No rescaldo da noite quente de 25 de maio, os líderes europeus chegam esta terça-feira a Bruxelas para começar a discutir a sucessão de Durão Barroso na presidência da Comissão e, de caminho, passar em revista os resultados eleitorais. Mas, depois de conhecidos os números, são poucos os líderes que hoje chegam ao encontro de cabeça erguida.

É que o terramoto que passou pelo Velho Continente não se traduziu só numa mudança de rosto do Parlamento Europeu – com uma subida dos extremos e uma redução da mancha central -, mas traduziu-se, principalmente, num grande abanão de quase todos os partidos que são hoje Governo nos 28. Em muitos casos com consequências ainda por apurar.

Governos das economias fortes esmagados nas urnas

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Os líderes dos países que, pelo poder económico ou posição no mundo industrializado, têm uma voz forte na Europa foram responsabilizados através dos boletins de voto. Não tanto pelas políticas europeias em curso, mas pelas políticas nacionais. O caso do governo socialista francês de Manuel Valls e do presidente François Hollande foi o mais gritante, com o PS a ser relegado para terceiro plano em França, muito atrás da UMP e ainda mais atrás da vitoriosa da noite, a extrema-direita de Marine le Pen.

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Cenário semelhante verificou-se no Reino Unido, com o governo conservador de David Cameron a ver um “cartão vermelho”. À frente ficou o Partido da Independência (UKIP), anti-imigração e anti-Europa, fazendo com que, pela primeira vez desde 1910, uma eleição não tenha sido ganha nem por conservadores nem por trabalhistas. Pela primeira vez, também, desde 1984, as eleições europeias não foram ganhas pelo partido da oposição. O partido do governo ficou em terceiro lugar nas escolhas dos eleitores britânicos, perdendo seis lugares no Parlamento face a 2009.

A CDU de Angela Merkel não teve uma negativa tão baixa mas, ainda assim, não escapou incólume. O partido democrata-cristão continuou a ser a força política mais votada na Alemanha, mas perdeu um total de oito deputados em relação às europeias anteriores. Beneficiados ficaram os sociais democratas da coligação, que elegeram mais quatro eurodeputados do que em 2009 e, sobretudo, a estreante Alternativa para a Alemanha (AfD), eurocética e anti-euro, que conseguiu eleger sete deputados. Na Áustria, o quadro é semelhante, com os partidos no governo a manterem-se à tona, mas quase com os calcanhares pisados pelos nacionalistas conservadores do FPO, que tiveram uma ascensão importante face a 2009.

Também na Bélgica e no Luxemburgo, os partidos do governo foram esmagados pela oposição. Na Bélgica, o partido socialista francófono do então primeiro-ministro Elio Di Rupo só aparece em quarto lugar, com pouco mais de 11% dos votos, sendo ultrapassado pelos partidos flamengos. Nas legislativas, que tiveram lugar no mesmo dia, o cenário foi o mesmo, com os nacionalistas flamengos da região da Flandres a surgirem como os vencedores. Di Rupo já apresentou a demissão ao Rei, que vai dar início às negociações para a formação de um novo governo. Resta saber se a Bélgica vai voltar a mergulhar numa crise política profunda – em 2009 bateu o recorde e esteve 541 sem conseguir um acordo de governação.

No Luxemburgo, os democratas cristãos passam do posto de sétimo partido mais votado nas europeias de 2009 para o partido com mais votos em 2014, empurrando o Partido Democrata e o Partido Socialista dos Trabalhadores (ambos no governo) para os terceiros e quartos lugares.

Nórdicos levam por tabela

Os governos nórdicos entraram na onda da penalização. Na Holanda, o Povo para a Liberdade e Democracia, no Governo, foi apenas a quarta força política mais votada e o partido trabalhista, na coligação, a sexta. Ambos foram esmagados pela ascensão dos progressistas da Democracia 66 e da extrema-direita de Geert Wilders, que conseguiu eleger quatro eurodeputados.

Na Dinamarca e na Finlândia, o impulso da extrema-direita também deitou abaixo os partidos da coligação governativa. No primeiro caso, o Partido do Povo foi o mais votado, com um avanço de sete pontos percentuais face aos sociais-democratas no governo. No caso da Finlândia, o chumbo foi mais ténue, já que a Coligação Nacional, que encabeça o conjunto de partidos que governa desde 2011, continuou a ter o maior número de votos absolutos. Ainda assim, o principal partido da oposição foi claramente beneficiado, a par do partido dos Verdadeiros Finlandeses, mais extremista, que viu a base de apoio crescer exponencialmente.

O outro “cartão vermelho” do norte foi lançado à Suécia, com o Partido Moderador, que lidera a coligação do governo desde 2010, a ser arrastado para o terceiro posto. À frente ficaram os sociais-democratas e os Verdes.

