Levar África à Lua. O objetivo é claro, mas de concretização difícil. Uma organização não-governamental sul-africana, a Foundation for Space Development, lançou uma campanha que tem precisamente como finalidade levar a tecnologia africana ao satélite da Terra. No caminho até à Lua, que deverá demorar ainda cerca de dez anos, os organizadores da iniciativa esperam pôr a investigação espacial ao serviço do continente africano, que é ainda olhado pelo resto do mundo com algum preconceito.

“Os miúdos em toda a África podem pegar num telescópio e vê-la [a Lua]”, diz Jonathan Weltman, criador do projeto, ao jornal inglês The Guardian. A Africa2Moon, como se intitula a iniciativa, quer precisamente inspirar esses miúdos de hoje a serem os cientistas espaciais de amanhã. Mas não só: à medida que mais pessoas se forem associando ao projeto, cria-se igualmente um mercado de trabalho mais especializado e evita-se a fuga de cérebros de África para outros continentes, que é atualmente um dos problemas que essa região do globo enfrenta. “Pelo menos uma em cada nove pessoas com graus universitários deixa o continente”, lê-se no site da organização.

Para já, na primeira fase, o objetivo é recrutar estudantes universitários de todo o continente africano. Para tal, a Africa2Moon lançou uma campanha de crowdfunding na internet que pretende angariar 150 mil dólares até ao fim de janeiro. Neste momento, a iniciativa obteve pouco menos de 13 mil dólares.

Daqui a dez anos, prevê Weltman, deverá já ser possível haver uma sonda espacial africana a orbitar ou estacionada na Lua, capaz de enviar imagens do satélite em tempo real, que até poderão ser utilizadas nas salas de aula do continente, contribuindo dessa forma para continuar a sensibilizar as crianças e jovens do futuro para a importância da exploração científica.

Mas não terá África prioridades mais urgentes do que ir à Lua? Isso mesmo foi questionado por diversas pessoas, nomeadamente nas redes sociais, lembrando que o continente ainda se debate com a epidemia de ébola, enormes desigualdades sociais e económicas e graves deficiências educacionais.

“Uma proposta modesta: em vez de olharmos para o espaço, porque não criar um programa de exploração oceânica? As profundezas ainda estão inexploradas”, sugere este utilizador do Twitter, professor, que, de seguida, explica porque diz isto.

“Os meus alunos no Ruanda interior não conheciam os oceanos nem as criaturas marinhas e muitos não acreditavam em tubarões ou baleias”.

Jonathan Weltman responde às críticas. “África tem preocupações mais urgentes? Sim, sem dúvida!”, escreveu no blogue do projeto. “Significa isso que não devemos ir à Lua ou que não tentemos outros objetivos científicos? Na minha opinião, é o contrário. Significa que temos de tentar ir à Lua e tentar outros projetos audaciosos, ousados e memoráveis.”

“Se não planearmos o futuro, onde é que ficamos? É absurdo pensarmos que não devemos continuar a nossa investigação e exploração. Se não o fizermos, perderemos cada vez mais pessoas até que fiquemos 100% dependentes do resto do mundo”, afirmou ainda ao Guardian.

Atualmente há diversos países africanos com projetos espaciais, especialmente no campo dos satélites, que são fundamentais para o continente. Durante 2015, está previsto que o primeiro africano negro vá ao espaço. Trata-se de Mandla Maseko, DJ sul-africano de 25 anos que fará um voo a 100 quilómetros da superfície da Terra.