Os outros dois F’s: fado e futebol em Fátima (e os sms de Rui Vitória com o padre do clube)

11 Maio 2017

O fado só se canta na casa de Isabel. O clube de futebol é presidido por um padre e um muçulmano. Rui Vitória treinou lá e ficou amigo do padre. Trocaram sms sobre a expulsão do treinador do Benfica.

F de Futebol

No topo do Santuário de Fátima (do lado esquerdo de quem tem agora o super-terço nas costas), o relógio instalado há quase um ano para o centenário das aparições aos pastorinhos, a 13 de maio de 1917, deve marcar menos três dias, 18 horas e 45 minutos. O que significa que faltam exatamente três dias menos 25 minutos para o papa Francisco aterrar na base aérea de Monte Real — e pouco mais do que isso para pousar de helicóptero no estádio municipal local e embarcar no papamóvel rumo ao santuário. Quer dizer que os funcionários no cimo da fachada do complexo desportivo, que acabam de fixar o primeiro “E” do novo letreiro (uma hora e meia depois ainda estarão em “Estádio Papa Fr nci o”), têm mais do que tempo para acabar o trabalho.

Os jogadores da equipa principal do Centro Desportivo (CD) Fátima, que começam a chegar para o treino da tarde, não podiam estar mais indiferentes aos homens encavalitados lá em cima. Desde que a relva não se estrague (não estraga, que o helicóptero não rola no chão, só assenta e levanta, garante ao Observador um funcionário do clube, basta o jardineiro passar a alisar a relva depois) e que no domingo, já com o Papa de regresso ao Vaticano, ganhem ao Louletano (e que Real Massamá e Praiense percam pontos), tudo estará bem.

António Pereira foi jogador do CD Fátima entre 1970 e 1980

A uma jornada do final da fase de subida do Campeonato de Portugal Prio, o último degrau do futebol sénior amador, que dá acesso à II Liga, já profissional, o CD Fátima segue em terceiro na zona sul (sobe o primeiro, tem direito a disputar uma eliminatória o segundo), mas tem os mesmos pontos (22) que a equipa de Massamá e apenas menos dois do que a da Praia da Vitória, na Terceira.

Os ânimos estão tão ao rubro, conta o presidente do clube que, na semana passada, quando o Fátima ganhou ao líder Praiense nos Açores e relançou a corrida à divisão superior, jogadores, técnicos e adeptos fatimenses tiveram de sair do estádio com proteção policial. “Um dos nossos diretores foi agredido e tudo, pelo presidente deles, deu-lhe uma na cara, mas os jornais não escreveram nada”, acusa António Pereira, 73 anos, na sala de conferências de imprensa do futuro Estádio Papa Francisco. “Não foi nada na cara, foi aqui no ombro, mas foi com força”, entra entretanto e repõe a verdade o agredido Manuel Neves, 65 anos, coordenador do departamento de futebol, vice-presidente da Assembleia Geral do clube e secretário da Assembleia Geral da SAD.

António Pereira não teima. Na verdade, não viu nada. Apesar de presidente, nunca assiste aos jogos fora. E nem sempre marca presença nas partidas em casa. Está ligado ao clube, fundado em 1966, desde 1970, mas sempre foi assim.

"A maior parte das pessoas era contra. Diziam uma série de coisas: 'Que vergonha, que escândalo, um padre a jogar futebol, o mundo está doido, está tudo perdido, onde é que já se viu?!'. Mas também havia quem fosse a favor e dissesse, 'Finalmente começamos a ver que a igreja se abre'. Eram uma minoria"
Padre António Pereira, presidente do CD Fátima

Primeiro, na altura em que o CD Fátima disputava os distritais, entre 1970 e 1980, foi jogador. Um avançado-centro perigosíssimo e veloz, com um poder de elevação sem igual, não havia adversário que lhe ganhasse uma bola de cabeça, recorda, do alto do metro e oitenta que ainda mantém.

Um dia, numa edição que não guarda nem consegue encontrar, chegou a ser assunto do jornal Mundo Desportivo: dedicaram-lhe duas páginas inteiras. Não pelos golos que marcou, mas pelo resto, que o impede ainda hoje de apoiar a equipa nos jogos e que na altura chegou a obrigar o treinador a entrar em campo com menos um, que não eram permitidas substituições e mais valia aguentar uns minutos com dez do que entrar com onze e o Pereira chegar logo a seguir e já não poder calçar: “Fui o primeiro padre a jogar futebol federado em Portugal!“.

