“Até 94 anos de prisão”. É a pena a que Louise e David Turpin — os pais que mantiveram os 13 filhos acorrentados e subnutridos na sua casa, na Califórnia — estão sujeitos se forem condenados. O casal foi ouvido esta quinta-feira pelo tribunal do condado de Riverside e será ouvido novamente — em data a determinar — para ser formalmente acusados.

Para já, Louise e David Turpin declararam-se inocentes de todas as acusações quando foram ouvidos esta quinta-feira no Tribunal de Riverside, na Califórnia. O juíz fixou uma fiança de 12 milhões de dólares para cada um e agendou o início do julgamento, no mesmo tribunal, para o próximo dia 23 de fevereiro, às 13h30 (hora local).

São 38 crimes no total. O casal foi acusado de 12 crimes de tortura, sete de abuso contra um adulto dependente, seis de abuso de menores de 12 de falso sequestro. David, o pai das crianças, está ainda acusado de um crime de um “ato obsceno a uma das crianças”. Depois da audição, em conferência de imprensa, foram feitas novas revelações pelo procurador responsável pelo caso Michael Hestrin, que confirmou também a informação de que as crianças só estavam autorizadas a tomar banho uma vez por ano.

Uma das questões que estava por descobrir era se o casal — que declarou insolvência duas vezes — tinha dificuldades económicas. O procurador revelou que os pais compravam comida, como “tartes”, mas não permitiam que as crianças comessem. Daí que as crianças estivessem subnutridas. Sabe-se agora que a vítima de 29 anos — uma mulher que era a mais velha — tinha menos de 40 quilos. “Uma das crianças de 12 anos tinha o peso de uma de 7”, contou ainda.

[Veja aqui o vídeo com as novas revelações sobre o que se passava na casa dos horrores californiana]

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Outra das dúvidas que ainda estava por esclarecer era há quanto tempo os 13 filhos do casal estava acorrentandos. Tudo começou como forma de castigo, em que as crianças eram amarradas com cordas. Só mais tarde passaram a ser presos com correntes e cadeados. O procurador revelou que os castigos podiam “durar semanas ou meses”.

A denúncia foi feita por um dos 13 filhos do casal: uma jovem de 17 anos que “parecia ter 10” devido ao seu “tamanho pequeno” e “aparência magra”. A jovem conseguiu fugir na madrugada de domingo pela janela e denunciar a situação às autoridades. Sabe-se agora que, no momento em que fugiu, a jovem ia com outro irmão, que acabou por voltar para trás com medo. A fuga já estava planeada há dois anos.

Nunca ninguém desconfiou, exceto um vizinho que via movimentos estranhos durante a noite. Sabe-se agora que as crianças dormiam de dia. “Iam para a cama por volta das 4h00 e 5h00 da manhã”, revelou.

[Veja aqui o vídeo que conta a história dos pais que acorrentaram os 13 filhos em casa]

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Louise e David estão em prisão preventiva sujeitos a uma fiança de nove milhões de dólares (cerca de 7,3 milhões de euros) desde segunda-feira — um dia depois de se ter descoberto o que se passava naquela a que já chamam ‘casa dos horrores’, no número 160 da Rua Muir Woods, em Perris, cidade no condado de Riverside, Califórnia.

Quando a polícia chegou à casa, este era o cenário: “Várias crianças acorrentadas às suas camas com correntes e cadeados, na escuridão e num ambiente com cheiros nauseabundos“. Eram 13 crianças, todos filhos biológicos do casal, como veio a ser comprovado mais tarde. Dada a “aparência frágil” e os sinais de subnutrição, as autoridades assumiram que todos eram menores de idade. Mas, na realidade, dois já não eram: um tinha 29 anos — o mais velho –, e outro 18. A mais nova tinha apenas dois anos. Na terça-feira, o casal foi acusado de nove crimes de tortura e dez crimes de abuso de menores.

Viagens à Disneyland, fotos no Facebook e uma ‘família perfeita’. A história do casal que acorrentou os 13 filhos

A “casa dos horrores” californiana é o mais recente de vários casos de crianças e adolescentes mantidos em cativeiro. Outros casos aconteceram na Argentina e na Áustria. O argentino Domingo Bulacio, que ficou conhecido como o “monstro de Villa Balnearia”, transformou a filha numa escrava sexual durante 20 anos e teve oito filhos dela. Na Áustria, Wolfgang Přiklopil abusou e manteve em cativeiro Natascha Kampusch durante oito anos, entre 1998 e 2006. Também na Áustria, anos mais tarde foi descoberto outro caso: Josef Fritzl ,ou o “monstro de Amstetten”, violou a filha durante 24 anos, teve sete filhos dela e matou um deles.

Do “monstro de Amstetten” à “menina da cave”. Outras três casas do terror além da da Califórnia

Perante os pormenores macabros que tem vindo a ser revelados sobre os 13 filhos acorrentados pelos pais na Califórnia, este caso está perto de vir a integrar a lista dos mais mediáticos da história. A página do Facebook que o casal tinha em conjunto é apenas um local que mostra detalhes daquela que queria parecer a família perfeita. Os pais das crianças publicavam fotografias da família aparentemente feliz, onde as crianças apareciam pálidas mas muito sorridentes. Na maioria das vezes, vestidas com roupas iguais.

Esta terça-feira, familiares e vizinhos da família deram os seus testemunhos. As irmãs de Louise falam ambas do rigor com que as crianças eram educadas e lamentam não terem autorização para ver os sobrinhos. Elizabeth Flores, uma das irmãs, recordou memórias macabras do tempo em que viveu durante uns meses com a irmã e com o cunhado, David, enquanto andava na universidade, no Texas: “Ele [David] fez coisas que me deixaram desconfortável. Se eu ia tomar banho, ele ia lá e via-me a tomar banho. Era como uma piada. Mas ele nunca me tocou, nem nada”.

“Ele via-me a tomar banho”. Os relatos de familiares e vizinhos das 13 crianças acorrentadas pelos pais

Um antigo vizinho da casa do número 160 da Rua Muir Roods — que descreve a família “como um culto” — contou que chegou a ver cenas macabras entre a meia-noite e as três da manhã: “Eles marchavam para a frente e para trás durante a noite. A luz estava sempre ligada durante todo o tempo e eles [os pais] faziam as crianças marchar para a frente e para trás”. A mulher de Mike recorda que as crianças falavam “de forma robótica, monótona e ao mesmo tempo”.

Agora que Louise e David foram ouvidos em tribunal, juntam-se mais detalhes ao caso da “casa dos horrores” da Califónia. Ainda assim, outras perguntas ficam à espera de resposta: Há quanto tempo o casal mantinha os filhos acorrentados? Qual a justificação dos pais? Alguém da família tinha conhecimento do que se estava a passar? Como é que os pais sustentavam as 13 crianças?

O que falta saber sobre o caso dos pais que acorrentaram os 13 filhos na Califórnia