Liberdades

As liberdades que não são de esquerda

Autor
678

Não é de esquerda a defesa da liberdade de expressão, tal como não é de esquerda a defesa da liberdade de não sermos continuamente e crescentemente abalroados na conta bancária por via fiscal.

É oficial: pelos lados da geringonça cortaram as últimas amarras que os ligavam à realidade. É o que qualquer pessoa sensata conclui da promessa de Pedro Marques do novo aeroporto complementar no Montijo para 2019. Os tempos dessa entrada cimeira da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ‘direito ao TGV’, exigido pelos lunáticos da Juventude Socialista em 2009, estão de volta.

Claro que em 2019 dificilmente haverá aeroporto. A razão é simples e bruta: não há dinheiro. Mas, em boa verdade, o que interessa ao PS também não é a construção do aeroporto. É muito mais útil enganar os tolos com a retórica do investimento; encher jornais e noticiários com projetos grandiosos que o magnífico governo apadrinha (os jornalistas assim sempre se esquecem de referir os números risíveis do investimento que, de facto, temos tido e que mostram que com este desgoverno ninguém arrisca investir); oferecer uma cenoura coberta de chocolate, à laia de esperança, aos eleitores dos municípios da zona do futuro-barra-imaginário aeroporto.

O PS sempre foi um partido da pós-verdade, muito antes do conceito estar na moda. Lembramo-nos das promessas de Centeno e Costa para o crescimento económico, não lembramos? Pelo que dizer que se quer construir o aeroporto, para o PS, é muito mais útil que construir mesmo o aeroporto. Quanto menos o pretenderem construir, mais proclamações enfáticas de amor assolapado pelo novo aeroporto deveremos ouvir. Vamos ser todos endoutrinados na bala de prata (mais uma, já houve tantas) que é o novo aeroporto para o desenvolvimento português. Quem não amar o projeto do novo aeroporto acima de todas as coisas, não é patriota. António Costa, naquela sua peculiar maneira de esmigalhar a língua portuguesa, ‘incontrará’ maneira de argumentar que é ‘inconxional’ não construir o novo aeroporto.

Quer dizer que, apesar da retórica lunática, o PS até vai ter uma prática responsável e arredar-nos de custos com o novo aeroporto? Claro que não, caro leitor, por quem os toma? Pedro Marques já esclareceu que se realizarão estudos. Muitos estudos a empresas amigáveis poderão ser encomendados – e pagos, quer se realizem além do primeiro rascunho ou não. A utilidade e a necessidade dos ditos é irrelevante, afinal quando efetivamente se construir o novo aeroporto estarão já datados e serão necessários estudos mais atualizados. Há muito dinheiro dos contribuintes para desbaratar por aqui – e o PS dedicar-se-á carinhosamente a este desígnio.

Alegre-se: as boas ideias – boas no sentido de espremer contribuintes – não param. O BE quer eliminar as propinas do ensino universitário, mesmo para os alunos de famílias com rendimentos que possam pagá-las. A agremiação de jovens (ou trintões) excitáveis conhecida como JS, mais uns tantos socialistas, aplaudem. Querem tornar o ensino superior ‘gratuito’ – segundo o dicionário da geringonça; no dicionário das pessoas não infetadas pelo virus socialista, ‘gratuito’ significa pago por outros, os omnipresentes contribuintes.

Os contribuintes já estão sangrados mais que suficientemente? O ensino superior traz geralmente vantagens monetárias futuras a quem o frequenta, fazendo sentido por isso que o grosso do seu financiamento recaia sobre quem dele mais beneficia? Os alunos do ensino superior são sobretudo filhos da classe média e da classe alta, pelo que o pagamento por todos os contribuintes é uma transferência de recursos para as famílias mais endinheiradas? Não interessa. É tão bonito bater no peito enquanto se reclama ensino superior alegadamente gratuito.

Os contribuintes, como na geringonça sabem, têm uns bolsos muito fundos e faz-lhes muito bem pagarem mais impostos. É gente muito rica – que só por manigâncias não aparece nas estatísticas – com fundos intermináveis a necessitarem de ser transferidos para a boa gestão da sensata gente do Bloco e da ala esquerda do PS. Quem não confia nestes génios financeiros para gastar por nós o nosso dinheiro?

