António Costa

Uma vergonha alegre

Autor
2.680

Dada a doença da mulher de Pedro Passos Coelho, o estadista sisudo de um país convencional evitaria alusões desagradáveis. O dr. Costa, rosto da felicidade que nos caiu em cima, não o fez.

“A alegria”, proclamou o dr. Costa com a densidade filosófica de um manjerico ou dois, “é ter muitos amigos e poder brincar”. De imediato, uma repórter interrogou-o: “O país tem suficientes alegrias ou a subida do ‘rating’ para breve seria uma boa alegria?” Apesar da sofisticada interpelação, o dr. Costa respondeu à altura: “A alegria nunca é suficiente, devemos querer sempre mais alegria”. Esmagada pela potência do axioma, a repórter contorna um bocadinho o assunto: “E o ministro Centeno no Eurogrupo a tempo inteiro?” O dr. Costa reage impávido: “É um homem alegre, também… Olhe, mas agora terequemofumb (?) o nariz vermelho, agora teroquemfbamanhar (?) o nariz vermelho”. Intrépida, a repórter chega ao tema que se impunha: “Então Passos Coelho dizia ontem que o governo se estava a aproveitar do anterior governo…” Era a deixa para o dr. Costa sentenciar a conversa com o improviso que ensaiara durante horas: “É uma pessoa menos alegre”.

Por onde começar? Talvez pelo princípio. O episódio acima decorreu numa escola primária de Lisboa, onde o primeiro-ministro celebrou o Dia Mundial da Criança e arriscou rábulas com palhaços. Até aqui, não há nada de demasiado estranho à rotina das democracias contemporâneas. A partir daqui, entra-se numa dimensão exclusiva de certas democracias especiais – e especialmente alegres. Vamos aproveitar o embalo e brincar ao “descubra as diferenças”?

A primeira diferença passa pela hospitalidade dedicada ao dr. Costa. Noutro lugar ou tempo, os professores exibiriam na melhor das hipóteses um ar de enterro, e na pior um protesto que podia incluir uma interpretação sentida do “Grândola, Vila Morena”. No caso, o único ponto comum foi a presença de palhaços. De resto, só aplausos, “afectos” e, claro, alegria.

A segunda diferença é o à-vontade revelado pelo dr. Costa ao contracenar com os ditos palhaços. Se tentasse a proeza, o chefe de uma nação triste faria uma figura ridícula. Embora o ridículo não tivesse faltado, o dr. Costa, que ri sem parança e estava no seu habitat, nem deu por ele. A alegria acima de tudo.

A terceira diferença é a velha familiaridade do dr. Costa com a língua portuguesa: quase nenhuma. Até os “tweets” do sr. Trump ficam aquém em matéria de liberdade expressiva. E ainda bem. É óptimo sinal quando a gramática não atrapalha a satisfação de um político com as suas conquistas e, principalmente, consigo mesmo. A alegria comanda a vida.

A quarta diferença é o comentário sobre Pedro Passos Coelho. Dada a doença da mulher deste, o estadista sisudo de um país convencional evitaria alusões desagradáveis. O dr. Costa, rosto da felicidade que nos caiu em cima, não evitou – ou por distracção, o que atesta o seu discernimento, ou de propósito, o que demonstra o seu repugn…, perdão, impecável carácter. A alegria não quer saber de maleitas.

A quinta diferença é o papel da referida repórter, que não conheço, mas que, pela devoção demonstrada, o dr. Costa deve conhecer na perfeição. Todas as “questões” da senhora partilham da exacta euforia que, com indisfarçado zelo, os “media” avençados nos atiram à cara. Num regime melancólico e escrutinado, pelo menos uma alminha perguntaria ao dr. Costa se a razão das agências não se sobrepõe às patranhas dele, se o novo recorde da dívida pública – alcançado naquele dia – não o aflige, se a “promoção” do dr. Centeno não é sarcasmo como o do sr. Schäuble e se Pedro Passos Coelho, ao defender os critérios de crescimento que a esquerda despreza, não desmontara a propaganda vigente. A alegria é avessa ao cepticismo.

A sexta diferença é a naturalidade com que meio mundo reage a semelhante paródia. Povos taciturnos lamentam o desconchavo dos próprios líderes. Um povo radiante lamenta o desconchavo dos líderes alheios, enquanto agradece a sorte que lhe providenciou o dr. Costa. A alegria não implica ingratidão.

A sétima diferença é que governantes sérios e a sério inspiram resmas de reflexões em volta da solidão do poder. Um governante alegre não sofre desse mal: do alegre “jornalismo” à alegre banca, dos alegres sindicatos a todos os alegres isentos da austeridade que não ousa dizer o seu nome, o dr. Costa tem realmente muitos amigos. Desgraçadamente, prefere brincar connosco.

Nota de rodapé:

Nasci num apartamento e, por isto ou por aquilo, nunca morei num apartamento. Pela vida fora, este pormenor impediu-me de testemunhar o mais fascinante veículo de socialização depois dos jogos do Canelas. Falo, evidentemente, das reuniões de condomínio. O que sei vem de relatos de amigos, que me contam encantadoras histórias sobre aquele condómino específico, o qual, munido de má-fé, desconfiança, inveja e a convicção de que a ele ninguém o come por parvo, transforma duas horas ocasionais de aborrecimento em duas horas ocasionais de divertido conflito. Pelos vistos, o espécime em questão existe em quase todos os edifícios e, até agora, limitava-se a fazer rir os vizinhos. A partir de agora, graças a uma proposta do PS, o espécime poderá proibi-los de arrendar a própria casa a turistas. Além de atribuir a palermas a importância que estes não merecem, o PS mostra a importância que atribui à liberdade, à propriedade e ao crescimento económico que finge festejar. Na perspectiva do socialismo, a ideia é brilhante.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Caso José Sócrates

Sócrates & Companhia Ilimitada

Alberto Gonçalves
3.698

Em tempos, faltava pouco para que o fervor dos devotos por Sócrates suscitasse imolações pelo fogo. Hoje assobiam para o lado e preferem que o indivíduo se imole sozinho. Nem a lepra assustava assim.

Pedro Passos Coelho

A noite das facas rombas

Alberto Gonçalves
2.788

De Soares a Cavaco, houve políticos tão detestados quanto Pedro Passos Coelho. Não houve ninguém detestado por gente tão infalivelmente repulsiva, por tantas nulidades tão pouco recomendáveis.

Politicamente Correto

Os autocarros do amor

Alberto Gonçalves
1.284

Felizmente, à revelia da propaganda que tanta “vender” os transportes públicos a título de amigos do ambiente ou da circulação urbana, há jornalistas sem medo de os denunciar como os amigos do deboche

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site