A retirada das cinco produções que a Netflix tinha previsto apresentar na Croisette (entre as quais o filme que Orson Welles deixou incompleto, “The Other Side of the Wind”), por causa da lei francesa obrigar a produtora a esperar três anos entre a estreia em sala e a exibição dos filmes em “streaming” na sua plataforma, se os quisesse apresentar em competição no festival, e aquela não garantir que passem em cinema em França; e a ausência de muitos dos realizadores consagrados e já vencedores da Palma de Ouro que são “habitués” da Selecção Oficial, ou por não terem filmes prontos, ou por preferirem mostrá-los nos dois grandes festivais do final do Verão, Veneza e Toronto, são dois dos factos mais assinaláveis do 71º Festival de Cannes, que abre hoje e se prolonga até ao dia 19.

Daí que Thierry Frémaux, o delegado-geral do festival, tenha falado este ano numa “renovação” do certame (que se reflecte numa Competição menos frequentada por caras muito conhecidas), também a pensar na decepção que foi a edição de 2017 e que levou os “Cahiers du Cinéma” a escrever que seria uma catástrofe se Cannes 2018 fosse “vira o disco e toca o mesmo”. Este ano Portugal está representado na secção paralela Un Certain Regard pelo documentário “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora, rodado numa aldeia de índios brasileiros; e por Daniel Abrantes com “Diamantino” (co-realizado com Daniel Schmidt) e “Amor Avenidas Novas”, a curta de Duarte Coimbra, ambos na Semana da Crítica. Na secção Cannes Classics passa ainda, em cópia restaurada, “A Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha.  Eis 12 filmes para tomarmos o pulso a Cannes 2018.

“Todos lo Saben”

de Asghar Farhadi

Depois de  “O Vendedor”, o realizador iraniano voltou à Europa para filmar, em Espanha, com Javier Bardem, Penélope Cruz e o argentino Ricardo Darín, este drama sobre um triângulo amoroso que vai revelar as fraquezas de todos aqueles que estão envolvidos nele. (Selecção Oficial-Competição)

“Shoplifters”

de Hirokazu Kore-eda

O realizador japonês, de quem vimos recentemente “O Terceiro Assassinato”, e que vai rodar em seguida com Catherine Deneuve e Juliette Binoche, traz à Croisette esta fita sobre uma criança de rua órfã, recolhida por uma família de Tóquio que se dedica à pequena delinquência e a ensina a roubar. (Selecção Oficial-Competição)

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“Under the Silver Lake”

de David Robert Mitchell

Autor de “Vai Seguir-te”, um dos grandes filmes de terror dos últimos anos, o americano David Robert Mitchell propõe agora um policial passado na Califórnia, sobre um homem (Andrew Garfield) obcecado pelo assassínio de um multimilionário e pelo rapto de uma rapariga. (Selecção Oficial-Competição)

“Dogman”

de Matteo Garrone

Já premiado em Cannes por “Gomorra”, o realizador italiano abandona a fantasia de “O Conto dos Contos” para regressar ao realismo e ao quotidiano com este “Dogman”. É a história de um homem que tem um negócio de “grooming” de cães e dá o título ao filme, definido por Garrone como “um ‘western’ urbano”. (Selecção Oficial-Competição)

“The Wild Pear Tree”

de Nuri Bilge Ceylan

Várias vezes premiado em Cannes, inclusivamente com a Palma de Ouro por “Sono de Inverno” em 2014, o turco Nuri Bilge Ceylan traz aqui um drama pastoral sobre um homem com aspirações literárias e que volta à aldeia onde nasceu, de novo escrito com a mulher, a actriz Ebru Ceylan. (Selecção Oficial-Competição)

“Burning”

de Lee Chang-dong

O sul-coreano Lee Chang-Dong não fazia um filme deste “Poesia”, de 2010. Está agora de volta à realização com esta adaptação de um conto do escritor Haruki Murakami, anunciado como um “thriller” que segue dois jovens e uma rapariga envolvidos por puro acaso num estranho incidente. (Selecção Oficial-Competição)

https://youtu.be/05sF-RFbihA

“The Man Who Killed Don Quixote”

de Terry Gilliam

Eis enfim o aziago projecto que Terry Gilliam não conseguia concretizar, agora envolvido numa controvérsia legal e que tem participação portuguesa na produção. Adam Driver faz o papel de um realizador de publicidade que está a filmar em Espanha, e encontra um homem (Jonathan Pryce) que diz ser D. Quixote. (Fora de Competição-Projecções Especiais)

“The House That Jack Built”

de LarsvonTrier

Absurdamente banido do festival em 2011 por ter dito uma piada sobre Hitler, Lars von Trier volta a estar presente este ano com aquele a que chama o seu “filme mais brutal”. Matt Dillon interpreta um assassino em série, que o enredo segue ao longo de 12 anos. Também com Uma Thurman e Bruno Ganz. (Fora de Competição-Projecções Especiais)

“Dead Souls”

de Wang Bing

Cronista maior da China contemporânea, e do passado recente do país através dos seus longos e detalhados documentários, Wang Bing foi filmar e ouvir, nas oito horas e 15 minutos de “Dead Souls”, um punhado de sobreviventes dos campos de trabalho forçado do tempo do maoísmo. (Fora de Competição-Projecções Especiais)

“Gueule d’Ange”

de Vanessa Filho

A artista multidisciplinar francesa Vanessa Filho estreia-se na realização com este drama em que Marion Cotillard personifica Marlene, uma mãe solteira e alcoólica, que subitamente abandona a filha de oito anos para ir atrás de um homem que conheceu num clube nocturno. (Un Certain Regard)

“Pájaros de Verano”

de Ciro Guerra e Cristina Gallego

O colombiano Ciro Guerra (“O Abraço da Serpente) juntou-se à sua mulher, e também produtora dos seus filmes, Cristina Gallego, para assinar esta obra passada nos anos 70 e 80. Uma família indígena envolve-se no tráfico de droga na Colômbia e atraiçoa os seus valores e tradições ancestrais. (Quinzena dos Realizadores)

“Guy”

de Alex Lutz

Na sua segunda longa-metragem como realizador, o actor francês Alex Lutz  interpreta Guy Jamet, um septuagenário e antiga vedeta da canção romântica, que se vê escolhido como objecto de um documentário biográfico por um jovem jornalista convencido que ele é seu pai. (Semana da Crítica)