Continue, portanto, sorridente enquanto o desgoverno todos os dias inventa formas de esmifrar contribuintes, e depois não se admire se, tendo um ordenado de classe média, o usar para sustentar as alucinações da geringonça e não lhe sobrar para ir de férias ou comprar presentes de Natal.

Posto isto, é uma grande injustiça que as indignações da semana tenham recaído sobre Isabel Moreira. E logo por ter constatado uma verdade autoevidente: a defesa da liberdade de expressão não é uma causa de esquerda. Que a autocensura (descrevo eu a recomendação da deputada do PS) é que é de esquerda. (Quando dirigida à comunidade lgbt, claro. Se tiver como alvo a padralhada, por exemplo, há que abusar da liberdade de expressão. A própria Isabel Moreira é um tanto descontrolada quando se trata de epitetar publicamente opositores políticos.)

Ora Isabel Moreira tem muita razão. A defesa da liberdade não é de esquerda. De esquerda é a igualização (à força, se preciso) dos indivíduos. E são Isabel Moreira e seus amigos (os deuses nos livrem e guardem) que sabem aquilo em que devemos usar a nossa autocontida liberdade. Não é de esquerda a defesa da liberdade de expressão, tal como não é de esquerda a defesa da liberdade de cada um de nós dar o destino que bem entende ao dinheiro que ganha com a sua profissão. Também conhecida como liberdade de não sermos continuamente e crescentemente abalroados na conta bancária por via fiscal.

A esquerda adora tanto estas liberdades quanto eu aprecio serpentes (que ainda ontem andei a fugir, sob o escárnio dos meus filhos, de umas reproduções dos abjetos rastejantes num museu de história natural). Isabel Moreira é só mais transparente que os seus colegas ideológicos.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
IPSS

Raríssimos políticos

Maria João Marques
1.818

Perante tudo isto, qual a reação à esquerda? As do costume. João Galamba (palmas para a falta de originalidade) tentou colocar a culpa em cima do ministro da segurança social do governo anterior.

Natal

Em defesa do consumismo

Maria João Marques
126

Recomendo que ameacem os moralistas de algibeira de ficarem sem presentes de Natal se continuarem a maçar. Pelo menos enquanto não criarem as ovelhas cuja lã processarão para tricotar toda a sua roupa

Governo

Lições de propaganda

Maria João Marques
315

Percebo que o ministro Cabrita deu o melhor uso possível àquele pedaço de tempo: dormiu. De facto não se deseja ao pior inimigo, nem sequer a um ministro da geringonça, uma tarde a ouvir António Costa

Liberdades

Um exemplo

Paulo Tunhas

Pesam-se os tempos, e os tempos são maus. Às vezes olha-se à volta e só se vêem personagens menores dedicados à impostura. O enredo é menor, a arte menor e o fim só pode ser, coerentemente, menor.

Liberdade de Expressão

A geringonça gosta da censura

João Marques de Almeida
2.775

A censura aos livros escolares serviu também para as esquerdas mostrarem que sabem usar o poder com a brutalidade que for necessária. A censura funciona sempre como um aviso para todos. 

Liberdade de Expressão

A ignorância é uma arma

Gabriel Mithá Ribeiro
907

Como se não lhes bastasse o controlo hegemónico das salas de aula, programas como o Fórum TSF, Antena Aberta ou Opinião Pública permitem ver como a brigada fundamentalista toma de assalto o pluralismo

Ocidente

A tradição ocidental da liberdade sob a lei

João Carlos Espada

A velha ideia de Universidade é uma das ideias centrais da Tradição Ocidental da Liberdade sob a Lei. Ambas serão celebradas entre hoje e quarta feira no Estoril Political Forum.

Barrigas de Aluguer

Por quanto se vende um filho?

Domingos Freire de Andrade

Não é aceitável que uma mulher transporte durante 9 meses uma criança que nasce com duas mães, sendo separada à nascença da única pessoa que conheceu até esse momento.

IPSS

Raríssimas, uma história de subdesenvolvimento

Helena Garrido
283

Num país desenvolvido as instituições teriam funcionado e a Casa dos Marcos teria sido fiscalizada. Nenhum país enriquece sendo como vimos que Portugal é no caso Raríssimas. Enriquecem algumas pessoas

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site