A história de Codfather, um açoriano sem lei nos mares dos EUA

30 Março 2017908

Aviso

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Carlos Rafael é o maior armador dos EUA. Hoje confessou em tribunal os crimes de que o acusam. Eis a história do "pirata" que fez vida a dizer "fuck you" a todos os "motherfuckers" que o desafiaram.

A notícia espalhou-se rapidamente: Carlos Rafael queria ver-se livre da empresa com a qual se tornou um dos empresários pesqueiros mais poderosos dos EUA. Estávamos em 2015 e o açoriano, então com 63 anos, estava cansado. Afinal de contas, o que tinha à sua frente era nada menos do que um império: 40 barcos pesqueiros dispostos ao longo do porto de New Bedford, no estado Massachusetts. Ali ninguém lhe faz sombra e todos o conhecem — incluindo a sua história, onde o sucesso e o crime andam de mãos dadas. E pensar que tudo foi construído desde cedo, por um rapaz adolescente açoriano que foi para os EUA em busca do “sonho americano”. Hoje pode dizer-se que conseguiu conquistá-lo de uma maneira muito sua: dizendo “fuck you” a todos os “motherfuckers” que encontrou pelo caminho.

Pouco depois de Carlos Rafael anunciar que estava disposto a vender a Carlos Seafood, foi abordado por dois homens que se apresentaram como imigrantes e mafiosos russos. Carlos Rafael não terá estranhado. Afinal, é globalmente conhecido como Codfather — um trocadilho que junta as palavras “Cod” (bacalhau) e “Godfather” (“Padrinho”, como no filme) — graças ao seu historial de problemas com a justiça.

“Foda-se, isso é que era azar!”

Carlos Rafael sabe fazer negócios. Foi assim que fez fortuna. E por isso decidiu pedir aos mafiosos russos um total de 175 milhões de dólares em troco do seu império. Eles estranharam. Afinal de contas, de acordo com a sua declaração fiscal de 2014, ele valia bem menos — 21 milhões de dólares. Os números não casavam, mas Carlos Rafael logo tratou de juntá-los. Acreditando que estava entre iguais, abriu o jogo. Mas os mafiosos russos eram agentes disfarçados.

“Eu podia arrepender-me de vos dizer isto, porque não sei. Vocês podiam ser o IRS. Isso era uma bomba do caralho. Por isso vou confiar em vocês. A única questão é que eu me abro convosco porque vocês são os dois russos e não acho que eles teriam dois russos”, disse-lhes, segundo o relatório dos agentes. “Foda-se, isso é que era azar!”

Carlos Rafael denunciou o seu esquema às autoridades quando dois agentes disfarçados de mafiosos russos fingiram que queriam comprar a sua empresa. Para facilitar a venda, contou-lhes todos os detalhes do seu esquema "muito simples".

E foi mesmo — sobretudo à medida que o Codfather ia falando mais e mais, com os microfones ocultos a gravarem todas as suas palavras.

“Nós damos lucro”, garantiu-lhes. “Mas isso não dá para ser visto nos papéis do Carlos Seafood.” Nesse momento, o empresário luso-americano abriu uma gaveta do seu lado da secretária e retirou de lá um caderno onde na capa se lia: “Cash”.

“Estão a ver isto?”, perguntou-lhes com o livro de contas aberto. “Aqui seriam mais 600 mil dólares de rendimento. [Mas] eu mostro uma perda de 445 mil dólares nesse ano.” Depois acrescentou, ainda com o caderno nas mãos: “[O Michael] manda-me um saco cheio de jingles e eu depois despacho-o. Eu continuo a vender-lhe o peixe, continuo a deduzir [dinheiro], a deduzir, a deduzir, até que ele desaparece. De 668 mil dólares até zero. Em menos de seis meses.”

O esquema “muito simples” de Carlos Rafael

O esquema de Carlos Rafael era “muito simples”, como explicou aos russos. Quando os seus barcos iam para o mar, as regras desapareciam. Em vez de pescar consoante aquilo que as quotas pesqueiras permitem, Carlos Rafael dava instruções para que ninguém olhasse a limites. Quando chegavam a porto, os peixes com quotas mais apertadas eram declarados como sendo espécies com pouco ou nenhum controlo, como arinca. “Eu chamo a todo o filho da puta de arinca se os cabrões [da fiscalização] não estiverem lá”, explicou. Depois, os peixes eram comprados por uma empresa registada em nome da mulher de Carlos Rafael, uma cabo-verdiana chamada Conceição.

