O day after foi duro, mas de resignação. Praticamente não se ouviram vozes do PSD a condenar a direção do partido por causa do resultado das europeias. Com um calendário apertado e com tanto em jogo até lá, para já a ordem é esperar para ver o que fará Rui Rio, que logo na noite das eleições anunciou que a estratégia vai mudar.

Mais do que o estilo de campanha (com mais ou menos arruadas; com mais ou menos jantares-comícios), “o fundamental é chegar até aos eleitores e conseguir passar-lhes a mensagem de que há um projeto diferente, uma alternativa que faria uma melhor governação do que a que está a fazer o partido socialista. E fazer chegar isso aos eleitores até à exaustão“.

É isso que explica o secretário-geral do PSD ao Observador. José Silvano acredita que “a quatro meses das eleições, os críticos vão meter as suas ambições pessoais de liderança em segundo plano”, pois mesmo esses “só podem querer que o PSD ganhe as eleições”. Depois disso é que poderão, segundo o secretário-geral, “voltar a expor as ideias contrárias” à direção do partido. Assim, Rui Rio conta com paz interna até às legislativas.

E deverá tê-la, de facto, e por várias razões: medo de perder lugares de deputados nas próximas legislativas, a hipótese de contribuir para o PSD descer para níveis irrecuperáveis e, por fim, não dar desculpas a Rio em caso de um mau resultado em outubro. São estas as três razões que levam dirigentes distritais e deputados do PSD — críticos e desiludidos — a não pedir a demissão de Rui Rio após o pior resultado de sempre do PSD em eleições de âmbito nacional (21,9%). Apesar disso, um líder distrital ouvido pelo Observador sintetizou o sentimento generalizado no partido “mesmo entre os que apoiam o líder”: “Assim não vamos lá“.

Já José Silvano diz ao Observador que sente que “o partido vai estar unido até às legislativas” e que de todos os “dirigentes e militantes” que o têm contactado não tem “qualquer indicação em contrário”. O secretário-geral do PSD afirma que o resultado traz “uma dificuldade”, mas também “uma oportunidade, de corrigir o que não está bem, aprendendo com os erros [da campanha das europeias]”.

Um líder distrital, que fez parte do grupo de críticos, antecipa ao Observador que não vai haver grande contestação interna pois “a um mês de fazer listas, toda a gente está à espera do seu lugarzinho de deputado. Ninguém fala com medo de perder o lugar, mas não é com medo de Rio em específico é porque no partido sempre foi assim”. Também o antigo líder da distrital de Coimbra, Maurício Marques — que se demitiu na sequência de ter apoiado a tentativa de destituir Rui Rio — diz que sente que as pessoas não contestam os resultados por haver escolha de lugares para a AR em breve. Fala em “on” e explica que não se inclui nesse rol: “Estou indisponível para ser candidato a deputado“.

Ainda assim, há quem não tenha falta de vontade para criticar. A antiga vice-presidente da bancada do PSD, Teresa Morais, antecipou esta terça-feira no Facebook que irá protestar: “Há dias para agir e dias para refletir. Espero que outros façam o mesmo e pensem bem sobre os caminhos que estão a seguir. Uma coisa tenho muito clara, desde sempre: sou uma mulher livre e não me amarrarão em pactos de silêncio“, escreveu a deputada do PSD. Teresa Morais foi visada há alguns meses por Rio no grupo de WhatsApp dinamizado por Salvador Malheiro.

Quem também não deverá ser escolhido para as listas que vão passar pelo crivo de Rio é o deputado Miguel Morgado, que na terça-feira criticou os que andam “a diagnosticar a derrota do PSD e do CDS como se o problema residisse num pretenso ataque excessivo ao divino socialismo e aos seus profetas Costa e Catarina durante a campanha”. O deputado crítico de Rui Rio fez uma série de questões que sugerem uma análise crítica à forma como Rui Rio tem liderado partido: “Não seria bom se houvesse menos sabujice e mais convicção? Menos confusão intelectual e mais coragem? Mais arrojo e menos cinzentismo?  Menos conversa mole e mais exigência? Menos socialismo e mais reformismo?”

O calendário que o próprio líder preparou ajuda a limitar qualquer ação da oposição interna. Rio está esta terça-feira em Bruxelas — onde participou na cimeira do Partido Popular Europeu — mas quarta-feira reúne com a Comissão Política Nacional, onde serão analisados os resultados das eleições, em ambiente controlado, com os elementos mais próximos e as inerências.

