A 31 de dezembro de 1995 era publicada a última tira de Calvin and Hobbes. Durante dez anos, as tiras criadas por Bill Waterson encheram diariamente as páginas de mais de dois milhões de jornais no mundo inteiro, numa altura em que a banda desenhada e o jornalismo andavam de mãos dadas. Passados 20 anos, as aventuras de Calvin e do seu fiel companheiro continuam a ser tão populares como eram no início, e contam com uma fiel legião de fãs. Afinal, não é por acaso que foi chamada “a banda desenhada mais profunda da América”.

A primeira tira de Calvin and Hobbes saiu em meados dos anos 80. Na altura, Waterson trabalhava como designer “numa cave sem janelas de um supermercado”. “Desenhava anúncios de carros e de supermercados. Odiava cada minuto dos dois milhões de minutos que trabalhava ali”, confessou, durante um discurso que deu numa universidade, em 1990. Os tempos livres também eram passados a desenhar, mas a desenhar aquilo de que realmente gostava — banda desenhada.

Foi assim, entre anúncios de carros, que o ilustrador teve a ideia para Calvin and Hobbes. Depois de várias recusas, a primeira tira foi finalmente publicada a 18 de novembro de 1985. Nessa, ficamos a saber como é que Hobbes, o tigre que gosta de sandes de atum, chegou às mãos de Calvin, uma criança de seis anos.

Só mais tarde é que percebemos que Hobbes não é, afinal, um tigre verdadeiro, mas sim o peluche que se transforma aos olhos de Calvin. “Acho que é assim que a vida funciona”, disse uma vez Waterson. “Nenhum de nós vê o mundo exatamente da mesma forma, e eu desenhei isso de forma literal na tira. O Hobbes tem mais a ver com a natureza subjetiva da realidade do que com bonecos que ganham vida.”

Nos dez anos seguintes, Waterson continuou a publicar a banda desenhada em milhares de jornais do mundo inteiro. Mais tarde, as tiras soltas foram reunidas em vários livros, dos quais já foram vendidas mais de 30 milhões de cópias. Apesar da popularidade, o ilustrador nunca teve interesse na criação de merchadising oficial. Aliás, os produtos licenciados são muito poucos.

Em 1995, Waterson anunciou que a saga ia chegar ao fim: “Vou parar com Calvin and Hobbes no final do ano. Esta não é uma decisão recente ou fácil, e saio com alguma tristeza. Os meus interesses mudaram, e acredito que fiz o que pude dentro das limitações dos prazos diários e dos pequenos painéis. Tenho vontade de trabalhar a um ritmo mais moderado, com menos compromissos artísticos.”

O fim de Calvin and Hobbes significou mais do que a morte de uma das bandas desenhas mais queridas. Significou o desaparecimento do próprio Waterson. O ilustrador raramente dá entrevistas, e são poucos os trabalhos em que participa. A última ilustração que se conhece foi a realizada para o poster da edição de 2015 do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême. Foi a primeira prancha completa publicada por Waterson desde o fim de Calvin and Hobbes.

A última tira da famosa banda desenhada saiu a 31 de dezembro de 1995. Nela, ao saírem de casa, Calvin e Hobbes descobrem uma paisagem repleta de neve. “Wow! Nevou mesmo durante a noite!”, exclama Calvin. Apesar de aparentemente simples, a tira resume tudo aquilo que é Calvin and Hobbes. “É um mundo mágico, Hobbes, velho amigo… Vamos explorá-lo!