O passo seguinte era carregar os caixotes devidamente etiquetados e levá-los até Nova Iorque. À chegada eram recebidos por Michael Perretti, fornecedor de peixe em vários restaurantes daquela cidade e “melhor amigo” do Codfather. Para pagar o peixe, Michael Perretti enviava sacos cheios de jingles — leia-se, dinheiro — diretamente para o Aeroporto de Logan, em Boston. Ali, António Freitas, um xerife luso-descendente tratava de arranjar maneira de garantir que eles eram colocados em voos para os Açores, onde Carlos Rafael seguia a bordo. Depois, o Codfather chegava ao arquipélago que o viu nascer e depositava o dinheiro em várias contas.

O dinheiro das vendas ilegais de peixe era enviado para os Açores a partir do aeroporto de Boston, onde Carlos Rafael contava com a ajuda de um xerife lusodescendente (Darren McCollester/Getty Images)

“O Michael compra montes de peixe”, garantiu Carlos Rafael aos agentes disfarçados de mafiosos. “Vocês podem tornar-se numa lavandaria. E vocês nunca vão encontrar uma máquina de lavar tão boa como este motherfucker!”

Carlos Rafael sabia que apresentava um plano perto da perfeição. Tanto que se gabava do que conseguiu fazer com uma ínfima parte do dinheiro não-declarado: “arranjou” a casa dos pais, na ilha do Corvo, com 250 mil dólares; aplicou outros 135 mil para renovar a sua; comprou um armazém com 100 mil e gastou outros tantos num iate.

“O Michael compra montes de peixe”, garantiu Carlos Rafael aos agentes disfarçados, falando sobre o amigo que o ajudava a fugir aos impostos. “Vocês podem tornar-se numa lavandaria. E vocês nunca vão encontrar uma máquina de lavar tão boa como este motherfucker!”

“Já fazemos isto há mais de 30 anos”, disse aos homens que acreditava serem mafiosos russos.

O primeiro contacto com os agentes disfarçados foi por telefone, em maio de 2015. Depois, estes encontraram-se pessoalmente com Carlos Rafael duas vezes em junho e uma outra em outubro. Em novembro, Carlos Rafael foi surpreendido pelas autoridades no Aeroporto de Logan, Boston, enquanto levava uma mala com 26.407 dólares em dinheiro vivo — bem acima dos 10 mil permitidos — e foi obrigado a declará-los. Em janeiro de 2016, os “russos” voltaram a contactá-lo, desta vez para pedirem o contacto de Michael Perretti, a “máquina de lavar”, que lhes contou com igual honestidade como funcionava o esquema. Em fevereiro, houve nova reunião com Carlos Rafael, desta vez com a companhia de Debra Messier, uma contabilista que foi descrita pelo Codfather como “leal”. “Ela sabe tudo”, acrescentou.

Enfim, o puzzle montou-se. E, no dia 26 de fevereiro de 2016, Carlos Rafael foi detido e constituído arguido por um total de 27 crimes, onde se destacam os delitos de conspiração, violação das quotas pesqueiras e fuga ao fisco. No dia 3 de março, depois de pagar uma fiança de 2 milhões de dólares, foi colocado em liberdade condicional.

Quando o Observador teve o Codfather num anzol — e o deixou escapar

Desde então, Carlos Rafael tem aguardado o início do julgamento. Mas ele tem tardado em acontecer. Enquanto isso, a vida continua. O Codfather continua a ir todos os dias ao porto de New Bedford, onde se mantém a sua frota de 40 embarcações — algumas têm nomes de ilhas açorianas, outras foram batizadas em homenagem a figuras da mitologia grega, como Hera ou Neptuno. Foi entre elas que o encontrei a 29 de outubro de 2016, no início de uma viagem nos EUA para cobrir as eleições que resultaram na vitória de Donald Trump.

Na verdade, não o “encontrei” propriamente, já que não o procurava. A razão é simples: apesar de o seu caso ter sido amplamente noticiado nos EUA, eu nunca tinha ouvido falar dele. Carlos Rafael foi o quinto e último entrevistado de um dia onde cruzei as ruas de New Bedford e arredores para saber o que os luso-americanos daquela cidade costeira pensavam das eleições presidenciais. Foi o quarto entrevistado, José Anastácio, um mecânico e soldador que trabalha para Carlos Rafael, que me sugeriu que falasse com ele quando lhe perguntei se conhecia algum português que apoiasse Donald Trump — já que a maioria parecia preferir Hillary Clinton.

