Nos filmes norte-americanos é comum ver grupos de amigos adolescentes a enterrarem o que podemos chamar de cápsulas do tempo. Lancheiras, caixas de sapatos ou simplesmente garrafas: tudo serve para guardar cartas, autocolantes, selos, discos e fotografias, que anos mais tarde são desenterrados para recordar um tempo que já não regressa.

Mas antes de Hollywood, um capelão de uma catedral espanhola já sabia o que era uma cápsula do tempo. O grupo Da Vinci Restauro foi contratado para restaurar uma estátua de Jesus Cristo crucificado. A peça de arte, que estava na Igreja de Santa Águeda, no norte de Espanha, tinha começado a abrir pequenas fendas e a soltar-se da cruz. Mas foi quando o grupo de preservação levantou a estátua para a observar que surgiu a grande surpresa.

Feita em madeira, a estátua era oca por dentro. E dentro daquilo que é o rabo da estátua, estava – nada mais nada menos – do que duas cartas. Escritas à mão, amareladas, tinham a data de 1777 e estavam assinadas por Joaquín Mínguez, o tal capelão da catedral de Burgo de Osma.

As duas cartas descrevem o dia a dia económico e cultural na Espanha do século XVIII. O El Mundo conta que o autor começa por revelar que o escultor da imagem de Jesus Cristo é Manuel Bal, um artista que criou outras obras em madeira espalhadas pelas igrejas da região. Joaquín Mínguez elabora sobre o bom período agrícola que se vive mas lamenta as pragas – como a febre tifóide – que devastam as populações.

Fora da vida rural, o capelão detalha o clima político que vive em Espanha. Fala sobre o rei Carlos III, o monarca da altura, e menciona a Inquisição, que só terminou em 1834. As duas cartas foram enviadas ao Arcebispo de Burgos, onde ficarão arquivadas. Mas o propósito de Joaquín Mínguez não foi esquecido: foram feitas cópias dos documentos originais e colocadas no exato sítio onde foram encontradas. Afinal, a intenção das cápsulas do tempo é serem descobertas e fascinar quem as encontra.