Na altura tinha 25 anos e, acabado de chegar dos estudos no Vaticano, deu nas vistas nos torneios organizados em Fátima, entre colégios e seminários. “Os diretores do Centro Paroquial de Fátima, que era como o clube se chamava na altura, convidaram-me para jogar. Cheguei em Outubro de 1969, no Natal já me estavam a bater à porta.”

Começou a alinhar pelos grenás no início de 1970, a polémica alimentada pelo extinto jornal desportivo estalou logo a seguir: “A maior parte das pessoas era contra. Diziam uma série de coisas: ‘Que vergonha, que escândalo, um padre a jogar futebol, o mundo está doido, está tudo perdido, onde é que já se viu?!’. Mas também havia quem fosse a favor e dissesse, ‘Finalmente começamos a ver que a igreja se abre’. Eram uma minoria”.

Todos os domingos, a rotina era a mesma: quando acabava a última das três missas que tinha de dar nas suas três paróquias de Ourém, entrava no carro que tinha à espera à porta da capela, engolia uma sandes para recuperar as forças e deixava-se conduzir pelas estradas sinuosas da altura, a altas velocidades (também para a época), por um funcionário do clube. Chegava aos campos não raras vezes em cima da hora, nem tinha tempo de aquecer, só de trocar a sotaina pelos calções. “Uma vez íamos a Vila Chã de Ourique, era um jogo importante. O carro avariou a meio do caminho e tive de pedir boleia a uma pessoa que passou. Cheguei dez minutos atrasado, vesti-me e entrei, o treinador tinha começado com dez. Fez bem, ganhámos com dois golos meus”, recorda, orgulhoso, agora que já não joga mas ainda corre (se bem que já não dez quilómetros todos os dias). “Com 73 anos ainda tenho pedalada!”

Agora que é presidente, em vez de três missas aos domingos, tem quatro – Moitas Vendas, no concelho de Alcanena, Amiais de Baixo, Monsanto e Abrã, no de Santarém. Ao todo são “oito lugares de culto” que tem a cargo. Já para não falar nos imprevistos que podem colocar-se diariamente à vida de um padre: “Os mortos não avisam com antecedência. Ou melhor, avisam, mas é só um dia antes. É muito difícil conseguir ir ver os jogos. Aos sábados de manhã é que não falto aos dos miúdos, traquinas, benjamins, infantis, vejo tudo”.

"Este clube deve muito ao Rui Vitória, foi o nosso rosto durante quatro anos. É um homem sério e desportivamente muito competente, incutia muita segurança aos jogadores. No tempo dele, na II Liga, chegámos a ter 600 ou 800 pessoas nas bancadas. Foram tempos bonitos e cheios de sucesso. A seguir foi a queda para o abismo"
Padre António Pereira, presidente do CD Fátima

Também tem pena que a população de Fátima não seja propriamente fanática pelo clube da terra. Agora, que o CD até pode subir de divisão, há mais público nas bancadas (o que, com bilhetes a 9 euros, não deixa de ser notável). Mas ao longo dos últimos anos, diz, com as sucessivas e profundas crises financeiras que deixaram o clube insolvente e chegaram a atirar a equipa principal para o campeonato distrital, o povo tem estado de costas voltadas para o Fátima. “Se tivéssemos 100 pessoas a ver os jogos era muito.”

Rui Vitória e os sms com o padre depois da expulsão

Desde que, em 2015, a SAD foi vendida ao saudita e muçulmano Abdulmouti Kaaki, o panorama tem vindo lentamente a melhorar. Mas ainda está bem longe de se aproximar dos tempos áureos em que Vitória era apelido do (treinador do) clube, que chegou a eliminar o Futebol Clube do Porto da primeira edição da Taça da Liga (2007/2008), para perder depois com o Sporting na meia final.