Foi nesse contexto que, depois de falar com José Anastácio, me dirigi até ao seu patrão. Baixo, de mãos nos bolsos das calças de ganga esburacadas e um auricular na orelha direita, pediu-me que esperasse. Naquele momento, mostrava alguns dos seus barcos a um casal de estrangeiros que falava num inglês esforçado. Depois de estar com eles cerca de 15 minutos, desapareceu de vista ao volante da sua carrinha pickup. Voltou outro quarto de hora mais tarde, a uma velocidade de meter medo — e que, acima de tudo, dava para perceber que se sentia em casa entre aquelas embarcações. Como tal, fazia o que lhe apetecia.

“Eu gosto da filosofia do Trump, mesmo que ele seja um bocado fucked up. Isto é como fazer negócios: eu posso não gostar do filho de puta, mas eu faço negócio com ele desde que ele pague.”
Carlos Rafael, em entrevista ao Observador, a 29 de outubro de 2016

Quando começámos a falar de política, percebi que também que dizia o que lhe apetecia, da forma que lhe apetecia. “Eu sou como o Donald Trump, digo tudo que me vem à cabeça”, disse. “Por isso é que às vezes estou a falar e quando dou por mim parece que estou num ringue de boxe.”

Com uma voz alta, que abafava o barulho das gaivotas, misturava inglês com português, agitando um cigarro na mão de forma efusiva. De palavrão em palavrão, explicava-se. “Eles que se fodam!”, disse em relação aos democratas. À cabeça destes, estava Hillary Clinton: uma “mentirosa” que Carlos Rafael acusava de querer aumentar-lhe os impostos — “Quem é que tem tesão de trabalhar assim?”, perguntou. Na altura contou ainda que a mulher lhe disse que estava a pensar votar na candidata democrata. “Então eu ando aqui a dar o litro e ela vai votar numa gaja que nos quer tirar tudo?”, queixou-se. “Quando for para ir votar, eu vou para a cabine de voto com ela, quero ver como é!”

Carlos Rafael não só votou em Donald Trump como se compara a ele: “Eu sou como o Donald Trump, digo tudo que me vem à cabeça” (Ralph Freso/Getty Images)

Sobre Donald Trump, tinha sobretudo coisas positivas a dizer. Encontrava até vários pontos em comum com o magnata do imobiliário. “Eu gosto da filosofia do Trump, mesmo que ele seja um bocado fucked up”, garantiu. “Isto é como fazer negócios: eu posso não gostar do filho de puta, mas faço negócio com ele desde que ele pague.”

Falei quase uma hora com Carlos Rafael, e durante esse tempo procurei também conhecer um pouco a sua história de imigração. As respostas chegavam em jeito de história de sucesso, um proverbial conto de rags to riches de um self-made man. Anotei-a com gosto no meu caderno, enquanto, para mim, pensava que tinha valido a pena falar com este quinto entrevistado.

Só quando cheguei a casa nesse dia é que fiquei a saber a parte da história enorme que estava à minha frente e não fui capaz de ver, enquanto falava meio em inglês, meio em português com aquele homem de 64 anos. Calculando que um homem com um negócio com aquela dimensão teria sempre qualquer tipo de pegada digital, escrevi “Carlos Rafael New Bedford” no Google e carreguei no enter. Só nessa altura, já a altas horas da noite, é que fiquei realmente a perceber com quem tinha falado.

Escrevi “Carlos Rafael New Bedford” no Google e carreguei no enter. Só nessa altura, já a altas horas da noite, é que fiquei a perceber com quem tinha falado.

No dia seguinte, liguei-lhe. “Olhe, eu não sabia de nada disto, mas pesquisei o seu nome e apareceu-me aqui uma série de coisas sobre as quais eu gostava de falar um pouco”, disse-lhe. “Ah, pois”, disse-me ele ao telefone. Do outro lado, imaginei-o a rir e a pensar: “Até que enfim, estava a ver que este motherfucker não ia descobrir nada”. Depois, lá disse que “isso foram umas confusões que se arranjaram”. “Mas a gente está a tentar chegar a um acordo”, acrescentou. Por aí se ficou — e é lá que continua, uma vez que após várias tentivas não foi possível entrar em contacto com Carlos Rafael para este trabalho.

