Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito à primeira volta. Pela primeira vez, um Presidente civil foi escolhido logo na sua primeira candidatura ao cargo supremo da democracia portuguesa numa eleição não-competitiva.

A chave da sua estratégia era evitar a segunda volta para não correr o risco de um rassemblement do “povo de esquerda”, que não podia não impressionar quem começou o seu percurso político entre o post-salazarismo e a revolução.

Essa estratégia tinha um fio condutor – despolitizar a eleição presidencial. Desde logo, era preciso banalizar a eleição e, para tal, Marcelo Rebelo de Sousa substituiu a sua campanha por uma peregrinação solitária de um candidato sem programa politico, sem comissões de honra, sem bandeiras, sem partidos, sem cartazes, sem comitiva e sem comícios. Por outro lado, o candidato presidencial negou a polarização entre esquerdas e direitas – Marcelo Rebelo de Sousa reservou para si um lugar excêntrico na “esquerda da direita” – e impos essa regra a todos os candidatos, todos “independentes”, todos iguais. Finalmente, e sobretudo, o candidato nacional quis rejeitar a divisão política entre amigos e inimigos, implícita na sua recusa veemente em reconhecer qualquer dos seus parceiros na eleição presidencial como um adversário.

A estratégia teve sucesso, mas tem custos. O preço da vitória é a ausência de mandato político. O Presidente eleito obteve a confiança da maioria dos votantes e vai assumir a responsabilidade constitucional de garantir a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições. Mas nenhuma dessas condições está adquirida no contexto de crise nacional, ibérica e europeia que vai dominar a política portuguesa nos próximos cinco anos.

Na ausência de uma maioria parlamentar sólida e coerente, a crise vai dar ao Presidente da República um poder cada vez maior: nenhuma outra instituição democrática tem uma legitimidade e condições de estabilidade comparáveis.

O novo Presidente vai ter de escolher entre dois cenários, que definem, para o bem e para o mal, as fórmulas políticas possíveis para sair da crise. O primeiro cenário, até à data temido por todos os Presidentes, é um Novo Bloco Central, provavelmente o único modo de inverter o declínio nacional sem rupturas adicionais. O segundo cenário, sempre presente em Belém, é a fundação de uma IV República, sem se poder prever à partida se esse novo regime constitucional seria presidencialista ou parlamentarista.

O Presidente eleito, como todos os responsáveis, conhece esse quadro de possibilidades e, por acção ou por omissão, vai escolher uma das alternativas. Porém, sem um mandato político, ninguém pode saber qual vai ser a sua decisão.

* Carlos Gaspar foi membro da Casa Civil de Jorge Sampaio de consultor na Presidência de Mário Soares.