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Pseudociência

Terraplanistas querem fazer um cruzeiro para provar que a Terra não é um globo

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Para os defensores da Terra plana, o mundo em que vivemos é um disco, o espaço não existe, e todas as fotografias e descobertas anunciadas pelas agências espaciais foram inventadas.

Os terraplanistas defendem que a Terra é um disco com um anel de gelo à volta

Flat Earth Society

Há 500 anos, Fernão de Magalhães deu início à primeira viagem de circum-navegação do planeta, uma viagem de barco à volta do mundo. Não demorou só 80 dias como Phileas Fogg, no livro de Júlio Verne, mas a expedição de três anos permitiu reforçar a ideia (já proposta na Grécia Antiga) de que a Terra era redonda — um globo, para ser mais claro. Agora, um grupo de terraplanistas — da organização Flat Earth International Conference — quer fazer um cruzeiro para demonstrar que esta ideia está errada e que a Terra é plana, noticiou o jornal britânico The Guardian. Apresentamos-lhe os argumentos, mas não se deixe enganar: a Terra é realmente um globo e gira à volta do Sol.

Fazer um cruzeiro com quartos luxuosos, restaurantes de menus requintados e um sem número de espaços de lazer, parece um projeto tentador. O único problema é a navegação dos navios se baseia no princípio de que a Terra é um globo. “As cartas náuticas foram desenhadas tendo isso em mente: que a Terra é redonda”, disse ao The Guardian Henk Keijer, um antigo capitão de cruzeiros que percorreu o planeta durante mais de 23 anos de carreira.

Talvez seja suficiente para os terraplanistas seguir sempre em frente, mantendo o Ártico nas costas — que ocupará o centro do disco — e ir em direção à margem desta Terra que, segundo eles, é como um prato. Se está a preparar o argumento de que se a Terra fosse um disco, os barcos cairiam num precipício, os terraplanistas já têm uma resposta para isso: a Antártida é um anel de gelo que dá a volta ao disco, impedindo que os barcos caiam nessa cascata do desconhecido. Mais, para os defensores da Terra plana, nunca ninguém conseguiu percorrer toda a extensão de gelo, o que deixa em aberto a possibilidade de terminar num muro de gelo intransponível. [Isto de nunca ninguém ter atravessado a Antártida é facilmente contestado, mas os terraplanistas devem ter um bom argumento conspirativo contra isto.]

Caso algum dos passageiros do cruzeiro se decida finalmente a atravessar esse anel de gelo e caso não encontre um muro que o impeça de cair dos limites do disco também não há problema. O mais provável é que ocorra o efeito Pac-Man, segundo um dos oradores de uma conferência de terraplanistas que decorreu no Reino Unido, citado pelo site Physics and Astronomy Zone. Se não se lembra, Pac-Man era um jogo em que o protagonista (um boneco redondo amarelo) tinha de “comer” pontos enquanto fugia de fantasmas e tinha uns túneis de fuga de cada lado do ecrã — desaparecia de um lado e aparecia do outro (experimente aqui para se recordar). O efeito Pac-Man para quem chegue aos limites do disco terrestre corresponde ser teletransportado para o lado diametralmente oposto, segundo a teoria desse terraplanista.

Até o Google Maps parece querer deixar claro que me mesmo num ecrã de duas dimensões, a Terra continua a ter três e a ser um globo.

Há ainda outro problema com esta viagem de cruzeiro, é que a localização dos barcos é, normalmente, dada por GPS, e a localização por GPS também se baseiam no facto de a Terra ser uma bola. São precisos os dados de, pelo menos, três satélites (idealmente quatro) para conseguir determinar uma localização, mas a quantidade de satélites que orbitam o nosso planeta (ou seja, que giram à volta do globo) é muito maior, para que haja uma cobertura de toda a superfície. Se a Terra fosse um disco, é provável que três ou quatro satélites, que estariam sempre na mesma face da moeda, seriam suficientes.

Bem que se pode alegar que, vista do espaço, a Terra é redonda, que os satélites e a Estação Espacial Internacional gravitam à volta do globo, que não existe nenhum anel em torno do suposto disco e que até existem imagens que provam isto. Mas para muitos dos terraplanistas isto foi tudo criado pela NASA (agência espacial norte-americana) e pelos russos, para nos enganar durante a Guerra Fria, e que as fotografias foram todas manipuladas por Photoshop [talvez até mesmo antes de existirem ferramentas de edição de imagem]. Da mesma forma, para os terraplanistas, o Sol (que é muito pequenino e “voa” baixinho) e a Lua andam em círculos à volta do prato terrestre, como se de um carrossel se tratasse, por isso é que existe gelo no centro (o Ártico) e nas margens (a Antártida).

Os terraplanistas defendem que o Sol e Lua (quando acreditam nela) andam em círculos à volta do disco terrestre — Flat Earth Society

E o resto dos planetas? Bem, para alguns não passam de outras estrelas. Afinal, da Terra só os conseguimos identificar como pontos de luz. É certo que as agências espaciais já enviaram várias sondas para explorar o sistema solar e fotografar e recolher dados dos planetas e respetivas luas, mas a maioria daqueles que acreditam que a Terra é plana não acreditam que o homem ou algum objeto construído pelo homem alguma vez tenha viajado pelo espaço. Aliás, muitos nem sequer acreditam que o espaço exista. Como tal, também não acreditam que o homem tenha pisado a Lua ou que a China tenha feito pousar uma sonda no lado oculto. Mais, para muitos a Lua não é real, é só uma projeção — quase como o símbolo do Batman projetado sobre Gotham City nos pedidos de socorro.

Há ainda outro dado científico comprovado que os terraplanistas rejeitam: a gravidade — ou pelo menos, a gravidade como a conhecemos. Para estes, as marés não são causadas pelas forças da gravidade exercidas entre a Terra e a Lua, mas por efeito eletromagnético no fundo dos oceanos. Perante o facto de que a força da gravidade (e os movimentos de rotação) fazem com que a matéria se concentre em torno de uma massa central e torne os planetas e estrelas redondos, os terraplanistas respondem que a força da gravidade, a existir, não tem força suficiente para isso.

Correção: para ter uma localização mais precisa, o ideal é usar quatro satélites

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