Desde então, houve tempo de sobra para os EUA mudarem radicalmente. A (quase) certeza de uma vitória eleitoral de Hillary Clinton que as sondagens apontavam deu lugar a um triunfo de Donald Trump. Desde então, o 45.º Presidente dos EUA já tomou posse e deixou claro que as promessas eleitorais são para cumprir. E também já se viu envolto numa rede de polémicas, com destaque para as alegadas ligações de membros do seu Governo ao poder russo.

E Carlos Rafael? Desde janeiro, a leitura da condenação pelos 27 crimes de que é acusado tem sido adiada, muito provavelmente por pormenores de bastidores aos quais a defesa do Codfather não será alheia. Esta quinta-feira, mais de um ano depois de ter sido detido, Carlos Rafael foi presente a juiz e declarou-se como culpado.

“Tem havido vários artigos escritos sobre este caso e sobre mim. Algumas dessas coisas que têm sido escritas são verdade, outras não são. Eis a verdade: declaro-me culpado dos crimes que me acusam. Não estou orgulhoso das coisas que fiz que me trouxeram até aqui, mas admiti-las é o melhor a fazer”, disse no final de tarde desta-quinta-feira. “Estou preparado para aceitar as consequências das minhas ações.”

No dia em que volta a estar frente a frente com a justiça, contamos a história de vida Carlos Rafael — aquela que nos escapou naquela tarde ventosa de 29 de outubro de 2016.

Um sonho nascido na Base das Lajes

Aos 12 anos, Carlos Rafael foi estudar para um convento na ilha Terceira, nos Açores, para não ser chamado para a Guerra Colonial — mas uma das decisões mais importantes que tomou na sua vida foi influenciada por militares. Todos os anos, pela altura do Natal, os estudantes do Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, à altura no Convento de São Francisco, iam fazer uma visita à base militar das Lajes. “Eu começava a ver como era a vida americana na base”, disse Carlos Rafael numa entrevista de 2004, num trabalho de recolha de história oral do setor pesqueiro de New Bedford. “Foi aí que o meu sonho começou a crescer e eu quis sair dali para fora.”

Depois ter visto como era "a vida americana" na Base das Lajes, Carlos Rafael decidiu que queria emigrar para os EUA (BRENDAN SMIALOWSKI/AFP/Getty Images)

Naquela altura, era tudo uma questão de liberdade — a que lhe escapava no Portugal salazarista no início da década de 1960 e a que lhe parecia garantida do outro lado do oceano Atlântico. “Da maneira como o Governo era, não havia liberdade de expressão, não havia liberdade de imprensa, e aos 12, 13, 14 anos começa-se a reparar nessas coisas”, disse. “Não é um sítio onde se deve estar quando se quer expressar sentimentos.”

No seu íntimo, Carlos Rafael já sabia que ia viver para os EUA. O problema é que o pai, um “agricultor próspero” da ilha do Corvo, não queria deixá-lo ir. Ainda assim, o filho tinha um plano: forçar a sua expulsão do colégio. Um dia, saiu de propósito do quarto e foi para o recreio já fora de horas. “[Queria] irritar o padre e ele irritou-se”, contou. Seguiu-se um telefonema para o Corvo, onde a família de Carlos Rafael ficou a saber que o filho acabara de ser expulso do colégio onde, à partida, estaria a salvo da Guerra Colonial. Pouco depois, puseram-no num barco a caminho da ilha onde morava a sua família.

Carlos Rafael queria emigrar para os EUA a todo o custo, contra a vontade dos pais. Para convencê-los, arranjou maneira de ser expulso de um colégio interno de padres. Como castigo, foi cavar batatas nos terrenos do pai.

“No dia em que cheguei, tinha o meu fato, a minha gravata e os meus sapatos”, recordou. “O meu pai diz ‘vai para casa, tira os sapatos, despe o fato e vai apanhar batatas’.” Assim foram os meses que se seguiram: Carlos Rafael, lado a lado com os trabalhadores contratados pelos pais, ia apanhar batatas para o campo. E mesmo acabando os dias estafado, quando chegava a casa implorava junto da mãe. “Tem de convencê-lo a deixar-me ir para a América”, pedia-lhe.