Crise também castiga governos no leste e no sul

A Polónia é um caso claro onde a austeridade dos últimos anos foi chumbada nas urnas. A Plataforma Cívica de Donald Tusk, no poder desde 2011, evidenciou uma queda, ainda que ligeira, face às últimas eleições.  Tudo por causa do plano de reformas ambiciosas que o primeiro-ministro levou a cabo ao longo dos últimos três anos com o objetivo de afastar o país do contágio da crise do euro. A quebra da popularidade do primeiro-ministro traduziu-se nos votos.

Na República Checa venceu a formação populista conduzida por um dos homens mais ricos do país sob o desígnio dos princípios anti-corrupção e anti-euro. O partido social-democrata, no governo, ficou afastado no terceiro lugar das escolhas dos eleitores checos.

Por fim, a Croácia. Votou pela primeira vez numas europeias – porque aderiu à União em julho de 2013 -, mas já chumbou os liberais socialistas do governo, dando preferência à facção política posicionada mais à direita no país.

Países resgatados (ou perto disso) ainda mais castigados

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Se a tendência geral foi de castigar os partidos do governo, o castigo foi ainda maior nos governos dos países que estão ou estiveram sob ajuda financeira da troika.

A Grécia é o espelho desta realidade. Juntos, os partidos do governo, Nova Democracia e Pasok, reuniram a maioria dos votos. Separados, levaram um “chumbo”, com o Syriza, da esquerda radical, a ser o vencedor da noite. Até o partido neo-nazi, Aurora Dourada, teve mais votos do que o Pasok isolado.

Também a Irlanda, que saiu do programa de ajuda externa em dezembro de 2013, decidiu castigar a coligação no governo – entre o Fine Gael, do primeiro-ministro Enda Kenny, e o partilho trabalhista – em especial os trabalhistas. Os resultados das eleições locais, realizadas no mesmo dia, também não ajudaram e o vice-primeiro-ministro, o líder trabalhista Eamon Gilmore, já foi forçado a apresentar a demissão.

Espanha não foi objeto de resgate, com os apoios financeiros a serem dirigidos para a recapitalização dos bancos, mas a economia esteve em crise e a taxa de desemprego é elevada. O “chumbo” ao governo foi claro e já teve consequências. A fraca expressão do PP de Mariano Rajoy e a ainda mais fraca expressão dos socialistas da oposição, que foram esmagados pelos partidos mais pequenos da ala esquerda, já levou à demissão do líder do PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba.

Chipre foi a excepção. Conservadores e democratas cristãos, que assinaram o memorando de entendimento com a troika, venceram por 37% dos votos. O mais prejudicado foi o partido comunista, que esteve no governo no período pré-troika, e que desceu significativamente face às europeias de 2009.

Em Portugal, nenhum dos chamados partidos da troika, PS, PSD e CDS, conseguiu uma vitória expressiva. Os votos foram dispersos e incidiram mais nos partidos pequenos da esquerda do que nos do arco da governação.

Governos jovens escapam à onda

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Entre os 28 estados-membros da União Europeia, também há aqueles que não chumbaram o seu governo. É o caso dos partidos que estão no poder há pouco tempo.

Em Itália, o cartão vermelho não foi apresentado ao Partido Democrático de Matteo Renzi, no governo desde fevereiro, mas ao partido de Sílvio Berlusconi, que tinha governado até aí. E à frente do Força Itália de Berlusconi, que em 2009 tinha vencido por 35% dos votos, ficou ainda o eurocético Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo.

Os estados bálticos também seguem a mesma linha. Tanto a Estónia como a Letónia e a Lituânia foram a eleições entre dezembro e abril e continuaram a votar mais nos partidos do governo.

Na Hungria, o partido nacionalista e conservador Fidesz, que venceu as legislativas do mês passado, foi o partido mais votado, com uma maioria de mais de 51% dos votos. Mas aqui há uma adenda: o Jobbik, o partido de extrema direita, que desde as eleições parlamentares de abril tem vindo a ganhar força e já é a terceira força política húngara. Nestas europeias, o partido neo-nazi ficou na segunda posição com quase 15% dos votos.

Em Malta, o Partido Liberal, no governo há pouco mais de um ano, também escapou ao castigo, conseguindo uma maioria de 53% da votação. A exceção é a Bulgária, que tem igualmente um governo socialista ainda jovem (com apenas um ano), mas que foi ultrapassado pelo recém-criado movimento de centro-direita GERB.

E as exceções das exceções são a Eslováquia, a Eslovénia e a Roménia, onde os eleitores pouparam os partidos do governo, apesar de terem estado no poder nos últimos anos.