Espionagem

Rússia nega uso de gás neurotóxico militar: teria feito “múltiplas vítimas” em Salisbury

Um responsável da diplomacia russa negou que Skripal tenha sido envenenado com químico militar o ataque. "Qualquer substância tóxica militar teria feito múltiplas vítimas no local do envenenamento."

MAXIM SHIPENKOV/EPA

Um alto responsável da diplomacia russa afirmou esta quarta-feira que se o ex-espião russo Serguei Skripal tivesse sido atingido por um agente neurotóxico militar, como sustentam as autoridades do Reino Unido, o ataque “teria causado múltiplas vítimas”.

Serguei Skripal, de 66 anos, e a filha Yulia, 33, foram encontrados inconscientes a 4 de março em Salisbury, no sul de Inglaterra, e permanecem hospitalizados em estado crítico. As autoridades britânicas determinaram que os dois foram envenenados com Novichok, um gás neurotóxico de fabrico russo.

“Qualquer substância tóxica militar teria feito múltiplas vítimas no local do envenenamento. Mas em Salisbury não foi esse o caso”, declarou um alto responsável da diplomacia russa, Vladimir Ermakov, no decorrer de uma reunião com diplomatas estrangeiros organizada por Moscovo para explicar a sua posição no caso. O caso Skripal provocou uma crise diplomática entre a Rússia e o Reino Unido, que já levou à expulsão de 23 diplomatas russos do território britânico e ao congelamento das relações bilaterais. Moscovo respondeu expulsando 23 diplomatas britânicos e suspendendo a atividade do British Council na Rússia.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo convocou os embaixadores acreditados em Moscovo para uma reunião, esta quarta-feira às 12h00, para transmitir a sua posição em relação ao envenenamento. A embaixada do Reino Unido informou o Ministério russo de que o embaixador não participaria e iria fazer-se representar por outro funcionário. “É mais uma eloquente manifestação de uma situação absurda em que se colocam questões, mas não se quer ouvir as respostas”, afirmou à imprensa o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Na reunião com os diplomatas, Vladimir Ermakov considerou ainda que o envenenamento de Skripal pode ter sido uma de duas situações: ou um ataque terrorista que as autoridades britânicas não conseguiram evitar ou uma “encenação” montada por Londres. “Ou as autoridades britânicas não são capazes de garantir proteção contra este tipo de, digamos assim, ataque terrorista, ou eles participaram direta ou indiretamente – não acuso ninguém do que quer que seja – na encenação de um ataque contra um cidadão russo”, declarou Ermakov. Número dois do departamento de não-proliferação do MNE russo, Ermakov reiterou que a Rússia “nada tem a ver (com o envenenamento)” uma vez que, insistiu, o ato “não beneficia em nada [a Rússia]”.

Por outro lado, Ermakov disse que o Reino Unido está a “esconder factos”, pelo que o governo russo receia que provas chave possam “desaparecer”. A Rússia já tinha alegado anteriormente que não tem motivos para matar Skripal, que foi condenado por espiar a favor do Reino Unido, mas foi libertado em 2010 numa troca de espiões. Moscovo também insiste que concluiu a destruição dos seus arsenais de armas químicas no ano passado, sob supervisão internacional. O cientista russo Leonid Rink declarou à agência estatal russa RIA Novosti na terça-feira que tanto o Reino Unido como outros países poderiam, facilmente, sintetizar Novichok, uma vez que o químico Vil Mirzayanov emigrou para os EUA e revelou a fórmula deste agente neurotóxico.

Além do Reino Unido, também a embaixada dos Estados Unidos enviou à reunião um diplomata de baixa hierarquia. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia Maria Zakharova afirmou esta quarta-feira de manhã, através da rede social Twitter, que pelo menos “140 pessoas já estavam acreditadas para a reunião”. “O importante não é o estatuto (das pessoas que participam na reunião), mas sim que exista uma discussão”, afirmou.

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