Saúde

Viva o cidadão empoderado!

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A pergunta prévia que todos nos fazemos é “até que ponto o doente cirúrgico se sente à vontade entre pares” já que, uma vez dentro do Bloco Operatório, ele também faz parte da equipa?

Analfabetos funcionais são os que lêem, mas não percebem. De certa forma, somos todos nós, sempre que falamos de matérias científicas tão sofisticadas e complexas como cirurgias robóticas, normais e especiais, sobre as quais não temos conhecimentos, e o pouco entendimento que nos resta se tolda completamente dada a vulnerabilidade em que já estamos – ou ficamos! – perante a certeza de uma operação que pode implicar acordar com dores e envolver sofrimento. Por vezes até o risco da própria vida.

A ideia do bloco operatório aterroriza a esmagadora maioria das pessoas. Há e haverá sempre quem se deixe fascinar por tudo o que se passa naquela espécie de laboratório espacial, mas o comum dos mortais detesta a ideia de ter que fazer uma cirurgia. Aliás o sujeito e o verbo que habitualmente conjugamos nestas situações já não são nada confortáveis: submeter o paciente. Um acto de submissão de alguém que é forçado a ter paciência Assim como uma rendição em que nos entregamos, nos deixamos dominar, nos resignamos e sujeitamos a alguma coisa que não depende da nossa acção e vontade. Porque se dependesse, não tenho dúvidas de que preferíamos nunca chegar a ver como funciona um bloco operatório. Seria uma realidade exclusiva de filmes e séries de ficção.

O bloco operatório pode dar grandes séries de televisão e os seus protagonistas gerarem mitos planetários e darem origem a verdadeiras lendas no cinema, mas para quem não trabalha na BBC nem vive em Hollywood, o mito pode ser apavorante. Isto, claro, por estar sempre associado a fragilidade, doença, vida, morte e outros mistérios. Felizmente também a grandes milagres e conquistas, pois como dizia Novalis, ‘metade é ciência e a outra metade é fé’.

Acontece que este terror de uma realidade cada dia mais avançada, robotizada, high tech e performativa, onde se realizam grandes maravilhas humanas e tecnológicas, pode ser atenuado e até eliminado se soubermos que antes de qualquer cirurgia temos o direito e o dever de fazermos todas as perguntas que quisermos, até ficarmos sossegados relativamente à operação. E desta forma sentirmos que não vamos entrar numa nave de submissão, mas num espaço de colaboração.

Claro que os mais informados e tecnológicos, os fanáticos do Dr. House e os google addicts que pesquisam na net toda e qualquer doença (muitas vezes sem ferramentas para calibrar o que vêm, nem critérios para filtrar o que lêem) se sentem sempre mais apetrechados para avançar sem medos, mas continuo a falar de e para o cidadão banal, o comum mortal que se sente claramente em desvantagem perante a terminologia clínica de um profissional de saúde, mais a parafernália de instrumentos que habitualmente povoam as antecâmaras das cirurgias, onde quase tudo se traduz por ‘bips’, gráficos acelerados e sons de aviso ou alerta.

O doente cirúrgico habitualmente sente-se desprotegido e ansioso. Sabe que até pode fazer algumas perguntas e questionar os profissionais de saúde, mas se por acaso esbarra com um enfermeiro mais sobrecarregado ou um cirurgião mais cortante (passe a expressão) ou menos disponível para o ouvir, fecha-se. E fica em estado de alta ansiedade. Não devia acontecer, até porque todos sabemos que a atitude positiva é terapêutica e potencia uma melhor convalescença.

Assim sendo, a pergunta prévia que todos nos fazemos é “até que ponto o doente cirúrgico se sente à vontade entre pares” já que, uma vez dentro do Bloco Operatório, ele também faz parte da equipa?!

E é aqui que entra a novidade narrativa e a boa notícia das checklists que a Organização Mundial de Saúde promove desde 2001 e têm sido aplicadas no nosso país, onde também chegam ecos cada vez mais urgentes de campanhas tão expressivas como Speak Up! e Listen Up! e, ainda, um olhar inaugural sobre as figuras do patient advocate. Felizmente tudo isto começa a ser uma cultura dominante no nosso país, sobretudo entre os nossos melhores profissionais.

Preocupada com o empowerment do doente cirúrgico e as competências de cidadãos comuns, mais e menos vulneráveis, que se sentem em desvantagem perante profissionais de saúde que dominam a sua ciência, a AESOP – Associação dos Enfermeiros de Sala de Operações – realizou mais um dos seus congressos nacionais para pensar estas e outras questões em conjunto. Estive lá, entre mais de setecentos enfermeiros de Bloco, coisa que me deu um consolo extraordinário por sentir que posso vir a ter a sorte de dar com um deles quando tiver que passar por uma cirurgia. Interessa-me imenso saber que há cada vez mais profissionais preocupados em humanizar os cuidados de saúde, que apostam no chamado empowerment dos doentes e cidadãos comuns que nada têm a ver com áreas tão específicas como a cirurgia e o bloco operatório.

Embora ninguém goste da terminologia portuguesa do empoderamento (soa muito old school, lá está, porque em inglês tanta coisa parece logo melhor e mais incisiva…), na verdade é disso que se trata: de empoderar, de dar mais poder, de reconhecer que nós, quando estamos doentes e vamos ser operados, temos o poder de fazer perguntas e de recusar paternalismos ou respostas insuficientes. Por isso mesmo gostei de ouvir todas as comunicações e interpelações neste sentido. Parecia um manifesto geral pelos direitos dos doentes, para que não passem ‘cheques em branco’ aos médicos, para que não se abstenham de fazer todas – rigorosamente todas! – as perguntas que quiserem e acharem necessárias para o seu cabal esclarecimento, mas também para terem o direito de não querer saber e não querer perguntar. Desde que seja uma atitude consciente de direitos e deveres, tudo é possível e tudo deve concorrer para a melhoria da relação entre os doentes e os profissionais de saúde.

Talvez não devesse terminar esta minha crónica com a estatística apavorante que ouvi: uma em cada dez pessoas que entram no hospital corre sérios riscos de ser vítima de um acidente, uma complicação, um erro médico ou uma negligência. Uma em cada dez! É por isso que estes e outros profissionais de saúde se preocupam e se reúnem regularmente (também eles e as suas famílias são cidadãos e potenciais doentes cirúrgicos) para evitar o erro cirúrgico promovendo listas de perguntas e abertura para que não haja troca de nomes entre doentes, sejam confirmadas as lateralidades e conferidas as dotações seguras.

A partir de agora ninguém se espante se antes de uma cirurgia houver pelo menos três profissionais de saúde a certificarem-se das mesmas coisas. Faz parte desta blindagem ao erro, porque no passado recente e remoto houve demasiadas cirurgias feitas à pessoa errada, bem como amputações de membros ou órgãos que afinal eram outros e não aqueles que foram cortados. Nesta lógica, viva o cidadão empoderado e quem o apoiar!

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