Já o Conselho Nacional, que podia ser potencialmente tenso depois de um mau resultado, só tem de se realizar a 26 de junho (segundo os estatutos reúne ordinariamente de dois em dois meses). Se seguir o calendário regular — mesmo que não seja o Conselho Nacional de aprovação das listas — esta reunião do órgão máximo entre congressos já será realizado em plena discussão dos candidatos nas estruturas concelhias e distritais.

Haveria, claro, sempre a hipótese de os membros do Conselho Nacional chumbarem a lista de deputados, mas Rio tratou disso numa reunião deste órgão a 26 de abril. Muitos dos críticos da “corte lisboeta” não foram até ao Conselho Nacional, agendado para uma sexta-feira de ponte entre feriado e fim-de-semana, em Viana do Castelo. O presidente conseguiu aprovar um ponto dos estatutos que obriga a que as listas de deputados sejam votadas de braço no ar, mesmo que isso seja solicitado por um quinto dos membros. O que retira espaço a golpadas.

Os críticos, que acumulam a derrota da batalha da tentativa de “impeachment” de janeiro, estão assim de pés e mãos atadas. “Isto prova que o Luís [Montenegro], que foi o grande vencedor da noite de domingo, tinha razão em janeiro”, diz um deputado crítico de Rio.

Um líder distrital diz que “agora é tempo de deixar Rio fazer o trabalho dele” e lamenta que o líder “na noite eleitoral tenha feito um discurso à PCP“, ao tentar “transformar uma derrota estrondosa num resultado razoável”. Isso, acusa, significa “falta de ambição”. A mesma fonte, que faz parte do grupo dos cinco que tentou o impeachment, acusa o presidente do PSD de se desculpar com os críticos: “Os críticos estão calados há meses e ele continua a achar que o problema é de quem diz que o rei vai nu e não o facto do rei estar nu”.

Já Maurício Marques diz ao Observador que fará tudo para “ajudar o PSD a vencer as eleições” e que acredita que “o partido vai apresentar uma proposta” para conseguir provar o “ilusionismo político do PS”, que seguirá.

Da parte da direção, tirando José Silvano esta terça-feira ao Observador, só Salvador Malheiro se pronunciou na segunda-feira, através do Facebook, onde escreveu que “a vida é feita de altos e baixos”, “de vitórias e derrotas” e que  “ontem [domingo] foi dia de uma grande derrota“. Horas depois Rui Rio fez um único tweet a dar os parabéns ao PS.

O antigo ministro Miguel Poiares Maduro também reagiu na segunda-feira ao escrutínio, escrevendo que “não há como esconder o resultado particularmente negativo do PSD que acaba por ser o que permite ao PS reivindicar como uma importante vitória um resultado que, em si mesmo, está longe de o ser”.

Também Marques Mendes foi duro. Ainda não estavam contados todos os votos e já o comentador da SIC falava numa “derrota histórica”, que considerou “um pouco chocante” e que coloca o PSD “em circunstâncias muito mais difíceis” para as legislativas de outubro.

O também antigo líder do PSD e atual líder da Aliança, Pedro Santana Lopes, estranha que no seu antigo partido ninguém peça a demissão de Rui Rio. O antigo candidato à liderança do PSD lembra que em 2005, com um resultado bem melhor, foi forçado a demitir-se. “Será verdade que, no mesmo País, um Presidente desse mesmo Partido teve, esta semana, 21.9% e ninguém pediu a demissão?”, questiona o antigo primeiro-ministro.

https://twitter.com/PSantanaLopes/status/1133396075266621441

Este tweet levou até um deputado do PSD a questionar a legitimidade de Santana para comentar assuntos internos do PSD. “Se não tivesse saído do PSD teria legitimidade para colocar essa questão. Como saiu, e face aos resultados, é melhor tratar do seu”.

De facto, o resultado das Europeias entra diretamente para o primeiro lugar na lista de piores resultados de sempre do PSD:

  1. Europeias de 2019 (com Paulo Rangel): 21,94%
  2. Legislativas de 1976 (com Sá Carneiro): 26,39%.
  3. Legislativas | Constitucionais de 1975  (com Sá Carneiro): 26,39%
  4. Legislativas de 1983 (com Mota Pinto): 27,24%
  5. Europeias de 2014 (em coligação, com Paulo Rangel): 27,71%
  6. Legislativas de 2005 (com Santana Lopes): 28,77%.

A direção de Rio agarra-se ao comparativo com 2014, quando o PSD foi em coligação com o CDS e obteve 27,71% dos votos.

  • Aliança Portugal em 2014: 27,71% (909.932 votos)
  • PSD + CDS em 2019: 28,13 % (932.300 votos)

Na verdade, em termos totais, os antigos parceiros de governo tiveram juntos mais 22.398 votos. Com um detalhe importante: agora estão na oposição e há cinco anos estavam no governo.