No fundo, sem que Carlos Rafael o soubesse, o pai já estava convencido de que o melhor era deixá-lo ir para os EUA — uma opção que não lhe agradava totalmente, mas que sempre era melhor do que a Guerra Colonial. Por isso, nas costas do filho, o pai foi a São Miguel tratar da papelada para ele partir para os EUA. Mas com um bónus: ele e a mulher também iam. A irmã mais velha de Carlos Rafael, que à altura já era maior de idade, iria juntar-se-lhes um ano mais tarde.

“Para que é que vou fazer a creche de novo? Quero é fazer dinheiro”

Carlos Rafael chegou a New Bedford aos 15 anos. Nos primeiros tempos, ficaram na casa de uma afilhada do pai. O jovem emigrante ainda chegou a ir à escola, mas apenas durante uma semana. Depois, foi trabalhar. “Eu vim para aqui com dois anos de colégio e fui para a escola e eles estão a ensinar-me [a dizer] cão, gato, garfo, faca”, recordou. “Eu já tive dois anos de colégio, para que é que vou fazer a creche de novo? Eu não vim para a América para isso, eu quero é fazer dinheiro.”

O primeiro emprego que teve foi na Amaral Linguiça, uma empresa luso-americana de enchidos. Só aguentou quatro dias. Segundo contou, mesmo sem experiência aprendeu rapidamente o ofício. “Era capaz de fazer uma milha de linguiça em menos de nada”, recordou entre risos. Mas, apesar disso, a patroa não o deixava fazer pausas para fumar. Quando percebeu que ela não ia ceder, disse-lhe: “Olhe, o sonho americano que eu queria não é este, vir para aqui fazer linguiças e nem sequer poder fumar um cigarro depois de uma hora de trabalho”. E saiu. Tinha 16 anos.

O primeiro emprego que Carlos Rafael teve nos EUA foi a encher linguiças. Ao quarto dia, por não o deixarem fumar, demitiu-se. Nos anos que se seguiram, viria a despedir-se de todos os empregos que teve.

Por esta altura, tanto Carlos Rafael como a mãe procuravam trabalho. Um dia, acompanhou-a a uma fábrica têxtil, para ela oferecer os seus serviços. À chegada, uma rececionista disse à mãe de Carlos Rafael que não tinha trabalho para ela. Mas, para ele, talvez se arranjasse um emprego mais braçal do que o de costureira.

— “Quanto anos é que é preciso ter para trabalhar aqui?”, perguntou o rapaz.
— “18”, respondeu-lhe a senhora.
— “Eu só tenho 16.”

Enquanto virava as costas, apercebeu-se de que acabava de perder uma oportunidade. “Porque é que eu lhe disse que tinha 16?”, perguntou a si mesmo. “Fiz asneira.” Depois, emendou-a. Levou a mãe a casa, voltou à fábrica e esperou pela hora de almoço da rececionista que o atendera. Depois, já com outra senhora a assegurar essas funções, ofereceu-se para trabalhar. Quando ela lhe perguntou a idade, respondeu: “18”.

Para arranjar emprego aos 16 anos, Carlos Rafael tinha de mentir e dizer que já era maior de idade. Um dia, quando já tinha feito um empréstimo para comprar um Roadrunner, foi apanhado na mentira.

Poucas horas depois, às 14h00, estava a fazer um teste de aptidão física. Quando soube que tinha passado, ofereceu-se para trabalhar imediatamente. Disseram-lhe que não, mas que se esperasse até às 22h00 podia trabalhar no turno da noite, que só terminava às 6h00 do dia seguinte. Para o rapaz de 16 anos, era o horário perfeito. “Porque eu era novo e queria sair durante o dia, ir à praia, ter encontros [com raparigas]”, disse.

Carlos Rafael foi subindo progressivamente na fábrica têxtil. De formação em formação, aprendeu tudo o que havia para fazer, desde tecelão a mecânico. Depois, um dia, chegou ao seu posto de trabalho e viu um recado assinado por Louie Motta, gerente da fábrica, que Carlos Rafael já conhecia dos tempos em que ele fora colega da sua irmã no colégio. Quando chegou ao escritório, o gerente exigiu-lhe a verdade. “Tenho uma pergunta, diz-me a verdade. Quantos anos é que tu tens?”, perguntou-lhe. Carlos Rafael ainda arriscou dizer que tinha 19 anos, mas Louie Motta não tinha como ser enganado, e garantiu-lhe que se lembrava do dia em que ele tinha nascido. “Eu estava no colégio com a tua irmã”, explicou-lhe.

