Assalto em Tancos

A patrulha e a banda

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Em Tancos confrontámo-nos com o vexame da irresponsabilidade. Mas isso só aconteceu porque há anos que andamos a fugir do peso da responsabilidade. Tancos somos nós.

Imaginem que em Tancos tinha existido uma patrulha e que esta patrulhava de facto. Muito provavelmente os soldados da patrulha teriam sido mortos porque as rondas nos paióis militares em Portugal são feitas com armas sem munições. Mas se por milagre a patrulha tivesse sobrevivido e respondido aos assaltantes poderia estar agora metida num enorme sarilho. Porque os militares tinham disparado e quem dispara pode ferir ou matar. Quem assumia a responsabilidade pelas consequências desses disparos? Quem pagava as indemnizações aos assaltantes caso estes fossem, por exemplo, feridos numa perseguição que eventualmente tivesse lugar? E se os assaltantes levassem consigo uma criança – não, não estou a imaginar algo nunca visto – e a criança fosse alvejada por uma arma disparada pelos militares da ronda?

Não vale dizer que estes assaltantes eram terroristas e como tal essas questões não se colocam porque, presumo eu, no momento de um assalto dificilmente se consegue distinguir um terrorista verdadeiro de um terrorista faz de conta, de um ladrão a quem se encomendaram umas armas ou de um simples parvo que resolveu fazer de conta que consegue assaltar um paiol.

É fácil dizer que as rondas não existiam em Tancos e a vedação aguardava arranjo por falta de meios e por incapacidade de comando do comandante da base, do Chefe do Estado Maior do Exército e do ministro da Defesa ou mais propriamente ministro que se defende a si mesmo.

Mas faltava muito mais em Tancos. Faltava uma país que assuma as suas Forças Armadas. A memória da guerra em África, a que se seguiu a agitação revolucionária do PREC, levou a que os portugueses tivessem assistido quase com alívio à transformação das suas Forças Armadas num agrupamento com fardas bonitas e bandas que tocam nos dias de festa ou nas manifestações a favor da Venezuela mas que pelo menos no fim do dia regressam a casa ou ao quartel. Os militares ou boa parte deles também não se deram mal com este papel de figurantes ilustres nas celebrações do regime.

E obviamente em Tancos faltou também uma opinião pública que não comece a titubear ao primeiro espirro dos auto-denominados pacifistas. Vamos lá ser honestos: se um dos soldados da patrulha tivesse atirado sobre os outros não estaríamos agora a defender patrulhas com armas sem munições? E não estaríamos indignadíssimos com a patrulha se os militares que faziam a ronda em Tancos por acaso tivessem conseguido tirar um dos dois carregadores que levavam à cinta, deslacrá-lo, colocá-lo na arma e finalmente disparar sobre um assaltante que os seus familiares, os seus advogados e três jornalistas de causas afiançavam ser apenas um ornitólogo ou um invocador dos espíritos telúricos em prol da harmonia universal?

O discurso do pacifismo (que na prática nunca gera a paz antes pelo contrário) transformou portas adentro as Forças Armadas numa espécie de fanfarra. Internacionalmente imaginamos os militares como uma ONG que alimenta e transporta as populações. Tudo o que ultrapasse esta versão telegénica dos militares gera problemas. Note-se que o facto de termos a extrema-esquerda no Governo fez com que caísse um manto de silêncio sobre a morte há escassas semanas, no Mali, do sargento-ajudante Gil Fernando Paiva Benido mas outro fosse o governo e já teríamos o ministro da Defesa a ser bombardeado no parlamento com perguntas sobre o que estão os militares portugueses a fazer no Mali, os interesses obscuros que nos levaram ao Mali e da necessidade de sairmos rapidamente do Mali.

Aquilo que aconteceu em Tancos também é responsabilidade nossa. Tal como seria responsabilidade nossa a morte dos soldados da patrulha que invariavelmente teria acontecido caso esta se tivesse cruzado com os assaltantes porque os assaltantes de paióis não costumam esperar que as forças militares e de segurança tirem os carregadores, lhe retirem o selo, o coloquem na arma e finalmente disparem. E também seria responsabilidade nossa caso estes tivessem disparado sobre os assaltantes. Mas claro que íamos fazer de conta que não.

Em Tancos confrontámo-nos com o vexame da irresponsabilidade. Mas isso só aconteceu porque há anos que andamos a fugir do peso da responsabilidade.

Tancos somos nós.

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