“Este clube deve muito ao Rui Vitória, foi o nosso rosto durante quatro anos. É um homem sério e desportivamente muito competente, incutia muita segurança aos jogadores. No tempo dele, na II Liga, chegámos a ter 600 ou 800 pessoas nas bancadas. Foram tempos bonitos e cheios de sucesso. A seguir foi a queda para o abismo”, diz o padre, natural de Sobrado, no concelho de Valongo, e ferrenho do FCP.

O relvado onde o helicóptero com o papa Francisco vai aterrar na próxima sexta-feira

O atual treinador da equipa principal do Benfica, que se arrisca a ser campeão nacional já neste sábado, no dia do centenário das aparições em Fátima, passou quatro épocas no clube, entre 2006 e 2009. Quando lá chegou, contratado à equipa júnior do SLB — “Fomos à procura dele a Lisboa. Disse-nos que se lhe garantíssemos que íamos lutar pela subida vinha, porque o objetivo dele era treinar uma equipa de nível nacional, não continuar nas camadas jovens” — era treinador há apenas quatro anos e tinha, além dos juniores encarnados, apenas o Vilafranquense no currículo. Com ele, o clube subiu duas inéditas vezes à II Liga (o que significa que também desceu uma).

“Era treinador, era dirigente e ainda motorista. Emprestámos-lhe uma carrinha Ford, de 9 lugares, e era ele que transportava grande parte dos jogadores, que não eram de cá”, revela o padre-presidente. Com Arnaldo Teixeira, o adjunto que ainda hoje o acompanha na Luz, Rui Vitória, então com 36 anos e professor de Educação Física na Escola Secundária Gago Coutinho, em Alverca, fazia a A1 para cima e para baixo todos os dias, a seguir às aulas da manhã, recorda o atual presidente do Fátima.

Apesar das notícias publicadas em 2009, quando Vitória trocou o CD pelo Paços de Ferreira, abrindo as portas do municipal de Fátima a Diamantino Miranda (“Que deixou o clube noutra grande crise”, acusa), o padre garante que não só não ficou magoado como ainda é amigo do treinador benfiquista. Afinal, revela, até lhe batizou a filha. “Ainda há dias lhe mandei mensagem, quando foi expulso, no fim do jogo com o Moreirense, lembra-se?”

Não foi há dias, mas antes no final de janeiro, mas o padre ainda tem os sms guardados no telemóvel:

“Rui, tem calma. Ontem não foste o Rui Vitória a que estamos habituados.”

“Boa noite, senhor padre, não disse nada de diferente ontem. Apenas manifestei o meu desagrado com o trabalho dos árbitros. Mas tem razão, tenho de ter mais cuidado.”

Ligado ao clube, que no ano passado celebrou meio século de existência num jantar com cerca de 500 pessoas, há 47 anos, desde os 25, António Pereira não foi sempre presidente. Mas fez questão, mesmo durante os anos que passou fora, primeiro como padre da comunidade portuguesa de Elizabeth, New Jersey, depois como pároco de Ourique, no Alentejo, de ajudar o Fátima.

"Eu iria com toda a simplicidade a uma mesquita, como aliás já fui, o ecumenismo é isso, mas ele como muçulmano tem outras regras, bastante rígidas nesse aspeto: não pode entrar em igrejas católicas. Respeito, até porque o que nos une é o futebol."
Padre António Pereira, presidente do CD Fátima sobre o presidente da SAD, muçulmano

Nessa altura, organizava jogos de futebol de beneficência e angariações de fundos. Quando, em 2000, regressou finalmente a Fátima, disponibilizou-se para assumir vários cargos de responsabilidade — mesmo sabendo que o mais provável era que o clube se afundasse e arrastasse todos à sua volta no mergulho. “O clube passou por muitas dificuldades financeiras, havia dívidas às Finanças, à Segurança Social, aos jogadores… O presidente não podia ser ninguém com responsabilidades familiares. Como a mim ninguém me podia bater nem fazer mal, assumi a presidência“, revela.

Pelo CD Fátima, tudo, garante o padre — até vender a SAD a um empresário muçulmano. O negócio foi fechado em 2015 e aconteceu na sequência de contactos iniciados quatro anos antes, num hotel em Lisboa, numa altura em que se aproximava o fecho de inscrições no campeonato e não havia dinheiro sequer para tratar da papelada, quanto mais para contratar jogadores e treinador. “Foi a cereja em cima do bolo, gostámos muito um do outro, ele tem uma academia de futebol, tem muitos jogadores, já apoiava o Louletano — acho que veio passar férias ao Algarve e ficou amigo do presidente da Câmara de Loulé. Passou a dar-nos 7 mil euros por mês”, recorda o padre.