New Bedford é um dos principais focos de emigração portuguesa nos EUA, especialmente entre açorianos. Carlos Rafael chegou em 1967, com 15 anos (JUSTIN TALLIS/AFP/Getty Images)

“Ó, merda, estou em apuros”, respondeu-lhe enfim Carlos Rafael. No final da conversa, ficou dispensado da empresa, com a promessa de poder voltar quando tivesse idade. Ficou chateado. E atrapalhado, já que tinha contraído um empréstimo para um Roadrunner, um carro veloz e vistoso, dos melhores tempos da indústria automóvel em Detroit.

Começar como empregado…

Só aqui é que a vida de Carlos Rafael começou a estar ligada às pescas — uma associação que só em 2017, por força dos seus problemas com a justiça, vai terminar. Quando saiu da fábrica têxtil, tanto o pai como a mãe de Carlos Rafael já trabalhavam em fábricas de processamento de peixe. Chegou à Eldridge Seafood e pediu emprego. No dia seguinte, já estava a descarregar peixe dos barcos para a doca, em caixas que chegavam a pesar mais de 63 quilos. Não era o seu emprego de sonho, mas pensou que era melhor ficar com aquele até conseguir algo melhor. Nessa senda, arranjou um segundo emprego, noutra empresa, a cortar peixe. Foi lá, com a ajuda de um cabo-verdiano, que aprendeu a usar uma faca para filetar várias espécies de peixe. Segundo conta, também ali foi rápido a aprender. “Quatro meses depois, era bom naquilo, bastante bom. Seis ou sete meses depois, era o segundo ou terceiro melhor cortador que eles tinham lá. Depois fui ter com o patrão e pedi-lhe um aumento”, recordou. A resposta foi negativa e Carlos Rafael saiu porta fora, em direção a uma nova empresa.

No novo local, continuou a cortar peixe, mas a trabalhar mais horas. Começou a ganhar entre 3,40 a 3,60 dólares por hora. A relação com os patrões era complicada. Como o trabalho era regulado, nenhum trabalhador devia cortar mais do que 16 caixas de peixe. Carlos Rafael atingia esse limite no final do turno de oito horas e depois voltava, para trabalhar mais horas, à revelia das regras. O patrão, quando se apercebia da infração despedia-o — mas Carlos Rafael queixava-se ao sindicato e acabava por voltar. “Houve um dia em que ele me despediu demasiadas vezes e eu disse ‘já chega, não preciso disto para nada’.” Despediu-se e foi trabalhar para outra empresa, a Paresi. Não uma qualquer, mas sim a mesma onde trabalhava o seu pai.

Quando ainda era jovem, Carlos Rafael trabalhou ao lado do pai na mesma fábrica de processamento de peixe. Um dia, insultou o gerente. "Fuck you", disse-lhe. O pai não gostou e bateu no filho com a tábua onde filetava o peixe.

Nesta altura, Carlos Rafael já dava sinais do homem que viria a ser: desbocado, que diz o que lhe apetece e quando calha, sem reservas nem limites. Isso ficou bem claro quando foi abordado por Albert Slim, o gerente da Paresi, ao final de um turno. Ao longo das horas anteriores, o veterano observara Carlos Rafael e reparou que ele cumpria os mínimos às 14h00 e depois passava o resto do dia num ritmo mais lento. Albert Slim chamou-o à atenção. Carlos Rafael, além de já saber palavras como “cão”, “gato”, “garfo” e “faca”, tinha já um bom domínio de outras vertentes da língua inglesa. Por isso, respondeu-lhe: “Fuck you”.

Ao lado, estava o pai de Carlos Rafael. Ao contrário do filho, era provável que não soubesse “cão”, “gato” e outros tais. Mas, se houve coisa que aprendeu a trabalhar rodeado de homens numa fábrica de peixe, foi palavrões. E, para ele, ouvir o filho a usar aquelas palavras a falar para um homem que tinha idade para ser pai dele era inaceitável. Assim, em menos de nada, pegou numa tábua de corte. Depois, sem hesitar, bateu repetidamente no filho com ela. “Deu-me uma sova do caraças em frente a toda a gente”, recordou.

Mais uma vez, despediu-se. E, como de costume, encontrou emprego rapidamente. Desta vez, foi cortar peixe para Boston. Todos os dias fazia o caminho de ida e volta desde New Bedford, onde vivia com a primeira mulher, com quem já tinha uma filha. Trabalhava dia e noite, ia a casa praticamente só para dormir. “Em quatro anos, nunca pedi um dia à empresa”, gabou-se. “Nunca pedi uma semana de férias.” Com o passar do tempo, cansou-se.

