É bom ser Matteo Renzi por estes dias. No poder há poucos meses, o primeiro-ministro italiano está prestes a assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia e assim ficar no centro da política do velho continente, ao mesmo tempo que encabeça a reivindicação de menos austeridade para os 28 Estados-membros. No Conselho Europeu desta quinta e sexta-feira as atenções estão todas viradas para ele. Como é que o homem que até ao ano passado era presidente da Câmara de Florença chegou até aqui? Soube aproveitar as oportunidades.

Matteo Renzi, de 39 anos – o primeiro-ministro mais jovem de Itália – e com pouco mais de quatro meses à frente do seu Governo, foi o líder em funções nos 28 países da UE que maior percentagem de votos arrecadou para o seu partido nas últimas europeias (já para não falar de ter representado a vitória mais expressiva dos socialistas europeus). O que por si só não denota apenas a preferência dos italianos e a popularidade que detém, mas também lhe dá vantagem e capital político para se bater entre os seus pares europeus sobre as alterações que quer introduzir nas instituições comunitárias.

As funções que vai assumir a 1 de julho, também ajudam. A presidência rotativa do Conselho da União Europeia será até ao final do ano ocupada pelo primeiro-ministro italiano e embora muitos argumentem que este é um cargo puramente decorativo, é o país que detém a presidência, em conjunto com dois que o precedem, que elaboram e coordenam a agenda de discussão nas instituições europeias no ano e meio seguinte. E Renzi já apresentou a sua: alívio das regras orçamentais, alterações ao Tratado Orçamental e um programa de investimento comum.

Para os restantes líderes europeus, com países mais representativos e em melhores condições financeiras que a Itália, isto não passaria de reivindicações vagas sem concretização à vista. A não ser que precisassem de Renzi. E agora precisam. O imbróglio da eleição do presidente da Comissão Europeia pôs Renzi no centro da disputa entre os que apoiam a pretensão de Juncker para suceder a Barroso e os que se opõem (ou neste caso, apenas Cameron) a esta hipótese.

O italiano viu-se envolvido no problema por liderar um dos países com mais população da UE, o que dá jeito caso se confirme a necessidade de votar no Conselho Europeu desta quinta e sexta-feira a nomeação de Juncker, e porque se mostrou ambíguo quanto à sua preferência. Sem dever qualquer fidelidade partidária a Merkel ou a Cameron, Renzi negociou nos seus próprios termos e bateu-se pela sua agenda europeia. Escolheu Juncker e assim, ficou ao lado da chanceler alemã. Um favor a todos os socialistas europeus, que assim podem ver em marcha um muito adiado plano de crescimento e emprego.

 Depois de abater a velha guarda em Itália, Renzi quer reformar “a tia velhinha”

Agir rapidamente tornou-se desde dezembro, altura em que se tornou líder do Partito Democratico italiano através de eleições por primárias, o mote político de Renzi. Da sua vitória no partido até tomar o poder de Letta, também socialista, decorreram dois meses. O seu ar jovem e descontraído, esconde um hábil estratega político. Renzi não teve qualquer problema em negociar um entendimento com Berlusconi, que embora esteja afastado do governo e ter sido expulso do Senado, controla ainda muito do que passa dentro do seu partido, O Povo e a Liberdade e dizer na altura certa que o governo de Letta tinha as “pilhas gastas”.

E quem soube dar um golpe palaciano deste género, que em muito recordou os tempos e ares de Tony Blair, não ia desperdiçar a possibilidade de tirar todas as vantagens possíveis de ser útil a Angela Merkel. “Itália vai a Bruxelas com o objetivo de alcançar um pacote de reformas especializado e atempado, ligado a uma visão unificada. E pede que a flexibilização permitida pelas regras da União seja reconhecida” disse Renzi perante o Senado, assegurando que a Itália é hoje “mais forte” porque voltou a ter “auto-confiança” e “autoridade” para se sentar de novo à mesa de negociações na Europa.

Renzi precisa mesmo deste alívio orçamental, já que como outros países europeus, vê cada vez mais longe a possibilidade de cumprir as metas do défice e da dívida a que está obrigado pelo Tratado Orçamental. Uma das hipóteses apontadas para moeda de troca do apoio a Juncker é que quando este se tornar presidente da Comissão, subverta as regras do cálculo do défice e retire o investimento da despesa dos países. E é aqui que entra Merkel.

A chanceler, apesar de ser uma apoiante pouco convicta de Juncker, está pressionada internamente, devido à coligação com o SPD, para avançar com um plano de estímulo e Sigmar Gabriel, vice-chanceler, já disse mesmo que se os países se comprometerem com reformas, devem obter mais tempo para diminuir o défice. Mas nem toda a gente é assim tão fácil de convencer. Às exigências de Renzi, Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, respondeu:  “O único problema que alguns países têm é que precisam de cumprir as regras”.