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Discriminação

A ditadura da juventude

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Tudo é discriminação à excepção do afastamento por idade. Bali Padda foi afastado porque tem 61 anos. E ninguém se indignou. Patrões e sindicatos fazem da exclusão dos não jovens um sinal de sucesso.

Na PSP faltam anos e sobram músculos aos agentes que andam nas patrulhas. Professores fazem manifestações com bengalas para exigir regime especial de aposentações ao fim de 36 anos de serviço. A possibilidade de os médicos com mais de 55 anos terem de fazer urgências gerou uma enorme indignação…

No mundo do trabalho a idade continua a ser tratada como se fossemos mineiros dos alvores do século passado: de nada serve vivermos mais e gozamos aos sessenta anos de uma saúde que teria feito a inveja dos nossos bisavós aos quarenta. Patrões e sindicatos fazem da exclusão dos não jovens um sinal da modernidade da sua gestão (caso dos patrões) e do sucesso das suas reivindicações (caso dos sindicatos).

Na prática tudo é discriminação à excepção do afastamento por idade. Em nome da não discriminação somos obrigados a aceitar os maiores disparates. Simultaneamente assistimos à banalização do empurrar para fora das suas funções pessoas cujo problema é apenas não serem suficientemente jovens: Lego vai voltar a mudar de CEO pela segunda vez em oito meses, porque o primeiro escolhido era demasiado velho. Bali Padda, de 61 anos, entrou para a direção da empresa dinamarquesa de brinquedos em janeiro, mas deverá sair já em outubro para ser substituído por um empresário dez anos mais novo, Niels Christiansen.” – Com pequenas variantes, as notícias deram conta da substituição de Bali Padda por Niels Christiansen à frente da Lego. Note-se, Bali Padda foi oficialmente substituído não por ser incompetente mas sim porque a Lego pretendia colocar alguém dez anos mais novo no seu lugar.

Pode supor-se que esta foi a explicação politicamente correcta para afastar um CEO que não estava a dar grande conta do lugar pois até agora a Lego teve uma política de manter por largos anos os seus CEO. Ou que, em tempos de Brexit, a companhia preferiu voltar a uma direcção dinamarquesa, pois Bali Padda é inglês. Deixo para outros a averiguação das outras razões possíveis para o afastamento de Bali Padda e da sua substituição por mais um daqueles dinamarqueses de nome impronunciável, sendo que desde já acrescento que para mim nenhum gestor da Lego chegará aos calcanhares do que teve a ideia abençoada de comercializar caixas com peças soltas, especialmente janelas, portas e cancelas.

O que me interessa na história de Bali Padda, nascido no Punjab, ido com 12 anos para Inglaterra onde começou a trabalhar aos 16, que acabou por estudar à noite enquanto trabalhava de dia para sustentar a família, é o silêncio criado em torno da explicação para o seu afastamento: a empresa ia colocar alguém dez anos mais novo no seu lugar.Note-se não se disse que era alguém mais competente. Apenas dez anos mais novo.

O terror de se ver acusado de discriminação levou o Ocidente a inverter valores e prioridades: mulheres suspeitas de terrorismo apresentam-se num tribunal em Inglaterra literalmente tapadas – uma delas nem sequer os olhos deixava ver – mas não se pode proibir este atentado aos nossos costumes e ao bom senso porque se é de imediato acusado de discriminação. Temos minorias que se acreditam acima da lei e a quem são atribuídos generalizadamente apoios sociais mas abordar o assunto cai no estigma do racismo. No domínio do sexo/género/reprodução a realidade já não se distingue da ficção. Na verdade já faltou mais para que os livros de Biologia circulem na clandestinidade e a história das cegonhas passe por plausível. Em Portugal estamos na fase da “Avó que vai dar à luz o neto” e nos EUA mantém-se o circo em torno dos homens que dão à luz. Explicar que quem dà à luz são mulheres (mesmo que pareçam homens) e que as avós não dão à luz netos mas sim filhos implica passar para o lado dos reaccionários. Ironicamente nos mesmos dias em que se soube que a Lego ia mudar de CEO rebentou o caso James Damore, o engenheiro despedido pela Google por ter feito um estudo sobre as diferenças face à tecnologia entre homens e mulheres. Não é que não se admita que essas diferenças existem – não se trata de ser melhor ou pior mas simplesmente de ser diferente –, mas não se pode afirmar isso porque se incorre no pecado do machismo.

Contudo, a idade é todos os dias invocada para seleccionar pessoas. E não, não é para ter acesso aos cursos para comandos ou integrar concursos de beleza. Estou a falar de lugares como recepcionista, que nos respectivos anúncios têm de conter a referência m/f; que, claro, se for um homem vestido de mulher não se pode dizer não ter sido escolhido(a) por isso mesmo; que se sofrer de gaguez também é melhor não invocar esse problema para explicar não ter sido seleccionada… O único factor de exclusão que se pode invocar à vontade é a idade. Contudo a idade faz falta. Muito particularmente naqueles espaços e momentos em que o stress e o poder se cruzam. Não pretendo pronunciar-me sobre a questão laboral dos médicos mas caso tenha de ir a uma urgência hospitalar espero que esta tenha médicos jovens e menos jovens. E o mesmo se aplica às escolas: a presença de professores e funcionários mais velhos faz falta. Tal como também fazem falta agentes mais velhos nas patrulhas da PSP. A diversidade etária das equipas é uma vantagem e, acredito eu, um factor de acrescido bom senso, esse menosprezado garante da tranquilidade possível de cada um de nós, sobretudo nos momentos mais difíceis da vida.

Infelizmente à excepção dos vinhos aos quais se admite poderem ser em velhos diferentes daquilo que foram em novos, tudo o mais se rege pela regra dos jogadores de futebol: temos de ser jovens. Quando já não o somos temos de dizer que nos sentimos jovens e, pasme-se, que pensamos como jovens, coisa em si mesma absurda não porque os jovens não pensem mas sim porque em matéria de pensamento o tempo conta. Para o melhor e para o pior.

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