António Costa falou pela primeira sobre o tabu dos candidatos presidenciais desde que António Guterres deixou a porta aberta para Belém, apesar do prolongamento do seu mandato na ONU até dezembro. Questionado pelos jornalistas à saída de um encontro com a direção do CDS sobre até quando o PS iria ficar à espera de Guterres, o líder socialista mostrou-se confiante e sem pressas face às presidenciais.

“Tenho a certeza de que o engenheiro António Guterres, ou outra personalidade da área política do PS, não deixará de se apresentar para honrar aquilo que tem sido uma boa tradição do partido: apresentar bons presidentes da República e Portugal precisa de bons presidentes da República”, disse, sublinhando que não é o partido que apresenta candidatos, mas o contrário.

Tentando relativizar a questão dos avanços e recuos daquele que é assumidamente para muitos socialistas o melhor candidato possível, Costa fez questão de frisar que as eleições presidenciais “não envolvem partidos”, não cabendo aos socialistas “propor candidatos”. “Tenho a certeza de que não faltarão na área política do PS candidatos que se apresentam no momento próprio”, rematou.

Um dos últimos socialistas a pronunciar-se sobre o tabu de Guterres tinha sido António Vitorino, no seu espaço de comentário habitual na SIC Notícias, onde mostrou sobretudo confiança numa candidatura do ex-primeiro-ministro a Belém. “É um candidato ganhador e com perfil”, confessou, admitindo, no entanto, que “pode não ser o único” já que há tradição de haver mais do que um candidato à esquerda.

Mas há uma pedra no caminho, que se chama ONU. Apesar de o próprio Guterres ter sublinhado, em declarações ao Expresso, que era “livre de decidir a sua vida” depois de o Sol ter noticiado que o seu mandato como alto comissário das Nações Unidos para os Refugiados iria ser prolongado de junho até dezembro, o timing apertado mantém a dúvida acesa.

Para António Vitorino essa é uma questão relevante, já que Guterres “não dispensa de ter de fazer campanha eleitoral”, e dezembro já pode ser tarde. É que, para o socialista, “o grau de notoriedade [de Guterres] é elevado” mas não para as pessoas com menos de 30 anos, que “não têm memória”. António Guterres está desde 2005 longe da política portuguesa, assumindo há dez anos o cargo de alto comissário das ONU para os Refugiados e há quem diga que está bastante bem posicionado para substituir Ban Ki-moon como secretário-geral da ONU.

A verdade é que Guterres tem agora dois entraves a um avanço para Belém. Por um lado, o tempo. É que se o mandato for mesmo prolongado de junho para dezembro, fica com o calendário apertado já que as eleições presidenciais são em janeiro de 2016 e no final do verão espera-se que os candidatos já estejam no terreno. Por outro, as aspirações à liderança da ONU.

Entre os socialistas, a ideia que reina é de confiança de que Guterres não deixará o partido sem candidato. Mesmo que a prioridade do ex-primeiro-ministro seja a ONU, e não Belém, o Observador sabe que o PS acredita que Guterres avançará com uma candidatura caso haja movimentações fortes e definitivas à direita.