Título: Devoção
Autor: Patti Smith
Editora: Quetzal
Páginas: 125
Preço: 15,50€

Devoção, de Patti Smith, chegou às livrarias a 4 de abril

Entre um livro de memórias (M Train) e um livro de poesia (The New Jerusalem), Patti Smith publicou um livro que mistura as duas coisas — e muito mais. De tal forma que descrever Devoção pode ser uma tarefa complicada. Nas 125 páginas da edição portuguesa, de onde se excluem as fotografias em anexo, cabem memórias antigas de uma viagem a Paris (feita com a irmã na primavera de 1969), um diário de bordo onde se relata a construção do conto que dá nome ao volume (e que também vem incluído neste), poemas (“Ashford” e “Flores siberianas”), um ensaio sobre a natureza da escrita e uma homenagem a autores que marcaram a artista norte-americana, como Albert Camus e, mais recentemente, Simone Weil.

O núcleo central do livro, recentemente publicado em Portugal pela Quetzal, é o conto “Devoção”, mas é com a viagem de Smith a Paris, ao encontro do seu editor francês, que este começa. Dos escritórios da Gallimard — onde por cima de uma lareira existe um relógio que Saint-Exupéry ofereceu ao avô de Antoine Gallimard, que gere a editora, e onde no jardim se pode encontrar a cadeira de vime branca onde Yukio Mishima foi fotografado há muito, muito tempo — Smith segue para Sète, no sul de França, para participar no lançamento do seu novo livro. É no cemitério local, onde está sepultado o poeta Paul Valéry, que a artista encontra numa lápide a palavra “Devouement”. “Devoção” — a chave e o título do texto que vai escrevendo nos comboios que apanha daqui para ali, sempre na companhia de Simone Weil, que redescobre graças a uma monografia esquecida em cima da sua mesinha de cabeceira nova-iorquina.

Weil, uma das muitas referências literárias que enchem as poucas páginas de Devoção — que acaba também por ser uma declaração de amor de Patti Smith à literatura, sua fiel companheira — leva a artista norte-americana a Ashford à procura da sua campa. Foi nesta localidade inglesa que a filósofa e ativista francesa morreu, com apenas 34 anos de idade. Numa outra aventura, relatada na reta final do livro, Smith fala da estadia em casa de Albert Camus em Lourmain, a convite da filha do próprio escritor, Catherine. Hospedada no quarto que pertenceu a Camus, a compositora e autora sente, mais do que nunca, a urgência da escrita.

“Porque escrevo?”, interroga-se nas páginas finais de Devoção. Talvez por “uma obsessão familiar de que me lembro desde criança quando me retirava das brincadeiras e do convívio com os amigos e me afastava das eventuais delícias do amor para ficar cercada por palavras e dominada por uma pulsação que me era externa”. E porque escrevemos? “Porque não nos podemos limitar a viver”, responde Patti Smith na reta final de uma viagem e de um processo criativo de que resulta o conto que enche as páginas centrais do volume. A organização interna do livro não é usual — “Devoção” surge ensanduichado entre confissões e reflexões que a norte-americana foi anotando ao longo do caminho —, mas parece ter nascido da vontade da própria autora, que quis assim partilhar com os leitores um pedaço da sua vida atual (a de antigamente aparece em outros livros).

O amor pela arte de que Smith fala ao longo das 125 páginas do seu livro, maior do que a vida, pode revelar-se através muitos outros meios e surge explorado em “Devoção”. Este conta a história de uma jovem de origem estónia com nome de rainha, Eugenia, cuja única motivação na vida é patinar — tal como a de Smith parece ser escrever. Esta derradeira paixão — obsessiva como o desejo que desperta num homem mais velho, Aleksandr Rifa, com quem forja, por necessidade, uma curta mas intensa relação — acaba por levar à sua perdição. A arte até pode libertar, mas não é isso que acontece neste texto, onde cada personagem esconde um passado marcado pela tragédia que apenas a beleza parece poder momentaneamente apaziguar.

Juntando um bocadinho daqui e um bocadinho dali, em Devoção, Patti Smith abre as portas da sua mente, revelando o seu processo criativo e refletindo, ao mesmo tempo, sobre a importância da escrita, capaz de dar sentido àquilo não tem sentido. O livro pode não fazer parte da bibliografia obrigatória de Smith (mas o conto é um bom conto), mas não deixa de ser um relato curioso, que agradará sobretudo aos fãs de uma das artistas mais interessantes do nosso tempo.