Sobre a religião que os separa — e separa mesmo: Abdulmouti Kaaki não só nunca assistiu a uma missa de António Pereira como, sempre que vem a Portugal, tem o cuidado de não se aproximar sequer do Santuário de Fátima –, diz que não é assunto. “Eu iria com toda a simplicidade a uma mesquita, como aliás já fui, o ecumenismo é isso, mas ele como muçulmano tem outras regras, bastante rígidas nesse aspeto: não pode entrar em igrejas católicas. Respeito, até porque o que nos une é o futebol.”

F de Fado

Basta passar umas horas (uma talvez chegue, na verdade) para perceber que em Fátima não há muito mais além de, como diz Isabel Gil, 49 anos, natural do Valinho, “velas para acender e terços para rezar”. Lojas de artigos religiosos existem às dezenas, hotéis, pensões, albergues e residenciais idem, tal como restaurantes para (e com preços para) turista. “Mas não temos um cinema, um teatro, uma casa da cultura. Fátima recebe muitos turistas, mas ou vêm em grupo, e trazem programas marcados pelas agências, ou vêm ao santuário e passam, a cidade não os retém muito tempo. Durante o dia ainda dá para ir a Aljustrel, aos Castelos ou à Batalha, mas à noite não há nada. É um tédio, por isso é que ninguém fica cá.”

Foi para tentar contrariar isso e dar largas à vontade de cantar que, em março do ano passado, Isabel, ama da Segurança Social a vida inteira, resolveu abrir a Lanterna do Fado — não junto ao santuário, que os decibéis da música não sacra pela madrugada dentro não seriam tolerados, mas numa aldeia mesmo ao lado, a Giesteira, por acaso bem perto do (quase) Estádio Papa Francisco.

"Fátima não tem tradição fadista. Quando se fazem noites de fado, nos salões, com os fundos a reverterem para a Igreja, vai muita gente -- mas é pelo jantar e para ajudar, não pela música. Em Santarém há tradição de fado e de tourada, em Fátima a religião acabou por abafar tudo o resto."
Isabel Gil, fadista

É a única casa de fado num raio de largas dezenas de quilómetros: a terra, ainda no distrito de Santarém mas muito pouco ribatejana, não tem qualquer tipo de tradição no género, garante. Aliás, há 14 anos, nem Isabel, agora orgulhosa proprietária, ajudante de cozinha, empregada de mesa e cantora de serviço, tinha alguma vez ousado sequer cantar fora da igreja. “Fátima não tem tradição fadista. Quando se fazem noites de fado, nos salões, com os fundos a reverterem para a Igreja, vai muita gente — mas é pelo jantar e para ajudar, não pela música. Em Santarém há tradição de fado e de tourada, em Fátima a religião acabou por abafar tudo o resto”.

Isabel Gil é a proprietária (e fadista residente) da Lanterna do Fado

Catequista durante anos, Isabel foi desafiada para “cantar um fadinho a Nossa Senhora” em maio de 2003, numa vigília de encerramento do Mês de Maria, na capela de Boleiros, onde começou a ir à missa aos 9 anos. O primeiro instinto, confessa, até foi dizer que não. A recuperar da operação a que tinha acabado de se submeter, por ter cancro da mama, e ainda antes de iniciar mais uma série de tratamentos de quimioterapia, acabou por concordar: “Cantei sozinha, com um viola e um guitarra, pela primeira vez na vida. O Avé Maria Fadista, da Amália Rodrigues, e o Pai Nosso Fadista. Com o tempo, o Paulo Marques e o Nuno Martins, que tocaram comigo, começaram a chamar-me para ir com eles a casas de fado. Íamos lá, comíamos qualquer coisa e cantávamos. É a única forma de começar. Íamos a Leiria, a Tomar. O fado passou a ser o meu psicólogo“.

