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Pintura

Onde está a obra de arte mais roubada da História?

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A propósito do desaparecimento da réplica do quadro "Inferno", que foi levada das ruas de Lisboa, recorda-se uma obra com 600 anos e que acumula 13 crimes, entre furtos de Napoleão e Hitler.

Autor
  • Sara Otto Coelho

Em 1934, alguém entrou na Catedral belga de St. Bavo e roubou dois painéis de uma obra-prima da pintura flamenga do século XV. O “Retábulo de Gent”, também conhecido por “Adoração do Cordeiro Místico”, nunca mais ficou completo, mas bateu um recorde. É a obra de arte mais roubada da História.

Se os irmãos Hubert e Jan van Eyck fossem vivos, rir-se-iam do roubo feito à réplica de “Inferno”, que na quinta-feira desapareceu da lisboeta Rua da Rosa, míseras 48 horas depois de ali ter sido instalado pelo Museu Nacional de Arte Antiga.

Jan van Eyck terminou os 12 painéis da obra em 1432. Em cada um podem ver-se cenas bíblicas, com destaque para “A Anunciação”, em cima, e “O Sacrifício do Trabalho”, em baixo. As três figuras centrais representam Deus, a Virgem Maria do lado esquerdo e São João Batista à direita. A encomenda foi feita por Jodocus Vijd, à época o equivalente ao presidente da câmara da cidade. A ideia era depois doá-la à capela da igreja de São João Batista, na qual ele e a mulher eram benfeitores, atualmente a Catedral de St. Bavo.

Ao longo de quase 600 anos, o trabalho dos irmãos van Eyck sobreviveu a incêndios, a ataques de iconoclastas furiosos com o culto de imagens religiosas e a 13 crimes no total, entre os quais um roubo durante as Guerras Napoleónicas e outro na Segunda Guerra Mundial. Os nazis esconderam os painéis desmontados, juntamente com outras sete mil obras, numa mina de sal, história que pudemos ver recentemente no cinema com o filme “The Monuments Men — Os Caçadores de Tesouros”. Lá está o “Retábulo de Gent”, aos 20 segundos do trailer:

A história do único furto que ainda não foi resolvido é recordada pela publicação americana Observer. Numa noite de abril de 1934, alguém entrou na Catedral de St. Bavo, desmembrou a obra e saiu com dois dos 12 painéis, “Os Juízes Justos” e “São João Batista”.

O bispo de Gent terá recebido um pedido de resgate, mas recusou-se a pagar. Houve mais contatos por parte dos ladrões, o que permitiu recuperar o painel de “São João Batista”, dividido em dois. Isto porque cada janela está pintada também no verso, e o misterioso ladrão quis expôr ambas as imagens.

retábulo de gent

À esquerda, as pinturas que se veem com as janelas fechadas. À direita, o painel “Os Juízes Justos”, desaparecido até hoje ©D.R.

Quem o roubou? Não se sabe. De acordo com o Guardian, um corretor da Bolsa chamado Arsène Goedertier teve um ataque cardíaco num comício e mandou chamar o seu advogado. Sussurrou-lhe que apenas ele sabia onde estava o painel em falta e mandou-o procurar um envelope guardado na gaveta da mesa onde costumava escrever. Lá, encontrou cópias a papel químico de algumas notas de resgate e uma mensagem com uma pista sobre “Os Juízes Justos”:

Repousa num local onde nem eu, nem ninguém, pode tirá-lo sem despertar atenção pública.”

Enquanto não se encontra a peça que falta à obra de arte mais roubada do mundo, é possível ver esta obra-prima da pintura flamenga do século XV na Catedral, em Gent. No lugar do painel original está uma réplica, à espera de ser substituída pelo original. E, tendo em conta a mensagem do possível ladrão, o melhor é andar com os olhos abertos.

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