O Banco Espírito Santo publica esta quarta-feira os resultados do segundo trimestre do ano, os primeiros depois da saída de Ricardo Salgado da liderança do banco e depois de três das entidades do Grupo Espírito Santo estarem já sob proteção de credores no Luxemburgo.

Os resultados são muito esperados pelo mercado, ainda mais depois de cancelada a assembleia geral do banco, que estava marcada para quinta-feira. Mas muitos dos analistas que habitualmente cobrem o banco têm a avaliação suspensa e por isso não estão a divulgar estimativas. Estes serão também os primeiros resultados com Vítor Bento na presidência do banco — embora o gestor só tenha entrado já no decorrer do terceiro trimestre.

O Observador falou com dois analistas, que apontam para prejuízos antes dos efeitos extraordinários, nos primeiros seis meses do ano, entre os 165 e os 180 milhões de euros, mas também que existe muita incerteza em torno do que pode ser incorporado nas contas dos primeiros seis meses.

Albino Oliveira, analista da Fincor, diz que o mercado está a antecipar um prejuízo de 61 milhões de euros só para o segundo trimestre do ano (o BES teve prejuízos de 89 milhões nos primeiros três meses do ano), enquanto João Lampreia do BIG cita uma média de estimativas da Bloomberg que aponta para um prejuízo de 179 milhões de euros para os primeiros seis meses (uma vez mais, antes de efeitos extraordinários).

É aqui que as contas complicam: “Tal como o nome indica, o facto de excluir efeitos extraordinários, torna-se previsível que as perdas líquidas do BES sejam substancialmente superiores ao referido anteriormente”, diz João Lampreia. O Expresso adiantou já a hipótese de, tudo junto, os prejuízos atingirem os três mil milhões de euros.

Tudo depende da forma como a nova administração pretende apresentar as contas. “O pedido de proteção face a credores por parte da Espírito Santo Financial Group e da Espírito Santo Internacional ocorreu já no terceiro trimestre de 2014. Adicionalmente, a nova administração do BES tomou posse em julho, ou seja com o 3º trimestre já a decorrer. Contudo, não é possível colocar de parte a hipótese de a nova administração preferir antecipar o reconhecimento de perdas que seja eventualmente necessária realizar, em virtude da exposição do BES ao Grupo Espírito Santo”, explica Albino Oliveira.

O consenso é que os prejuízos vão aumentar e que ainda está por conhecer o resultado da reestruturação do GES e o impacto nas contas do BES, tal como certas unidades que poderão trazer mais problemas, caso da subsidiária em Angola, o BESA.

“Naturalmente, o plano de reestruturação do Grupo Espírito Santo poderá ter implicações em todo este processo”, explica Albino Oliveira da Fincor.

Esta quarta-feira, diz Albino Oliveira, os investidores quererão “maior visibilidade” sobre a exposição ao GES e da garantia dada pelo Governo de Angola ao BESA (que caso não seja honrada, pode provocar um buraco na ordem dos 1,7 mil milhões de euros, segundo contas do Citigroup).

O analista do BIG acredita que o BES vai mesmo precisar de fazer um novo aumento de capital para suprir as perdas com a exposição direta e indireta ao GES, que estima “não deverá ser inferior a dois mil milhões de euros”, um montante que, diz, “parece ser indicativo quanto a um eventual futuro aumento de capital”.

João Lampreia acredita também que o valor das imparidades vai aumentar substancialmente na próxima divulgação de resultados e diz que apesar de não terem estimativas no BIG sobre este valor, acreditam que estas não serão “inferiores a cerca de dois mil milhões de euros”, às quais deverão acrescer outras imparidades de crédito que ainda não contemplam.

O Expresso avançava esta segunda-feira que, com a inclusão dos efeitos extraordinários, o BES pode apresentar esta quarta-feira prejuízos que podem atingir valores recorde de três mil milhões de euros, cerca de 700 milhões de euros acima das últimas estimativas, porque o auditor do banco, a KPMG, encontrará ainda mais imparidades do que se supunha inicialmente.

A confirmar-se este resultado, o BES deverá mesmo precisar, e rapidamente, um novo aumento de capital.