A 28 de setembro de 1979, os socialistas reelegiam Félipe González como líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o irmão socialista do PS. Mas González tinha começado uma relação conturbada com o então líder do PS, Mário Soares. Soares, com a revolução dos cravos fresca, não convidou o espanhol a discursar no primeiro congresso socialista de 1975. Quem subiu ao palco foi o líder dos comunistas espanhóis, o que provocou um mal-estar entre os dois – “Os comunistas dos outros são sempre melhores que os nossos”, terá dito. Mas Soares tinha como objetivo piscar o olho à esquerda mais à esquerda, ao mesmo tempo que rompia com o Movimento das Forças Armada, num Portugal a ferro e fogo. Hoje, Portugal vive outros dias complicados – com o cenário de eleições antecipadas em cima da mesa – e o PS continua a querer piscar o olho ao eleitorado à esquerda com António Costa a prometer um Governo de esquerda e muitos a duvidar dessa intenção. Faz esta terça-feira um mês que António Costa foi escolhido como o candidato a primeiro-ministro do PS. Mas afinal o que mudou neste novo PS?

Apesar de o partido ainda não estar oficialmente nas mãos de Costa – só será eleito secretário-geral no fim de novembro -, as mudanças ao fim de um mês foram mais visíveis no Parlamento.

“Dentro de um partido democrático, quando há mudança de líder não há revoluções. Há mudanças de estilo, de forma de estar na política, mas não há uma revolução”.

As palavras ditas ao Observador são de Eduardo Ferro Rodrigues, o homem escolhido por Costa para protagonizar uma “revolução” na bancada parlamentar socialista.

Mal foi eleito candidato a primeiro-ministro, Costa teve de tomar três opções: duas fáceis e outra conturbada.

  1. Não ao Orçamento do Estado – Era tão esperada quanto fácil de tomar. Costa queria ir além da “abstenção violenta”, que caracterizou a abstenção de Seguro ao primeiro orçamento deste Governo, e difícil seria votar de maneira diferente àquela que tem sido a posição do partido para os documentos de 2013 e 2014;
  2. Fim da discussão sobre redução de deputados – Foi o último sonho político de Seguro e o primeiro a cair às mãos de Costa. Logo na semana a seguir às eleições primárias, os socialistas retiravam dois projetos que tinham sido entregues por António José Seguro já em plena campanha paras as eleições primárias do PS: o projeto de resolução que pedia alterações no sistema político entre elas a redução do número de deputados e o projeto de lei que agravava as incompatibilidades de titulares de cargos políticos e altos cargos públicos. Esta última, apesar de não ter sido criticada, acabou por cair por arrasto.
  3. Renegociação da dívida – Foi o momento mais incómodo para o novo PS. Entalado entre a assinatura de quatro membros da bancada, entre eles Ferro Rodrigues, e a direita a pressionar para saber afinal qual é a posição dos socialistas neste ponto específico, o PS arranjou uma saída que mais não foi que propor um debate, sem definir a posição final do partido. O jogo de cintura valeu aos socialistas no Parlamento o primeiro debate mais quente com todos os outros partidos, da esquerda à direita a pressionar uma resposta socialista. Foi a única proposta a passar e vai dar azo a um debate depois da discussão do Orçamento do Estado, mas continua sem se saber o que defende António Costa.

A esquerda que tinha ouvido Costa prometer um governo de esquerda –  e ouvido as palavras que disse no congresso do LIVRE -,  teve aí o primeiro impacto e apressou-se a apontar desvios à estratégia política de Costa.

Uma das principais críticas ao novo PS tem sido essa mesma: a de que ainda se conhece pouco o que pensa António Costa sobre questões-chave para a gestão do país seja dívida pública, seja finanças públicas, com especial enfoque para impostos. Mesmo assim, neste caso, Costa já defendeu que se devia ter optado primeiro por reduzir o IRS em vez do IRC, como está definido no Orçamento para 2015.

Mas porque não diz Costa o que defende? “São tudo questões prematuras neste momento“, diz Ferro Rodrigues. Francisco Assis, que foi candidato às eleições europeias, faz análise semelhante num artigo de opinião que escreveu no Público. Diz Assis que os “apressados e estouvados analistas” que se enganem, porque António Costa não deverá preparar uma “uma revolução no programa, no discurso ou na estratégia do PS”.

Fazer as pontes no partido

Pelo menos no que diz respeito ao programa, Costa já afastou essa ideia de revolução. Deixou o programa a cargo de Maria Manuel Leitão Marques. E quando foi ao largo do Rato numa das primeiras vezes depois de ser eleito, garantiu que vai aproveitar o trabalho das plataformas Novo Rumo e Laboratório de Ideias e Propostas para Portugal.

Também já assegurou a representatividade dos apoiantes de António José Seguro. Manteve reuniões com Álvaro Beleza para a apresentação de uma lista conjunta que será apresentada a tempo do congresso do final do mês. Os seguristas ficarão com um terço dos lugares, uma vez que foi essa a percentagem que Seguro obteve nas primárias do PS.

