Congresso do PS

Sócrates, Aquele-Cujo-Nome-Não-Pode-Ser-Pronunciado

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Ausente, mas presente. Nos corredores e no palco do congresso socialista, José Sócrates esteve presente, mas inominável. Entre os militantes que falaram no assunto, nenhum ousou pronunciar o nome.

Como se esperava, José Sócrates foi a sombra do primeiro dia do congresso socialista

AFP/Getty Images

Como o vilão da saga Harry Potter, José Sócrates apareceu neste primeiro dia de congresso socialista como Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado. No palco, o nome do ex-primeiro-ministro nunca chegou a ser ouvido. Nos corredores, e entre os congressistas menos conhecidos do grande público, o nome pairava em cada esquina, mas também nem por isso se pronunciava com à vontade. Referiam-se à prisão de José Sócrates como “isso” ou “aquilo”, ou como “os acontecimentos recentes”. Sócrates, o inominável ou o Quem-Nós-Sabemos.

Na história do feiticeiro de Hogwarts, se o nome de Voldemort fosse pronunciado significava que algo de muito mau podia acontecer. Pelo sim pelo não, foi mais ou menos assim que o congresso socialista geriu a situação da prisão do ex-governante socialista. Com controlo e precaução. E a estratégia parece ter corrido bem a António Costa, já que não houve ninguém que tivesse fugido muito à linha traçada e o nome nunca chegou a ser pronunciado. Mais: poucos foram os que se aventuraram em elogios ao governo do partido socialista, ou mesmo referir-se a medidas lançadas por José Sócrates. E esta é uma diferença para anteriores congressos, mesmo durante a liderança de António José Seguro. Houve quem falasse da “herança” ou que o partido “tinha memória” e que não renegava o “passado”. Mas o passado, a memória e a herança nunca ganharam nome.

Entre os militantes ouvidos pelo Observador a opinião que reinou foi de que se falou pouco no assunto, “mas sentiu-se”. Para Isilda Lemos, militante socialista há cerca de oito anos, “Sócrates ficou lá fora” e assim deve continuar, mas não por o PS querer pôr o passado para trás das costas (ou para debaixo do tapete), apenas porque o congresso “não serve para pensar no passado, mas sim para planear o futuro”, defendeu ao Observador a militante vinda de Viseu. “Obviamente que [Sócrates] está presente na preocupação dos militantes mas não é um assunto que diga respeito a este congresso, que aliás já estava marcado antes de se saber disto”, diz. Disto, leia-se, da detenção de José Sócrates.

Houve mesmo quem dissesse que o congresso esteve “muito chocho”. Um militante de Felgueiras, que não quis ser identificado, disse ao Observador que já viu congressos “bem mais animados” nos seus mais de dez anos de militância. E arriscou mesmo dois motivos para o pouco entusiasmo que diz reinar entre os congressistas este ano: primeiro, “os acontecimentos recentes” (isto é, a detenção de José Sócrates). Depois, outro fantasma, o da “substituição” – “para não dizer outra coisa” – de Costa por Seguro nas primárias de setembro, uma ferida que pelos vistos ainda continua aberta entre alguns socialistas.

Aos microfones ou fora deles, o tópico tem sido gerido com cuidado. Pelo menos até ao momento, mas nunca se sabe. Até ao lavar dos cestos é vindima. “A militância é livre, pode haver militantes a falar disso, mas até agora ainda ninguém o fez muito abertamente, e ainda bem”, disse ao Observador Tiago Barbosa Ribeiro, um dos delegados eleitos pela concelhia do PS Porto. Para este delegado, António Costa conseguiu mobilizar o congresso e unir os congressistas. E isso vê-se desde logo na obediência dos militantes ao pedido do secretário-geral para separarem as águas. “À justiça o que é da justiça”, disse Isilda Lemos, sublinhando a máxima repetida até à exaustão nos últimos dias pelos dirigentes socialistas.

Ainda assim, há entre os delegados quem preferisse que Sócrates tivesse sido convidado a entrar. “Está-se a falar pouco disso, devia-se falar mais”, afirmou Teresa Oliveira, uma militante de Gondomar que defende que a prisão do ex-governante é uma “injustiça” e uma questão meramente política.

O elefante no meio da sala

Com o avançar da noite, os congressistas ficaram mais arrojados e alguns subiram ao palco para encarar o “elefante no meio da sala”, como lhe chamou o presidente de Caminha, Miguel Alves. A ex-ministra Gabriela Canavilhas foi quem arriscou mais, e foi a única que tentou pedir uma salva de palmas para o ex-primeiro-ministro. “Peço uma saudação para os ausentes, os que gostariam de estar cá e não estão”, disse. Chamou-lhe ausente, não José Sócrates. Mas as palmas vieram.

Antes, na sua intervenção inicial, António Costa tentou arrumar o assunto falando dele, mas dizendo para não se falar mais. Chamou-lhe “choque brutal”, não José Sócrates. Nem os amigos mais chegados ousaram pronunciar o seu nome. Pedro Silva Pereira, que era número dois no governo de Sócrates, iniciou a sua intervenção dirigindo-se diretamente ao assunto, mas rematou propositadamente à barra. Disse que a prioridade do PS era fazer oposição ao Governo e construir uma alternativa – “é para isso e para mais nada que estamos aqui”. Chamou-lhe “mais nada”. O histórico socialista Manuel Alegre repetiu o número. Chamou-lhe “choque emocional” e disse que o PS não tinha medo de “fantasmas”. O nome pairou, mas mais uma vez, temendo a maldição, ficou por pronunciar.

Enquanto isso, em Évora, alguns congressistas quiseram ir visitar o ex-primeiro-ministro ao Estabelecimento Prisional precisamente neste dia de reunião socialista. Foi o caso de Renato Sampaio, André Figueiredo e Isabel Santos. No regresso a Lisboa trouxeram com eles o nome impronunciável para dizerem que “está bem e está determinado em defender-se”, mas quando subiram ao palco, nem Renato Sampaio ousou quebrar a regra de ouro. Outros, como Sérgio Sousa Pinto, José Lello e Francisco Assis, ainda não foram a Évora mas disseram aos jornalistas que tencionam ir. Por estima pessoal, por o “trazer no coração”, como disse Lello.

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