“É um filme já visto, um clássico da política portuguesa (…) é uma fuga às responsabilidades”, é assim que José Sócrates caracteriza a situação que se criou em torno da nova administração do BES. No seu comentário semanal na RTP, referiu o “silêncio absoluto” do governo, que está escondido atrás dos “chamados reguladores”, e apontou o dedo ao governador do Banco de Portugal, que detém “a maior responsabilidade”.

José Sócrates equiparou a situação vivida a uma “crónica de sucesso”, na qual todos os passos dados são encarados como positivos: desde o aumento do capital do BES ao facto de a instituição bancária ter sido dividida. “Ficámos muito melhor, segundo alguns, quando o banco foi à falência, ficámos maravilhosamente melhor quando entrou Vítor Bento (…) agora vamos ficar muito melhor porque se foi embora um economista e vem aí um banqueiro”. Cada passo, diz Sócrates, é apresentado como um caso de sucesso.

“Lembro-me sempre de alguém que classificava Vítor Bento como uma escolha acertada, afinal de contas era um homem de pensamento e não de ação”, disse. Nas palavras de Sócrates, o que aconteceu foi “gravíssimo” e tem consequências negativas para a credibilidade de quem conduz o processo, mas também para a confiança dos depositantes e para a economia portuguesa — “esta demissão é gravíssima e tem responsáveis”. Sócrates apontou o dedo aos acionistas que nomearam a primeira administração, mas também a ministra das Finanças e o governador do Banco de Portugal — este último tem “especial responsabilidade” pela nomeação da administração do banco.

“O governador nunca soube expor com clareza qual o plano para o banco”, disse Sócrates – que nunca escondeu as suas profundas divergências com Carlos Costa desde que aconteceu o resgate do país em 2011 -, acusando-o de ter mais em conta a imagem da instituição, uma estratégia apelidada de “bizarra e contraditória”.

Questionou-se de igual modo sobre os ativos do novo banco e referiu que o que está em jogo são dinheiros públicos. “O fundo de resolução tem alguns milhares de milhões de euros que dizem que são dos bancos. Erro. Esse dinheiro é do Estado. Está-se a brincar com o fogo”.

Já sobre as condições de continuação do governador, José Sócrates disse apenas: “Vamos ver, acho que isto foi mau de mais”. O governador do Banco de Portugal tem um mandato de cinco anos, que termina em 2015 (e não pode ser interrompido).

Seguro acusado de insultar a história do PS (de Sócrates)

Sócrates foi de opinião que as primárias vão além do âmbito do Partido Socialista e que dizem respeito ao país. Para ele têm sido um sucesso tendo em conta o número de participantes inscritos. “Não é uma disputa para o partido, mas para responder às necessidades do país”.

“O PS já teve muitas disputas. Acho que o próximo líder vai ganhar de forma convincente” e ter uma legitimidade indiscutível, por ser aquele eleito com maior número de votos. Por esse motivo, na opinião de José Sócrates, não faz sentido os partidos da direita pensarem que o PS vai ficar dividido.

Para o comentador, o debate político entre os dois candidatos teve momentos baixos, aos quais faltou “elevação”. Mais uma vez, Sócrates manifestou o seu apoio por António Costa, mas só depois de afirmar que a culpa não foi dos dois intervenientes políticos, mas apenas de António José Seguro. “Falar de traição parece um insulto àquilo que é a história do partido”, disse em relação ao atual líder socialista. Uma referências às críticas de Seguro à governação do próprio Sócrates.