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As taxas de juro implícitas na dívida pública portuguesa negociaram, pela primeira vez, a um nível inferior aos juros de Itália, na região dos 1,7% a 10 anos. Com alguma incerteza política em Itália (eleições em 2018), que não tem feito tanto ruído graças ao bom momento das economias europeias, a trajetória de convergência entre a dívida de Portugal e de Itália terminou, nesta sexta-feira, com os dois países a negociarem com juros semelhantes. Portugal está a beneficiar, por comparação, da expectativa de que a agência Fitch decida esta tarde subir o rating de Portugal — se não se confirmar, os juros podem “explodir”, diz um analista. Mas a TVI24 noticiou a meio da tarde que a subida de rating vai mesmo confirmar-se.

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A diferença entre os juros de Portugal e de Itália chegou a ser superior a 800 pontos-base, ou seja, oito pontos percentuais, no pico da crise em inícios de 2012. Esta sexta-feira, 15 de dezembro, marca o dia em que a convergência entre os dois países, vistos como de risco semelhante — dívida elevada, crescimento historicamente baixo, riscos no setor bancário, etc. — pelos investidores. Apesar de tudo, Itália conservou os ratings acima de lixo, por ser uma economia mais robusta e com maior parte da dívida detida por nacionais. Portugal só voltou a ter um rating de qualidade há três meses, pela mão da S&P, e a Fitch poderá seguir-lhe as pisadas.

“A atualização pela Fitch do rating de Portugal será o acontecimento-chave para Portugal”, dizem analistas do Commerzbank. “Mantemos o nosso cenário central, que é de uma promoção para BBB- (já acima de lixo), o que significará que as obrigações do Tesouro português vão passar a ser incluídas nos principais índices de obrigações, a partir de janeiro”, acrescenta o banco alemão.

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É em antecipação a esta possível decisão pela Fitch que Portugal tem gozado de condições cada vez mais favoráveis no mercado de dívida nos últimos meses, com muitos investidores mais ágeis a comprarem a preços mais favoráveis na expectativa de, caso a subida de rating se confirme, vender a investidores mais passivos mais caro.

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Se Portugal ascender a “grau de investimento” coloca o país em vários índices importantes de obrigações. Muitos investidores investem não em emitentes específicos mas em índices (da mesma forma que se compram ações de um país, ou, sobretudo, deste ou daquele setor de atividade). Os títulos são comprados seguindo a ponderação de um índice e, portanto, se a dívida portuguesa volta a constar desses índices isso leva a que vários investidores tenham obrigatoriamente de comprar os títulos, pela simples razão de terem de acompanhar o índice.

Cada índice tem a sua metodologia: para alguns bastará haver um rating de qualidade para estar no índice (desde que seja de uma destas três principais agências) mas para outros, por exemplo, pode ser necessário duas agências, pelo menos, com rating positivo — S&P e Fitch, já chegam, portanto.

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Tendo em conta que o movimento positivo recente de Portugal, nos mercados, se deveu à expectativa de que a Fitch suba (mesmo) o rating, o que acontece se a agência preferir esperar mais ou pouco? “Os prémios de risco podem explodir caso a Fitch não corresponda às expectativas“, diz o Commerzbank, lembrando que a agência tem o rating com perspetiva positiva há apenas seis meses.