Em pouco tempo, tinha uma série de “amigos do fado”. Que, rapidamente também, passaram a adorar os petiscos que Cândido Gil, seu marido, 53 anos, torneiro mecânico desde os 16, fazia. Quando ele adoeceu e foi mandado para casa, incapacitado para o trabalho em fábricas e oficinas, perceberam que podiam ter, na música e na comida, uma saída.

Não foi de um dia para o outro que Cândido de operário passou a chef, e Isabel, ex-ama se fez fadista. O processo, recordam, demorou cerca de um ano, cheio de medos, avanços e recuos. “Sou católica e acho que isso me ajuda a encarar melhor as coisas más. Dei por mim a pensar que se já me tinha acontecido tanta coisa má na vida, alguma coisa boa havia de estar para acontecer. Tem corrido bem, temos ótimas críticas na Internet e não podemos queixar-nos do número de clientes que cá vêm — mais turistas, as pessoas de Fátima estão agora a começar a vir. Mas não foi sempre fácil, quando não tinha clientes dizia a Nossa Senhora: ‘Não sabes que tenho a luz para pagar?!'”

A casa de fados tem dois pisos e três salas

Quando finalmente encontraram o espaço que hoje ocupam, uma moradia tradicional de pedra, com dois pisos e mais de cem anos, com piscina lá fora, devoluta e fechada há uma década, com negócios pouco católicos no currículo (“Houve uma altura em que já estava o alterne aqui metido, a nossa sorte foi termos recuperado parte do nome do restaurante original, A Lanterna, que aqui estava há mais de 20 anos”, contam marido e mulher), souberam que a casa de fados tinha de ser ali.

Daí até as obras estarem prontas, os xailes pendurados na parede e Cândido enfiado na cozinha, a criar pratos como friginada de javali com castanhas e salada de laranja ou bochechas de vitela estufadas com pão frito e arroz de passas e amêndoas, foi um fósforo. “No início ainda abrimos como petisqueira, restaurante e casa de fados, mas percebemos rapidamente que não íamos conseguir, era muita coisa, caíram os petiscos. Fazemos uma cozinha típica da região, de forno, fiel às nossas origens: as avós faziam primeiro o pão e aproveitavam a temperatura do forno para cozinhar a comida depois. Não temos bifes, por exemplo, quem quiser bifes que vá à Portugália ou à Cova da Iria, que há lá muitos restaurantes de bitoques”, atira Isabel.

"Para ganhar dinheiro com fado é em Lisboa, que se paga 50 euros por um caldo verde por uma rodela de chouriça. Aqui os clientes pagam 20 euros, comem bem e ainda assistem ao fado. Não quero enriquecer com isto. Quero ter as contas em dia e ser feliz."
Isabel Gil, fadista

Não canta para o Observador, porque as noites de fado são às sextas e a apanhámos numa terça, que é dia de folga no restaurante familiar — o filho serve às mesas, a sogra é responsável pelos doces, o neto, pequeno, suplica com o olhar que libertemos a avó rumo à folga da semana.

De resto, nem sequer é sempre ela que canta, as dezenas de cartazes colados na zona do bar, alusivos a noites de fado anteriores são prova disso: “Já tivemos cá grandes nomes de Lisboa: Miguel Ramos, Pedro Amendoeira, Teresa Tapadas, Tiago Simões, Marcelo Rebelo da Costa, Célia Leiria. São pessoas que, se formos ao Bairro Alto ou a Alfama, eles estão lá”.

Por muito que o negócio ainda só tenha um ano, faz questão de chamar nomes conhecidos da praça — e de pagar por isso. De resto, qualquer cliente pode pedir para subir ao palco e cantar, como em qualquer casa de fado tradicional que se preze. Só tem uma regra: para lá da uma da madrugada não há fado para ninguém. “O cliente não deve sair enfadado, deve sair com fome de fado. Já aconteceu algumas noites darem prejuízo, como já aconteceu outras darem lucro. Para ganhar dinheiro com fado é em Lisboa, que se paga 50 euros por um caldo verde por uma rodela de chouriça. Aqui os clientes pagam 20 euros, comem bem e ainda assistem ao fado. Não quero enriquecer com isto. Quero ter as contas em dia e ser feliz.”

Texto de Tânia Pereirinha, fotografia de Henrique Casinhas.
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