Pedro Sánchez demitiu-se após ter perdido uma importante votação ao início da noite de sábado. Após muita discussão, o líder do PSOE conseguiu que fosse votada, de braço no ar, a realização de um congresso extraordinário, mas disse que se demitia caso perdesse a votação — o que aconteceu por 25 votos (132 contra 107). Tem sido um dia de facas longas entre os socialistas espanhóis.

Onze horas foi quanto duraram as reuniões na sede do PSOE até à demissão de Pedro Sánchez. Com a saída do líder, o partido ficará a ser gerido até ao próximo congresso por uma comissão gestora, que deverá ser liderada pelo presidente das Astúrias, Javier Fernández. Ainda antes desse congresso o comité federal irá decidir se facilita a investidura de Mariano Rajoy (PP) como presidente do governo espanhol.

Pedro Sánchez assegurou, pouco depois da sua demissão, que dará o seu “apoio leal” à direção de gestão, que deverá ser anunciada nas próximas horas para liderar o PSOE depois da sua demissão de secretário-geral. O ex-líder socialista repetiu que foi com “orgulho” e “honra” que durante dois anos liderou os socialistas espanhóis PSOE e despediu-se dos militantes e simpatizantes. Através do Twitter, disse que “hoje, mais que nunca” estava “orgulhoso de ser militante do PSOE”.

Quem também já reagiu foi o presidente do partido Ciudadanos, Albert Rivera, que disse pouco depois da demissão que “os espanhóis não têm mais tempo nem merecem mais bloqueio” político. “Ninguém está à frente de Espanha, só seguiremos em frente com mudanças e diálogo”, assinalou Rivera, na sua conta pessoal no Twitter.

Ao longo do dia, as peripécias foram muitas. De um lado, os apoiantes de Susana Díaz — a número dois, mas também principal opositora de Sánchez — começaram por não reconhecer legitimidade ao atual líder e tentaram entregar nos órgãos do partido uma moção de censura ao líder. Do outro, os apoiantes de Sánchez passaram o dia a lutar por uma votação (para congresso extraordinário) que acabaram por perder. E até travaram uma moção de censura, mas não evitaram que o líder se demitisse.

Antes da votação de mão no ar, os apoiantes de Sánchez chegaram a colocar uma urna numa sala onde se reunia o comité federal, o órgão de cúpula do PSOE, para votar o congresso extraordinário (para 12 e 13 de novembro).

No entanto, de acordo com o El País, a colocação da urna foi feita “às escondidas e sem avisar”, o que levou a “gritos ao ponto da votação ser parada”. Susana Díaz terá mesmo chorado, ao mesmo tempo que lamentou: “Estão a matar o PSOE“. Este episódio levou a um toca-a-reunir dos opositores de Sánchez, que terão conseguido as assinaturas necessárias para a moção de censura (20% dos 250 delegados presentes na sede do PSOE). A moção de censura não foi aceite pela mesa — fiel a Sánchez — mas não evitou que o líder fosse forçado a sair após ter perdido a votação para a realização de um congresso extraordinário.

A convocação do congresso, bem como de eleições primárias (para 23 de outubro) tinham sido os objetivos de Sánchez ao marcar esta reunião dos órgãos nacionais. Isto acontece, no entanto, depois de na quarta-feira o líder ter enfrentado uma demissão em massa de 17 dos 38 membros da comissão executiva federal.

A demissão de Sánchez é uma vitória para Susana Díaz, presidente do Governo Regional da Andaluzia, que tem sido o principal rosto de oposição ao líder. Além da moção de censura, tinha já antes proposto a votação de um relatório elaborado por três dos cinco membros da Comissão de Garantias que defendia a destituição de Pedro Sanchéz do cargo de secretário-geral do PSOE.

Um dia de guerra entre os socialistas espanhóis

A reunião do Comité Federal do PSOE começou às 9h (8h em Lisboa) mas, uma hora depois, foi decretado um descanso de 45 minutos. Às 13h, Verónica Pérez, presidente da Mesa do Comité, anunciou que iria ser feita uma nova pausa na reunião do organismo, desta vez por tempo indeterminado. Quatro horas depois de se ter reunido na sede do partido, o Comité Federal parecia estar longe de alcançar um consenso relativamente ao futuro do PSOE. Os socialistas só se voltariam a juntar uma hora depois, já passava das 14h, com Pedro Sanchéz a apelar ao regresso dos membros demissionários.

A ordem de trabalhos incluía a discussão da demissão dos 17 membros do Comité Executivo, a marcação de um congresso extraordinário em novembro e de primárias para 23 de outubro. Segundo o relato do El Mundo, o ambiente no interior da sala era, durante a manhã, semelhante ao de um funeral. O silêncio reinava e nas caras dos socialistas era evidente uma profunda preocupação. Ao início da tarde, a tensão continuava a sentir-se no interior da sede do PSOE.

Depois de retomados os trabalhos, Pedro Sanchéz chegou-se à frente para pedir a readmissão dos 17 membros do Comité Executivo que se demitiram em protesto contra a sua liderança na passada quarta-feira, para propor a convocação de outro Comité Federal. Palavras que não foram bem recebidas pela maioria dos presentes, que há muito deixaram de ver em Sanchéz a figura de um líder. Descontentes com secretário-geral, houve até quem o considerasse um “insulto” ao partido.

Na sexta-feira, Sánchez tinha anunciado que, se o Comité Federal decidisse viabilizar o Governo de Mariano Rajoy através da abstenção, que demitia imediatamente do cargo. “Se o Comité Federal alterar o voto para a abstenção, não poderei administrar uma decisão que não partilho”, garantiu. Apesar da posição frágil de Sanchéz no interior do partido, muitos espanhóis pareciam ainda acreditar em Sánchez. À porta da sede do partido, estavam reunidas desde manhã várias dezenas de apoiantes, segurando cartazes com a cara do socialista e com as palavras “No PP” (“Não ao PP”).

Enquanto o PSOE se desmoronava, a situação política em Espanha ia-se tornando mais e mais complicada. Tudo teria de ser desbloqueado até 31 de outubro, altura em que o rei Felipe terá de voltar a dissolver o parlamento e convocar novas eleições que, segundo a Constituição, acontecerão a 25 de dezembro.