Catalunha

Depressa, que já nos viram

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O “homem de esquerda” ainda vive no interior do mito da Revolução francesa, que lhe garante uma ilusória inteligibilidade da história. A qualquer momento, essa ilusão salta de novo para a boca de cena

“Depressa, que já nos viram”, costuma dizer um amigo meu brasileiro, quando atravessamos a rua e os carros aparecem ao longe. Por estes dias moralistas de sermões pregados quotidianamente, ainda por cima em muitos casos por gente que crê saber muito bem de onde a história vem e para onde vai certinha, tenho pensado na frase do meu amigo. É que, dando-me mal com muitos aspectos do nosso tempo, dá-me de vez em quando para ter medo de ser atropelado pelos mensageiros do sentido da história.

Felizmente, há um traço que nos permite identificá-los sem grande dificuldade e assim evitar os riscos mais imediatos. Qualquer pessoa o reconhece sem problemas de maior. É a facilidade sempre surpreendente em não ver problemas nas coisas do mundo quando se trata de proclamarem as suas certezas, que são sempre uma prova ostensiva de uma moralidade superior à do comum dos mortais. E essas certezas permitem definir sem margem para dúvida os inimigos, exactamente aqueles que, por uma razão ou outra, têm o hábito de reflectir sobre o risco que certas situações apresentam e de pensar que qualquer acção os deve ter em conta. Claro que a “ética da convicção”, como se diz, convive muitas vezes com uma sabedoria política mundana que permite toda a espécie de jogos e joguinhos, mas este aspecto é, tanto quando possível, disfarçado o mais das vezes. Por cima, na bela aparência, reluz a virtude, resplandescente e verbal.

A lista que se poderia estabelecer dessas inabaláveis convicções e da cegueira face aos problemas reais que a sua satisfação inteira engendraria reduziria o célebre catálogo das conquistas de Don Giovanni (Ma in Ispagna son già mille e tre) a uma insignificância máxima, ao alcance do mais caseiro ser humano. De resto, como alguém o notou, há algo de efectivamente donjuanesco e predador no apetite incontido pelas causas justas que é hoje o pão nosso de cada dia. Por isso, apenas três exemplos.

Face à crise dos refugiados, há apenas uma atitude possível: a sua aceitação plena e incondicional. Quem emitir reservas, por ténues que sejam, à bondade de tal programa, por razões na aparência plausíveis (terrorismo islâmico, em primeiro lugar), é imediatamente qualificado de xenófobo e racista. O grau de desprezo pelas pessoas comuns que se preocupam com a alteração do mundo à sua volta atinge máximos nunca vistos. Não, não há problema algum e tal preocupação tem apenas origem na ignorância mais extrema e condenável.

Quanto à Catalunha, o nacionalismo vê-se, contrariamente ao que se passa noutros casos, positivamente idolatrado. Todo e qualquer respeito pelo direito vê-se mandado às favas. A questão, diz-se, é unicamente política, como se uma das condições da boa política não fosse exactamente o respeito pelo direito. O ideal subjacente parece ser um mundo de direitos sem direito. Além disso, a catástrofe económica que muito verosimilmente resultaria da independência, não merece ser tida em linha de conta, mesmo que ela afectasse em primeiro lugar, como de costume, os mais desmunidos. Que interessa isso? Quem por cá pretender medir os riscos arrisca-se fortemente a ser atacado por aqueles que apelidavam de “colaboracionistas” quem, há poucos anos, manifestava compreensão pela posição de Angela Merkel em relação à Europa (lembram-se dos bigodinhos de Hitler pintados nos retratos dela?) e acusado de ambicionar a criação de uma nova Legião Portuguesa destinada a defender o franquismo ainda vigente, embora tenuemente disfarçado, em Madrid.

Por fim, a querela omnipresente do assédio sexual. Pelo caminho que as coisas vão, não haverá gesto ou palavra que não sejam criminalizados. Se correr tudo como muitos querem, o caminho arrisca-se a ir direitinho do assédio à acédia sexual. Tente-se sugerir algum bom senso e logo se é acusado de querer perpetuar a vileza de dominações antigas e violências imemoriais. Mesmo que – tal como com o problema dos refugiados, por exemplo – se reconheça o mais claramente possível o problema e se acredite na urgência de o resolver. Sem a exibição de um entusiasmo justiceiro, isso de nada vale.

Dir-se-á que tudo isto são medos despropositados e intrinsecamente “reaccionários”. Francamente, não creio. O medo é uma atitude política legítima e até fundamental, por muito que isso choque as costumeiras virilidades revolucionárias. É verdade que, provavelmente, cada um tem a sua própria hierarquia de medos e que essa hierarquia define o seu “carácter político”. O problema não está, no entanto, no confronto entre essas hierarquias, que é susceptível de diálogo político, mas no fanatismo daqueles que se recusam ao diálogo e, sobretudo, ao cálculo dos perigos, exactamente porque as suas convicções não só dispensam como tornam nocivos quaisquer actos reflexivos. Vivendo num plano mítico e habitados por um sentimento palpável da inteligibilidade unívoca da história, só podem ter um desprezo indisfarçável pelo comum dos mortais.

Esta conversa, é claro, vem de longe. Num capítulo célebre do seu livro O pensamento selvagem, publicado em 1962, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss analisou o teor geral da filosofia da história desenvolvida por Jean-Paul Sartre no primeiro volume (o único publicado em sua vida) da Crítica da razão dialéctica. Mostrou, entre outras coisas, que Sartre (e o “homem de esquerda” em geral) vive ainda no interior do mito da Revolução francesa, que lhe garante uma ilusória inteligibilidade da história. Não parece que as coisas tenham mudado assim tanto desde essa altura. A qualquer momento, essa ilusão salta de novo para a boca de cena. Os objectos que essa inteligibilidade pretensamente captura mudaram, sem dúvida. O proletariado desapareceu. O que não mudou foi o fanatismo da convicção. Nem a absoluta indiferença relativamente aos resultados práticos das suas acções.

“Depressa, que já nos viram” é realmente um bom conselho. Eles vêm a acelerar.

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