a cassete para trás. Estamos a ver um filme que já vimos e que não recomendamos. A tragédia vivida em 2017 encostou um país à parede perante tantas e tão graves falhas. O cenário de Vila de Rei e de Mação está a desenterrar memórias e torna, agora, pertinente a pergunta: O que é que mudou desde a tragédia dos incêndios de 2017? Devia ter mudado tudo, mas as evidências não nos mostram isso. O cenário é igual e o medo a crescer, a crescer. Admito que quando o assunto são os incêndios há uma inquietação que não nos abandona, parece que ouvimos os gritos de socorro, as terras a desaparecerem e nós impotentes a assistir.

Nunca é demais lembrar o que aconteceu há dois anos. Nunca é demais lembrar que foram dezenas de mortos e que arderam milhares de hectares de terras. Estes números deviam andar colados na testa de todos os que podiam ter feito alguma coisa e que não fizeram, deviam estar sempre presentes para que nunca os esquecêssemos, para que deles fizéssemos o nosso escudo forte, a capacidade de proteger um país, de o segurar, de o agarrar, mas a cima de tudo de o exigir. De o exigir a quem tem como dever fazê- lo.

Ainda pouco se sabe destes incêndios, ainda são poucos os contornos conhecidos, mas o facto é que estão a acontecer e há vidas em perigo. A sensação de que nada mudou impera e é fácil concordarmos que é melhor prever o mal que o tentar remediar. Infelizmente, teimam em escolher a segunda opção e esquecem-se que não estão a jogar a feijões.

É inevitável não abordar a temática sobre a qual muitos falam de boca cheia sem que isso represente uma verdadeira preocupação. O nosso interior é o resultado de uma negligência e de um desleixo atroz. Não bastam as palavras bonitas, os elogios às paisagens, as súbitas visitas ou as histórias que nos fazem chorar. Não, não basta! Não basta porque não nos basta para viver. Não teremos nada de bom se formos o país que esquece e que faz por esquecer gentes e terras inteiras.

Este interior solitário que tanta falta tem de condições, de acessos e de ajudas está a ser consumido por chamas. A solidão a que o condenaram é a consequência de muitas opções erradas, da falta de investimento, do vazio de políticas incentivadoras à natalidade e à fixação da população e de um favorecimento descarado à Lisboa Toda Poderosa.

Estamos perante um país dividido, pobre, envelhecido, mas a cima de tudo esquecido. Reduziram Portugal a um campo de batalha dividido ao meio, onde num lado estão os que merecem e do outro os que não merecem. Ergueram uma barreira que é cada vez mais difícil de destruir. Este país profundamente só e abandonado deixa-nos a todos sem chão. Há um povo inteiro que grita socorro, há um povo inteiro que grita por um problema que não se resume exclusivamente aos incêndios, mas a um abandono tremendo que rouba vidas. Quem é que se dignará a ouvir a voz de todos os que sofrem desprotegidos?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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