Ligaram-lhe então da tal empresa que o despedia e contratava numa base diária. Queriam que ele fosse para gerente — o que implicava trabalhar lado a lado com o homem a quem, anos antes, tinha dito um “fuck you” que lhe saiu caro. Ficou lá 10 meses, até que virou costas à empresa. “A partir daqui, quero trabalhar pela minha própria conta”, disse aos patrões.

… chegar a patrão…

Com cem mil dólares no bolso e sem vontade de responder a superiores, montou o seu próprio negócio com dois parceiros, um “filha de puta de um italiano e outro português”. Chama-lhes “filha de puta”, como disse ao Observador em novembro passado, porque o enganaram e fugiram com o dinheiro da empresa e três camiões. Carlos Rafael ainda conseguiu recuperar os veículos — o dinheiro nem por isso. Com o Luzo Community Bank à perna, já que lhes devia 105 mil dólares, e com apenas 0,27 cêntimos no bolso, Carlos Rafael foi obrigado a trabalhar como nunca. Pediu seis meses ao banco, arranjou um empréstimo de 5 mil dólares com um empresário, pegou nos três camiões e fez-se à vida. “Seis meses depois, tinha 252 mil dólares em cash nas mãos”, gabou-se. Era 1979.

No banco, perguntavam-lhe onde tinha arranjado tanto dinheiro em tão pouco tempo. “Não é das drogas nem o roubei a ninguém”, garantia. “Sou capaz de ter enganado muitos pescadores, sabe como é, trocas e baldrocas, mas o mal é deles porque que não foram inteligentes. Foi tudo negócio e os negócios são assim: comprar barato e vender caro.”

Carlos Rafael fundou a sua primeira empresa pesqueira com um “filha de puta de um italiano e outro português”, que fugiram com o dinheiro e três camiões. Depois, já a solo, criou a Carlos Seafood.

A vida corria-lhe de feição. No lugar das dívidas, tinha lucro. Vendeu a casa e começou a construir outra, uma vivenda de 10 quartos. Aos poucos, à medida que comprava mais barcos, foi ganhando respeito no porto de New Bedford, um dos mais importantes dos EUA. Mas tudo isto foi possível, pelo menos em parte, graças a algo que Carlos Rafael tomava como um detalhe e que as autoridades achavam ser essencial: ele não pagava impostos. Por isso, bateram-he à porta em 1984.

Sobre este assunto, declara a sua inocência, nem que seja no plano das intenções. “Eu nunca tentei deliberadamente enganar o IRS”, garantiu. “Eu só achava que ia fazer aquele dinheiro todo e um dia mais tarde ia pagar. Eu não percebia nada de contabilidade, a minha intenção nunca foi enganá-los.” Para seu azar, as autoridades fiscais nunca acreditaram nele, confiscaram-lhe os mais de 250 mil dólares que tinha no banco e levaram-no a julgamento.

… e acabar na prisão.

Em tribunal, Carlos Rafael chegou a assustar-se. O procurador pediu que o açoreano fosse condenado a uma pena de 20 anos. Só o juiz foi capaz de tirá-lo do pânico de duas décadas atrás das grades, quando o condenou a seis meses de prisão por evasão fiscal. Acabou por sair ao fim de 4 meses e 14 dias. O melhor ainda estava para vir.

Quando saiu da prisão, Carlos Rafael sentiu uma onda de solidariedade, com o seu negócio a crescer mais do que nunca. “Parece que as pessoas simpatizam contigo quando fazes merda”, riu-se. Mesmo com as dívidas ao fisco — já em liberdade, teve de reembolsar o Estado em meio milhão de dólares — continuou a fazer lucro. Por alguma razão, a lei da gravidade parecia não aplicar-se ao Codfather.

Em 1994, voltou a ter um novo encontro com as autoridades. Desta vez, foi acusado de violar a lei da concorrência por ter combinado os preços de venda do peixe — que é colocado no mercado em leilão — com outros dois empresários luso-descendentes. Desta vez, o juiz declarou-o inocente. Desta vez, ficou furioso. Gastou 2,5 milhões de dólares na sua defesa — quando preferia antes gastá-los em barcos e salários. Por isso, não desperdiçou a oportunidade de dirigir algumas palavras a um dos procuradores no final do julgamento. Olhando-o nos olhos, disse: “Tu és um fucking asshole, tu e os outros fucking motherfuckers. Por isso, vai-te foder, motherfucker. Lê os meus lábios: vai-te foder.”