Apesar de ser já o líder do partido (apenas não tem o título oficial), Costa teve de lidar com a demissão de Seguro – a quem não dirigiu palavra no discurso de vitória – e com a nova figura na liderança, Maria de Belém Roseira, que assumiu o cargo de secretária-geral interina e depois pôs o lugar à disposição apesar de lá continuar até ao congresso.

A decisão foi tomada pouco antes da reunião da comissão nacional, por ventura, a mais rápida da história socialista e aquela que ficará só nos livros socialistas porque foi a primeira de António Costa. Mas essa reunião também mostrou a Costa que as formalidades são para respeitar, naquele caso, a vontade de Maria de Belém que travou o debate no órgão máximo entre congressos. Aliás, foi o próprio Costa que notou que afinal, ainda não manda como quer. A decisão de Maria de Belém coincidiu com a decisão de Costa em escolher para o lugar de presidente do partido, Carlos César.

A falta de formalidade tem, no entanto, deixado Costa com alguns problemas de organização. Ferro Rodrigues lembra que esta é uma “situação bastante diferente do que o partido viveu até hoje” e, portanto, “a única coisa que faz com que as coisas funcionem bem é a relação direta entre o líder da bancada e o candidato a primeiro-ministro”.

A mesma dificuldade é notada por Eduardo Cabrita que recorda que este é também um “período de transição até ao congresso”, mas que isso não tem sido impedimento na prática:

“Temos uma direção da bancada renovada e sente-se um maior sentimento de unidade e participação e mobilização no Parlamento”.

As polémicas

Se no partido ainda está tudo em águas de bacalhau à espera do congresso, o mesmo não se pode dizer do discurso público. Há muito do espaço mediático que se concentra agora em Costa – este só sairá da Quadratura do Círculo em novembro (sendo substituído por Jorge Coelho). Para o bem e para o mal. Aumentou o escrutínio sobre os temas quentes da Câmara Municipal de Lisboa, desde:

  • As inundações em Lisboa – Umas horas de chuva intensiva, dias de enxurrada de críticas a António Costa, o autarca. Este sacudiu as inundações do capote dizendo que “não existe solução para as inundações”. Vários apontaram-lhe a falta de um plano de drenagem da capital que está na gaveta há sete anos, mas com o sol, o assunto voltou a ficar esquecido.
  • As “taxas e taxinhas” lembradas pelo ministro da Economia, Pires de Lima – Costa defendeu a possibilidade de avançar com uma taxa sobre o turismo;
  • Alterações aos estatutos da EMEL – A câmara dividiu-se nos apoios à proposta de alteração de estatutos da empresa que monitoriza o estacionamento em Lisboa com a oposição a denunciar tiques de maioria absoluta.

Mas também houve espaço para a troca de acusações entre António Costa e o Governo. Começou brando nesta relação, com um discurso no 5 de outubro virado para dentro da câmara municipal, mas cedo apareceram divergências.

A mais importante trica com o Governo é mesmo a proposta de eleições antecipadas que tem deixado São Bento em polvorosa. Foi isso que foi defender quando se reuniu com o Presidente da República no início de outubro sobre o Orçamento do Estado e é essa a proposta que o Governo rejeita. Tal como Costa rejeitou o convite de Passos Coelho para se sentar à mesa e discutir a reforma do Estado.

A antecipação de eleições é, aliás, a proposta forte deste novo PS que acena com, por exemplo, o que defendem os parceiros sociais. “As pessoas estavam já cansadas, desalentadas relativamente ao quadro que nós tínhamos, mas não encontravam caminho mobilizador para uma alternativa. O que julgo que há hoje, desde os parceiros sociais, por exemplo, é que há uma ideia que é fundamental antecipar as eleições. Se o pedem é porque se percebe que o atual ciclo acabou”, diz ao Observador, Eduardo Cabrita, o presidente da Comissão de Orçamento e Finanças.

Para Cabrita, essa diferença acabou por se refletir “quer nas sondagens quer no desespero que mostra este comportamento do Governo”.

A outra polémica, mais recente, tem a ver com os fundos comunitários. Costa criticou o Governo por desaproveitar dinheiros de Bruxelas e a resposta veio rápida. O Governo está atento a este novo líder do PS e não o quer deixar sem resposta.

Os homens do sr. presidente

Para o confronto político, Costa chamou Ferro Rodrigues, Carlos César, Eduardo Cabrita e Vieira da Silva, que é o responsável pela área de economia e finanças na Assembleia da República. Para a discussão mais técnica continua a dar palco aos apoiantes mais jovens.

João Galamba continuará a ser a cara socialista na discussão do Orçamento do Estado na Comissão de Orçamento e Finanças e Pedro Nuno Santos ficou responsável pela mais importante comissão de inquérito que vai começar: a comissão de inquérito à gestão do BES e do Grupo Espírito Santo. De resto, Ana Catarina Mendes tem sido relevante no apoio político e Marcos Perestrello tem sido o homem que mais tem falado em nome do PS sobre outros temas, desde assuntos de defesa, à polémica com Rui Machete ou mesmo sobre Educação.