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Eis a terceira jornada. O arranque, pelo menos. E com ela voltam os anfitriões ao campo e a gritaria, a plenos pulmões, do hino nacional brasileiro. O próximo estádio a participar no concurso de voz é o Mané Garrincha, em Brasília, onde milhares de canarinhos deverão estar para berrarem pelo escrete — que, agora sim, joga o acesso aos oitavos de final da sua Copa do Mundo. Um empate até pode servir, mas, para evitar chatices, o Brasil de Scolari e Neymar tem de vencer (20h) uns já eliminados Camarões para assegurar a liderança do Grupo A. E evitar o encontro com a equipa mais forte do Grupo B.

Que também ainda não se percebeu qual é. Chilenos e holandeses, ambos com seis pontos no bolso — e com vitórias frente à Espanha, a ainda campeã mundial e europeia –, enfrentam-se para decidirem quem colide já nos oitavos com a equipa que não joga só com 11. Mas com os milhões de um país a empurrá-la, em casa. Para o evitarem, espera-se que nem Louis Van Gaal nem Jorge Sampaoli, treinadores da Holanda e do Chile, poupem os melhores jogadores e quebrem uma onda espetáculo que, em 32 jogos, já deu 94 golos a este Mundial (em 2010, íamos com 67).

À mesma hora (17h), dá-se o pôr-do-sol dos espanhóis. Os inventores do tiki-taka, do futebol viciado no passe e em não deixar fugir a bola, jogam contra a Austrália e despedem-se do Mundial. As cabeças estão de rastos, com “falta de fome”, segundo Xabi Alonso, e a motivação (se houver alguma) estará em não deixar que, pela primeira vez, a Espanha saia de um Mundial só com derrotas no registo. Depois, às 20h, México e Croácia decidem quem deverá acompanhar o Brasil rumo à fase seguinte — se uns centro americanos intensos, irrequietos e sem golos sofridos até agora, ou uns croatas que gostam de correr riscos e têm cabeças de sobra para inventarem jogadas que magoam qualquer equipa.

Holanda — Chile, às 17h

Época de caça ao primeiro lugar do Grupo B. É isso que representará a hora e meia de futebol no Itaquerão, em São Paulo. Depois de cada um ter arrumado e fechado uma mala para a Espanha levar de volta para casa, holandeses e chilenos defrontam-se. Quão preciosa é a liderança deste grupo? Bastante, já que, em teoria, servirá para evitar o Brasil e a ginga de Neymar.

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Raça, quilómetros nas pernas e loucura por correrias são armas que o Chile utilizará para cercar a prudência holandesa a fazer as coisas. Talvez haja Van Persie, Robben, Vidal e Sánchez em campo, para que nenhum treinador seja acusado de poupar recursos quando o que está em jogo é fugir aos anfitriões da Copa. Intensidade haverá de certeza. Como a que terá existido em 1928, no único duelo entre as duas seleções. Na altura, deu um 2-2. E se agora voltar a dar um empate, passa a Holanda em 1.º, por vantagem nos golos marcados.

Espanha — Austrália, às 17h

Pode isto piorar? Por supuesto. Basta que os espanhóis, os mastros de um hoje enferrujado tiki-taka, percam o terceiro encontro neste Mundial. Seria inédito. Após pegarem na coroa da posse de bola e reinarem na Europa e no Mundo durante seis anos (venceu os Europeus de 2008 e 2012, e o Mundial de 2010), a Espanha despede-se desta Copa. E também de Xavi — fala-se que este será a última aparição com a La Roja do pequenote do Barça, hoje com 34 anos, o protótipo do jogador de toque, de passe e do vício na bola.

Inédito também seria a Austrália perder e somar a terceira derrota no Mundial. Aliás, só em 1974, na primeira de quatro participações, os socceroos saíram de uma Copa do Mundo sem uma vitória. E pelo que fez sofrer a Holanda, poderá não ser desta que o façam. Podem não ter Tim Cahill — que a seguir a marcar um golaço viu o cartão amarelo que o tirou desta partida –, mas há atrevimento e genica de sobra para fazer mal aos espanhóis.

Camarões — Brasil, às 20h

Orgulho e imagem. É só isto que lhes resta defender. Após duas derrotas, uma cabeçada entre Assou-Ekotto e Moukandjo (na partida frente à Croácia) e ameaças de greve, os Camarões têm agora que contrariar a fúria dos anfitriões. E que fúria. Se nos duelos com os croatas e mexicanos assim o foi, é certo que também o Estádio Mané Garrincha, em Brasília, se unirá para gritar o hino nacional brasileiro antes do encontro arrancar.

Desta vez, o Brasil precisa mesmo de vencer. E por muitos golos, se possível, de modo a precaver uma vitória do México no outro encontro do Grupo A e assim garantir o primeiro lugar. Os Camarões já deverão ter Eto’o e provaram, quando já perdiam por 4-0 frente à Croácia, que com o orgulho ferido são capazes de chatear a baliza inimiga. E mais ferido que isto é difícil — estão eliminados, já sofreram cinco golos, não marcaram nenhum, e são a seleção africana com a pior prestação até agora. Nos quatro anteriores duelos com o Brasil, os camaroneses só venceram o último, por 1-0, na Taça das Confederações, em 2003.

Croácia — México, às 20h

Arriscaram, impressionaram, mas perderam. Foi assim o encontro inaugural do Mundial, para os croatas, quando os brasileiros os venceram por 3-1. O atropelo que depois deram aos Camarões (4-0) tornou este último embate com os mexicanos um ver se te avias — só uma vitória lhes desbrava o caminho rumo aos rumo aos oitavos de final. À seleção da América Central, porém, um empate chega.

Modric, Rakitic, Mandzukic e todos os restantes nomes acabados em ‘ic’ terão de se livrar de uns mexicanos que só têm causado distúrbios. O Brasil que o diga. Contra os anfitriões, os mexicanos foram sempre mais perigosos e mostraram que poucas seleções terão mais raça que eles. Os croatas tem pés a rebentar de talento e cabeças suficientes para darem viagens criativas à bola, mas ainda não parecem estar a circular na faixa da esquerda da auto-estrada. De onde o México ainda não saiu. Pensamento positivo — basta os croatas acelerarem também para assistirmos a mais um jogaço nesta Copa.