À medida que o império pesqueiro de Carlos Rafael foi ganhando importância, o porto de New Bedford também passou a ser o mais importante dos EUA (Jodi Hilton/Getty Images)

A postura de Carlos Rafael perante a justiça foi mais ou menos essa: um dedo do meio levantado e um “vai-te foder” a condizer. A certa altura, chegou a dizer às autoridades portuárias: “Eu sou um pirata e o vosso trabalho é apanhar-me”. Foi essa atitude que lhe valeu a alcunha de Codfather, à qual admite achar piada.

Nos anos que se seguiram, a sua riqueza cresceu. Apesar disso, ou talvez precisamente por isso, os casos com a justiça foram aparecendo. Em 1999, foi acusado de falsificar documentação para ter acesso a licenças pesqueiras e acabou por ficar seis meses em prisão domiciliária. Em 2002, sabendo que a Environmental Protection Agency ia limpar as águas de um estaleiro em New Bedford, afundou propositadamente um navio que já tinha dado como perdido. As autoridades apanharam-no e acabou por ter de pagar uma multa de 52 mil dólares, igualmente por decisão judicial. Em 2006, um trabalhador, também de ascendência portuguesa, morreu a bordo de um dos seus barcos por inalação excessiva de monóxido de carbono. As autoridades voltaram a investigá-lo. Carlos Rafael não quis responder às perguntas e no final teve de pagar uma multa de 46 mil dólares. Em 2011, apanhou de forma ilegal um atum de barbatana azul com 400 quilos. Ao princípio, a situação foi tão inesperada como agradável para Carlos Rafael — afinal, um atum de 340 quilos tinha sido vendido pouco tempo antes num leilão em Tóquio por 396 mil dólares. Mas quando chegou à costa, a autoridade para as pescas já estava à sua espera e apreendeu-lhe aquele troféu.

O voo de Ícaro do Codfather

Na entrevista que deu em 2004 para o projeto de história oral de New Bedford, Carlos Rafael confessava-se cansado. A culpa, dizia, era da acusação de 1994 de estar violar a lei da concorrência — a tal em que foi denunciado e acabou a dizer “fuck you” ao “motherfucker” do procurador em pleno tribunal. “Isso enfraqueceu a minha empresa imediatamente”, disse. “Desde 1997 tenho dado o meu coração para trazer tudo onde estava, mas não sei se alguma vez serei capaz de fazê-lo. Nunca nesta vida. Tenho 52 anos, já não tenho em mim a luta que tive noutros tempos.”

Agora sabemos que estas palavras eram bluff, já que foi precisamente nesses anos que o seu negócio aniquilou toda a concorrência. E Carlos Rafael também não terá sido verdadeiro quando partilhou o que seria a maior lição dos seus anos de problemas com as autoridades e com o fisco: “Dá-lhes a mais. É melhor receber um cheque no correio com uma devolução do que estares a dever um dólar. Eles começam a olhar e podem encontrar alguma coisa que não devem. Não é que seja intencional, pode ser só alguma asneira”.

Só por ingenuidade é que Carlos Rafael podia acreditar que as autoridades não o vigiavam de perto. Mas a ingenuidade não é uma característica que assenta no homem que desde os 12 anos planeou emigrar para os EUA para viver a “vida americana” e que acabou por se tornar o pescador mais poderoso do porto mais importante dos EUA. “As coisas não caem do céu”, disse naquela entrevista de 2004. Então foi lá ele buscá-las.

Mas, para alguém que aprecia tanto a mitologia grega, Carlos Rafael parece não ter aprendido nada com a história do voo de Ícaro. Contra os conselhos do seu pai, Ícaro voou demasiado perto do sol, na ânsia de fugir de Creta. No final, as asas de cera que o pai lhe oferecera derreteram e Ícaro despenhou-se no mar. É também esta a história de Carlos Rafael, que durante muito tempo voou pensando que tinha asas — e que só tardiamente se apercebeu de que apenas agitava os braços para cima e para baixo. Agora, caiu. Era altura de provar que afinal a lei da gravidade também se aplica ao Codfather.

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